Sanidade

 

FIBROSE HEPÁTICA

Doença leva a importantes perdas econômicas na indústria frigorífica

Tatiane Cargnin Faccin*

As gramíneas do gênero Brachiaria são as forrageiras mais importantes para ruminantes criados em condições extensivas nas Regiões Centro-Oeste, Sudeste e Norte do Brasil devido à alta produção de matéria seca, fácil cultivo, resistência à seca, boa adaptação a diferentes solos, baixo custo de manutenção e crescimento durante a maior parte do ano. Existem diversas espécies de Brachiaria e as mais cultivadas, atualmente, são Brachiaria brizantha (nome comum: “braquiarão”), seguida por Brachiaria decumbens (nome comum: “braquiarinha”).

Apesar de sua importância como forrageira no Brasil, as gramíneas desse gênero podem causar fotossensibilização hepatógena, popularmente conhecida como “requeima” em bovinos, ovinos, caprinos, búfalos e equinos, e também podem causar quadros de emagrecimento sem lesões de pele em bovinos e ovinos. Recentemente, descobriu-se também que essa forrageira pode causar cirrose hepática, com emagrecimento e morte, particularmente em ovinos.

As perdas econômicas causadas pelas intoxicações por plantas, de um modo geral são difíceis de estimar devido à escassez de dados. No entanto, as perdas causadas pela morte dos animais são mais facilmente estimadas através da análise dos dados de laboratórios de diagnóstico veterinário. E um aspecto inexplorado no Brasil são as possíveis perdas econômicas causadas por plantas tóxicas relacionadas à condenação de órgãos de animais abatidos para consumo.

As perdas causadas por condenações de vísceras são responsáveis por importantes prejuízos à indústria frigorífica. Um dos órgãos frequentemente afetados é o fígado. As causas variam de acordo com a região geográfica, pois a maioria, assim como as doenças parasitárias ou processos tóxicos, pode apresentar variação regional.

A fibrose hepática é uma das principais causas de condenação de fígados bovinos. O órgão condenado por fibrose representa uma prevalência de 1,08% em relação à quase meio milhão de bovinos abatidos no período de um ano em apenas um frigorífico estudado na Região Central do Mato Grosso do Sul, que recebe animais das quatro mesorregiões sul-mato-grossenses.

Segundo Tatiane Cargnin, em apenas um frigorífico, os prejuízos foram na ordem de R$ 100 mil

Essa lesão hepática é caracterizada por fibrose, atrofia (diminuição do tamanho) do lobo esquerdo, hipertrofia (aumento do tamanho) compensatória do lobo direito e proliferação de ductos biliares, e está relacionada ao consumo de gramíneas do gênero Brachiaria. Isso foi confirmado por exame com microscópico, através da observação de células (chamadas de macrófagos espumosos) que são características de animais que consomem Brachiaria spp.

Nesse abatedouro, as lesões de Brachiaria resultaram na condenação de 23,6 toneladas de fígado, com prejuízo estimado em mais de R$ 100.000,00 no período de um ano. Ao se generalizar os valores, o prejuízo pode ser estimado em R$ 916.794,00, considerando o total de abates em um ano para o Estado do MS ou ainda em R$ 2.745.624,00, considerando todo o rebanho abatido no Centro-Oeste Brasileiro.

A diferença do peso médio das carcaças em kg dos bovinos com fígados condenados por fibrose em relação ao peso médio de bovinos do mesmo lote é pequena e, portanto, não é possível atribuir ou descartar que essas lesões ocasionem menores ganhos de peso, constituindo uma forma subclínica da doença. Mais estudos são necessários para determinar a possível interferência dessas lesões no ganho de peso.

Nos casos observados, os bovinos não apresentam sinais clínicos, pois as lesões são localizadas. Dessa forma, não existem medidas preventivas. Os pecuaristas não são prejudicados pela condenação dos órgãos, pois o pagamento realizado é referente apenas ao peso da carcaça. Nos casos de fibrose hepática generalizada, pode ocorrer um quadro de cirrose hepática, já observado em ovinos, que leva ao emagrecimento e à morte, e ocorre na forma de casos isolados.

Em relação à fotossensibilização, não há tratamento específico. Como medida de controle, pode-se realizar a remoção dos animais do pasto em que estão ocorrendo os casos para um outro piquete, preferencialmente formado por forrageiras não pertencentes ao gênero Brachiaria. Quando possível, deve-se colocar os animais em locais com bastante sombra. Protetores hepáticos podem ser utilizados, embora não exista comprovação de eficácia, uma vez que animais que não recebem esse tipo de tratamento se recuperam, sugerindo que a recuperação espontânea geralmente ocorre, desde que os animais sejam retirados do pasto e colocados à sombra.

Embora as espécies de Brachiaria possam causar intoxicação em ruminantes e ocasionar perdas econômicas devido à condenação de fígados em bovinos abatidos, a sua importância como planta tóxica é pequena.

*Tatiane Cargnin é doutoranda em Medicina Veterinária e estudou o tema durante o mestrado na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul

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