Do Pasto ao Prato

 

GENÔMICA E PRECOCIDADE SEXUAL: O ZEBU VOANDO BAIXO

Fernando Velloso é médico-veterinário e sócio-proprietário da Assessoria Agropecuária FF Velloso & Dimas Rocha – www.assessoriaagropecuaria.com.br –

Cumprimentos e saudações aos passageiros do avião da pecuária. Ele já andou meio devagar, mas agora voa bonito. Tive a oportunidade de participar de dois encontros técnicos importantes no mês passado em Uberlândia/MG: a reunião do grupo Gerar (Zoetis), somente de veterinários que trabalham com IATF, e o “XX Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos”. Saí muito satisfeito de ambos os eventos e gostaria de compartilhar alguns conhecimentos adquiridos e percepções pessoais na coluna deste mês.

Pois bem, em ambos os encontros foram apresentados muitos dados, de pesquisa e de campo, sobre a Precocidade Sexual no Nelore e uso da tecnologia da genômica (marcadores moleculares) para esse fim e outras aplicações práticas na raça Nelore.

Já abordei o assunto genômica nesta coluna como a ferramenta mais moderna disponível para a seleção de bovinos, mas gostaria de reforçar alguns conceitos básicos das justificativas e das possiblidades de uso: a) a genômica aumenta consideravelmente a acurácia das DEP’s para várias características (correspondendo aos dados de 10 a 20 progênies em alguns casos); b) antecipa as informações genéticas dos animais; c) permite a avaliação de características de difícil mensuração (precocidade sexual, habilidade materna, maciez da carne, etc.). No caso da raça Nelore, os marcadores moleculares (Clarifide Nelore) foram desenvolvidos no Brasil e com apoio e suporte técnico da ANCP. Para a raça Angus, o produto é “importado” e chama-se Global Angus, reunindo informações genéticas de reprodutores da raça em vários países (EUA, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Brasil e Argentina).

Essa ferramenta foi inicialmente desenvolvida e provada no gado de leite. A técnica permitiu a redução da idade dos touros pais ativos na raça holandesa pela metade. Se o Progresso Genético (?G) depende do Intervalo entre Gerações (GI), quanto menor o intervalo, melhor; e isso ocorre com a maior renovação dos touros pais. Lembre-se do artigo de minha coluna duas edições atrás: Mirem-se nos exemplos daquelas vacas leiteiras.

Novilhas Nelore Precoce do Rancho da Matinha

A precocidade sexual no Nelore (ou a falta dela) sempre foi considerada uma limitação para a intensificação dos sistemas de produção com zebuínos. Acreditava-se que independentemente da condição alimentar as fêmeas zebuínas não teriam condições de reproduzir em acasalamentos em jovem idade (1 ano), pois a genética e a fisiologia dos animais não os permitia. Essa condição e essa afirmação estão ficando no passado. Muitos criadores estão dedicados a identificar e selecionar fêmeas “precoces” em seus rebanhos e estão tendo muito êxito.

No primeiro desafio ou estação reprodutiva as taxas de prenhez de fêmeas acasaladas com um ano (12 a 14 meses) são muito variáveis (20, 30, 40%), mas esses resultados vão melhorando à medida que a característica vai sendo selecionada. Já não é incomum que criadores alcancem 60 a 70 % de prenhez em fêmeas Nelore de 1 ano.

A seleção pela Probabilidade de Parto Precoce (ou DEP 3P) vem aumentando muito a eficiência reprodutiva dos rebanhos e traz de carona a correlação positiva com outras características de interesse econômico: mais precocidade sexual traz mais stayability (permanência no rebanho de cria), mais acabamento; mais Área de Olho de Lombo (AOL) e mais Produção Acumulada (quilos produzidos no rebanho). Logo, a seleção para animais mais precoces não é somente a busca da intensificação da cria, mas a melhoria em desempenho de todo o rebanho.

Na apresentação de dados de campo nos dois eventos citados, a Agropecuária Fazenda Brasil (AFB) mostrou o trabalho na seleção de animais mais precoces. Além da melhoria obtida na eficiência reprodutiva do “núcleo precoce”, foi possível mostrar a boa correlação de maiores MVPs Fertilidade (marcadores moleculares) nos animais precoces (que emprenharam com 1 ano) e menores valores dos MVPs no grupo de animais que somente emprenhou aos 2 anos. Aqui consigo reunir os dois assuntos citados no título: Genômica e Precocidade Sexual. São duas tecnologias disponíveis, em desenvolvimento e em comprovação para a “pecuária de precisão”.

Outras aplicações da genômica foram abordadas nesses encontros técnicos: a apartação de touros com o uso da genômica (classificando candidatos a descarte em lotes grandes de touros) e na identificação e seleção de touros “cara limpa” em lotes de gado comercial em confinamento. Por mais inusitado que pareça e até questionável por muitos (seleção de touros em lotes de gado comercial?), é algo que já está se discutindo e fazendo.

No dia que redigi este texto, a American Angus Association publicou nota divulgando a nova calibração dos dados de genômica na raça, nos EUA, com sua base de dados superando os 108 mil animais avaliados. Ainda em março, a IBBA (International Brangus Breeders Association) anunciou o teste genômico i50K, introduzindo a raça na era da genômica.

Enfim, o gado de leite já tinha dado o recado. Os neloristas não querem perder tempo e estão voando baixo na aplicação de tecnologia. Parafraseando um amigo coach, deixo o seguinte alerta aos produtores e usuários de touros: em melhoramento genético você está avançando ou regredindo, não há como ficar boiando imune à correnteza. Troteia ou sai da estrada!