Na Varanda

 

Liderança O desafio do momento

Francisco Vila é economista, consultor internacional e diretor da Sociedade Rural Brasileira vila@srb.org.br

E stamos no meio de um intenso ciclo global de rupturas. Desde a necessidade de redefinir a convivência democrática em todos os países até o desafio de continuamente incorporar saltos tecnológicos nas empresas, sofremos choques tectônicos para os quais não fomos preparados. Exemplos não faltam. O ressurgimento de partidos extremistas nas recentes eleições na Europa, a provocação à sociedade americana pelo furacão chamado Trump, bem como a urgência de reforçar as estruturas institucionais e as políticas econômicas aqui em nossa casa são sinais da profunda reorientação em função do avanço das tecnologias de comunicação que mudaram o modo de (con)viver de todos.

Essa tendência de rupturas contínuas reflete-se em todos os níveis, desde o global até o nacional, setorial, regional e empresarial. Quem antecipar essa nova realidade e se esforçar para enxergar os caminhos da adaptação passará de vítima para vencedor dessa nova maneira de fazer as coisas - efeito da chamada “internet das coisas”.

Como tudo isso se reflete em nosso negócio de criar, engordar e terminar bovinos? Primeiro, temos que ter consciência de que essa nova maneira de ser está constantemente evoluindo e não há como voltar atrás. O Brasil do agro foi conquistado na visão, na coragem e no braço dos pioneiros que transformaram o País de importador em um grande exportador de alimentos e fibras. Porém, o modelo de empreendedorismo de força deixa de ter efeito quando o paradigma de fazer “mais com menos”, ou seja, substituir o braço pela gestão de conhecimento, começa a dominar os sistemas de produção.

A tradicional estrutura hierárquica do comando patriarcal cederá espaço para uma gestão mais compartilhada. Integração é a palavra de ordem da nova economia global. Nesse novo cenário tudo está instantaneamente interligado. Existe, assim, uma conexão direta entre a cotação de soja na bolsa de Hong Kong e o nosso programa de otimização da dieta no confinamento. É bem provável que venderemos mais carne para a China e, pelo menos durante algum tempo, menos produtos no mercado interno. Assim, a padronização da “mercadoria carne” sai da nossa esfera de decisão e precisa estar alinhada com as normas sanitárias e as exigências do consumidor global. Desde o uso de insumos até as práticas do manejo, todos os detalhes da nossa atividade estarão registrados em sistemas de dados cada vez mais sofisticadas, online e quase globalmente acessíveis. Pouco vale refletir sobre se isso prejudica mais do que ajuda. O fato existe e, quanto mais cedo ajustarmos nossa forma de planejar, produzir e controlar, maior o retorno para nosso negócio.

Se a importância da terra está gradativamente sendo substituída pela aplicação de conhecimentos em produtos mais completos e processos mais inteligentes, é necessário redesenhar todo o processo empresarial da produção de carne. O conhecimento torna-se a cada dia mais complexo e interconectado. Isso significa que não é mais possível que uma só pessoa (o chamado “dono”) possa dominar todos os detalhes técnicos, desde a cerca elétrica até a otimização do cio, que hoje podem ser monitorados através de aplicativos já existentes no mercado.

A hierarquia da cultura do pensamento vertical e do comando de cima para baixo precisa ser ampliada, dando espaço a uma maneira mais aberta e flexível da gestão compartilhada. Para facilitar essa transformação, o proprietário precisa desenvolver seu talento empresarial em direção à gestão do conhecimento e das pessoas com quem trabalha. Em todas as múltiplas fases do sistema produtivo da bovinocultura surgem quase diariamente um crescente número de novas opções tecnológicas. Essas devem ser detectadas, avaliadas e relacionadas ao verdadeiro potencial de produção da fazenda. Ninguém é capaz de fazer isso sozinho e, ao mesmo tempo, trabalhar na rotina da fazenda. A criação de um diálogo constante com consultores, técnicos das empresas de insumos, vizinhos e, antes de tudo, com o pessoal da própria equipe, representa o caminho mais seguro para tomar as decisões a favor ou contra uma ou outra opção tecnológica e comercial.

É aqui que surge a necessidade de um líder capaz de combinar a visão do futuro com a estratégia da empresa rural. Pois, sabendo que o futuro será diferente do presente, a equipe e os parceiros esperam que alguém indique a direção, explique o caminho, os objetivos, as metas e as ações nos diversos componentes do processo desde o pasto até o confinamento. Mais importante, no entanto, é a função de motivador que ajuda os outros a introduzirem as mudanças necessárias nas rotinas dos processos que até o momento têm sido certos e bem-sucedidos. As pessoas não gostam de sair de suas zonas de conforto. No entanto, construir o salto qualitativo, assumir os riscos inerentes à crescente tecnificação e juntar os colaboradores em torno de um projeto mais complexo da produção bovina será o principal desafio do empreendedor rural no século do conhecimento. Terra, demanda e tecnologias existem em boa medida. Torna- -se, assim, a capacidade de liderança o fator decisivo para vencer na pecuária do século 21.

Perante essa perspectiva de um mundo cada vez mais conectado e tecnologicamente sofisticado, qual seria a postura adequada do produtor? Ele deve abdicar de parte da sua função de gerente geral da fazenda e assumir o papel de líder da modernização contínua do negócio. Isso implica delegar funções de rotina a colaboradores e sucessores, terceirizar algumas atividades a especialistas, procurar um diálogo contínuo de parceiro com consultores, assessores técnicos das empresas de insumos e estabelecer novos relacionamentos para ensaiar programas de fidelidade com frigoríficos. Envolver outros produtores em clusters de vanguarda e participar mais ativamente nas entidades de classe complementarão o perfil daquilo que nós podemos chamar de o empreendedor líder da pecuária sustentável.


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