Leite

 

O futuro do tratamento da VACA SECA

Marcos Veiga*

Participei recentemente de um interessante encontro mundial de especialistas em mastite e qualidade do leite (2º Global Milk Quality Expert Forum), que foi realizado em Copenhague, Dinamarca. O evento foi organizado pela Boehringer Ingelheim e contou com a participação de pesquisadores e veterinários especialistas em qualidade do leite das Américas do Norte e do Sul e de alguns países da Europa. O objetivo do evento foi buscar respostas para a pergunta: qual o futuro do tratamento de vaca seca em nível mundial, considerando as diferenças entre as várias regiões e países?

Segundo Marcos Veiga, existe uma legislação em consulta pública na União Europeia para banir o uso de antibióticos com fins de prevenção na vaca seca

Desde a década de 1960, o tratamento de todas as vacas secas vem sendo recomendado como uma das medidas basilares (Programa dos 5 Pontos) para o controle de mastite contagiosa, uma vez que são inúmeras as vantagens da terapia da vaca seca. o principal benefício é que não é necessário o descarte do leite com resíduos de antibióticos. Além disso, a taxa de cura é bastante superior em relação ao tratamento durante a lactação. Como é um procedimento relativamente simples e realizado somente no final da lactação, praticamente não havia nenhuma restrição ao uso do tratamento de vaca seca, cuja função principal é a de curar os casos de mastite subclínica e, adicionalmente, prevenir novos casos após a secagem e pós-parto. As primeiras semanas após a secagem são de alto risco de ocorrer novas infecções no úbere, pois fisiologicamente acontece aumento da pressão intramamária, o que facilita a entrada de patógenos oportunistas, além de não ocorrer a desinfecção dos tetos de forma rotineira como é feito durante a lactação.

Sendo assim, o uso de tratamento de vaca seca, associado com outras medidas de controle de mastite contagiosa (contagem de células somáticas individual, pós-dipping, descarte e segregação de vacas com mastite crônica, entre outras) associado com programa de pagamento por qualidade baseado em contagem de células somáticas (CCS), resultaram em redução significativa da CCS média do tanque na grande maioria dos países desenvolvidos, os quais têm programas de controle de mastite implantados há mais de 30-40 anos. Além disso, nesses países houve uma mudança significativa no perfil dos agentes causadores de mastite durante as ultimas décadas, o qual passou de uma predominância de agentes contagiosos para a de agentes ambientais. Para dar um exemplo dessa situação, nos EUA, desde 2012 a média de CCS das vacas em controle leiteiro é de 200.000 cels/ml, sendo que somente cerca de 11% das vacas têm CCS média >400.000 cels/ml. Países como Canadá e EUA têm uma média de adoção do tratamento de vaca seca de 80 a 90% das vacas. Essa tendência de redução de CCS também ocorreu em outros países. De acordo com um pesquisador do Canadá, em dez anos é bem provável que a terapia seletiva de vaca seca seja a regra e não a exceção no Canadá.

A situação no Brasil é ainda muito diferente, pois o uso de CCS como ferramenta de controle de mastite e qualidade do leite é muito mais recente e ainda não é adotada de forma generalizada como em outros países. As estimativas mais otimistas são de que cerca de 15-20% das vacas leiteiras especializadas recebem a terapia da vaca seca no Brasil. Os poucos dados disponíveis sobre CCS no Brasil indicam uma média de CCS de 450.000 cels/ml.

Associada à mudança do perfil da mastite, outro importante contexto atual nos países desenvolvidos é o crescente aumento das restrições legais para uso de antibióticos em animais de produção, entre os quais as cadeias produtivas mais visadas são a avicultura, a suinocultura e a de produção de leite. Toda essa preocupação ocorre em razão do fenômeno do aumento de resistência bacteriana aos antibióticos. Estima-se que na Europa e nos EUA cerca de 50.000 mortes ao ano ocorram em razão de bactérias multirresistentes, podendo chegar a 10 milhões de mortes/ano em 2050. O uso de antibióticos na medicina humana tem sido fundamental para reduzir mortes por doenças bacterianas mais comuns, mas também por aumentar o tempo de vida de pessoas com doenças crônicas, como câncer, que necessitam quimioterapia, cirurgias e transplantes de órgãos.

Entre as possíveis principais causas da resistência bacteriana aos antibióticos estão o uso abusivo e imprudente de antibióticos tanto em medicina humana quanto veterinária, uma vez que existem estudos epidemiológicos que identificaram uma relação positiva entre o consumo total de antibiótico e o aumento da resistência bacteriana. Além do uso abusivo, prescrições erradas quanto à escolha do tipo de antibiótico, subdosagens e curta duração do tratamento também podem aumentar os riscos de resistência bacteriana aos antibióticos, em razão da medicação de infecções sem nenhuma informação sobre as causas, o que é muito comum nos tratamentos de mastite. As cepas resistentes podem transmitir os genes que conferem resistência para outras bactérias, as quais passam a predominar, pois as cepas não resistentes são eliminadas pelos antibióticos. Ainda que não existam estudos com evidências científicas que comprovem que o uso de antibióticos em animais de produção levem a um aumento da resistência antimicrobiana em humanos, as autoridades de saúde da maioria dos países têm aumentado as restrições ao uso de antibióticos para prevenção de doenças em animais de produção, como o uso de antibióticos na ração de aves e suínos (já proibidos no Brasil) e o uso de tratamento preventivo de vaca seca.

Atualmente, existe uma legislação em consulta pública na União Europeia para banir o uso com fins de prevenção na vaca seca, pois atualmente, o uso de selantes de tetos já permite um grau de prevenção similar ao modo convencional. Dessa forma, se essa legislação for aprovada, somente será permitido o uso para fins curativos, desde que a vaca tenha um diagnóstico de mastite (CCS dos últimos 3 meses > 200.000 cels/ml e/ou histórico de caso clínico durante a lactação). O objetivo dessa medida é restringir o uso de antibióticos somente para os casos diagnosticados com mastite no momento da secagem. De acordo com um fazendeiro da Dinamarca, que tem cerca de 550 vacas em lactação, com a implantação do tratamento seletivo de vaca seca (somente na com mastite), juntamente com o selante de tetos, o procedimento foi necessário em cerca de 40% das vacas, o que significa uma redução de cerca de 60% no uso de antibióticos.

Assim como restringir o uso de antibióticos de uma forma geral para animais de produção, em alguns países estuda-se a proibição do uso de algumas classes de antibióticos de forma exclusiva para medicina humana, pois em algumas classes são os mesmos medicamentos humanos usados em animais de produção.

Dentre as principais conclusões que podem ser tiradas das discussões é que ainda existe uma grande diferença entre os países, mesmo aqueles dentro da Europa. Por exemplo, as nações do Sul da Europa, entre os quais Espanha e Itália, ainda consideram que o uso de tratamento seletivo de vaca seca somente pode ser uma realidade provável dentro de 10 a 15 anos. Por outro lado, países do Norte da Europa e Escandinávia, entre os quais se destacam Reino Unido, Dinamarca, Noruega e Suécia, já é aplicado o modo seletivo de forma mais rotineira e tem-se posicionado de forma favorável à proibição do uso de tratamento de vaca seca para prevenção.

Considerando-se o atual estágio do controle de mastite no Brasil, na qual ainda convivemos com alta média de CCS do tanque e alta incidência de mastite clínica é pouco provável que o tratamento seletivo de vaca seca seja uma realidade no curto prazo. Por outro lado, isso poderia ocorrer em rebanhos que já atingiram um excelente controle de mastite e que mantém uma baixa CCS do tanque (< 200.000 cels/ml), pois é um tipo de medida que tem de ser avaliada de acordo com a condição da fazenda. Outras diferenças importantes são a falta de uma legislação brasileira mais rígida para exigência de prescrição veterinária de antibiótico e venda com receita (como ocorre em medicina humana e na venda de defensivos agrícolas), o que já ocorre em muitos países. Além disso, no Brasil, as estimativas de vendas de produtos para tal somente permite o tratamento de 15-20% das vacas especializadas, o que indicam que apenas uma pequena parcela é tratada na secagem.

Tratamento seletivo é a solução para uso indiscriminado de antibióticos

A título de comparação, na Argentina, estima-se que 50% das vacas recebam o tratamento na fase de secagem, o que indica um maior uso dessa ferramenta de controle. Da mesma forma, países da Ásia também não adotam a terapia como medida estratégica de controle de mastite. Esses dados permitem concluir que na atual situação não somente o Brasil, mas também demais regiões do mundo com pecuária leiteira em desenvolvimento, necessitam, na verdade, aumentar o uso do tratamento de vaca seca antes de pensar em aplicar o modo seletivo. Também é ainda patente o baixo uso de CCS individual das vacas e de cultura microbiológica para identificação da causa da mastite e o conhecimento técnico, sem os quais o avanço no controle da mastite será lento e limitado nos rebanhos brasileiros.

*Marcos Veiga é Professor Associado - Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia Universidade de São Paulo e Blogueiro no Milk Point - mveiga@usp.br