Raças

 

NELORE 3.0

O arranque e a eficiência que os pastos brasileiros tanto exigem

Adilson Rodrigues
adilson@revistaag.com.br

Desde 2010, a mesma rotina se repete. Próximo da estação de monta, um ou mais caminhões repletos de touros da raça Nelore chegam a uma parada de descanso na Fazenda Cornichão, localizada na cidade de Rio Verde de Mato Grosso, no Mato Grosso do Sul, após saírem de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, e rodarem cerca de 800 km. Depois do trato, os animais, então, são recebidos pelos vaqueiros e seguem por mais três ou quatro dias de caminhada até o destino final na Fazenda São Manuel, em Corumbá, região de pasto nativo imersa no Pantanal sul-mato- grossense.


NELORE BRASIL 11 SUMÁRIOS DE TOUROS DE REPRODUÇÃO PROGRAMADA

5 Diferenciais

Primeiro a incorporar o índice de seleção com base em informações bioeconômicas

Primeiro a disponibilizar DEPs genômicas para 22 características

Reprodução Programada Genômica

Primeiro a incorporar às DEPsas medidas de carcaça feitas por ultrassonografia

Selo Global G para certificar as fazendas associadas

Quem acompanhou o desembarque enxergou apenas bois, mas para Bruno Barcellos, pecuarista de berço, aquele caminhão representa muito mais. Seria uma fortuna equivalente a uma cegonha carregada de picapes 3.0. O criador sabe que eles vão dar conta do recado, superando inóspitas condições. Assim também é o reprodutor que a Revista AG batizou de Nelore 3.0, o zebuíno que veio da Índia para tornar o Brasil exportador de carne, brilhou nas pistas de exposição e agora é provado para mostrar toda a sua funcionalidade a pasto.

No caso de Barcellos, a tourada arrematada é avaliada por uma dezena de características de interesse econômico rodadas pela USP-Pirassununga para a Agro-CFM. A propriedade nascida em 1980 foi a primeira a obter o Certificado Especial de Identificação e Produção (Ceip), concedido pelo Ministério da Agricultura a programas de seleção reconhecidamente melhoradores. “Em 1994, também fomos pioneiros ao desafiar a reprodução de novilhas aos 14-16 meses de idade”, informa Tamires Neto, coordenador de Pecuária da CFM, que soma 1.500.000 doses de sêmen comercializadas e 1.880 reprodutores provados vendidos por ano.

Michel Caro e Patrícia Zancaner ajudam a levar a missão de Arnaldo Zancaner adiante

“Não compro mais touro sem DEPs confiáveis”, afirma contundente o proprietário da AgroBarcellos, formada pela união entre a fazenda no Pantanal, onde ficam 2.000 fêmeas Nelore para cobertura a campo, e a Fazenda Ribeirinha (Sidrolândia/MS), onde outras 1.200 matrizes Nelore são destinadas à inseminação com Angus.


Ceip 23 FAZENDAS POSSUEM CEIP ATUALMENTE

5 diferenciais:

Certificado do Mapa a projetos realmente melhoradores

Para obter selo é preciso ter ou integrar programa de avaliação genética

Apenas os 20% melhores animais da safra podem ser certificados

Centrais de inseminação reconhecem valor do certificado

Propriedades são sujeitas a auditorias anuais


E tal convicção tem um motivo. Na produção em larga escala, tempo é algo precioso e nesse quesito reside o maior ganho registrado no plantel da AgroBarcellos. “Quando eu comecei a procurar touros mais funcionais, caçava uma linhagem de carne mais precoce e rústica a pasto”, relembra o produtor. Investimento que se mostrou certeiro. Em seis anos, a média de idade do gado abatido despencou de 60 meses para incríveis 24 meses.

Além disso, um ganho adicional foi percebido na fertilidade das vacas de reposição, cuja idade ao primeiro parto caiu de 36 meses para também 24 meses. Naquela época, a pastagem até recebia alguma adubação e, segundo o produtor, os touros pouco sentiram o novo ambiente, com exceção ao protocolo de chegada à Fazenda São Manuel, posto que a grande maioria do capim é nativo, com os garrotes sendo pouco exigidos e passando por um ano de adaptação à forrageira mais pobre nutricionalmente.

Atrás dos mesmos benefícios financeiros é que o empresário dos ramos de construção e imobiliário Frederico Marcondes Cesar decidiu apostar todas as fichas na pecuária, em 2002. Ele seguiu um caminho inverso de outros milhares de investidores, partindo rumo à produção de carne ao invés de selecionar genética, justamente por almejar um “negócio de resultados”, como ele mesmo define. O então novo criador presenciou o rebanho registrar números de 65% de taxa de prenhez na estação de monta, os bezerros desmamarem com peso entre 160 e 170 kg e os produtos de corte abatidos com 36 a 38 meses de idade. Índices que permitiam melhorias.

A solução mais uma vez recaiu na genética provada. Após valer-se de touros mais funcionais, conseguiu o up que tanto desejava. “Atualmente, alcançamos 92% de taxa de prenhez na monta, os bezerros desmamam com 230 kg e o abate já acontece entre os 22 e 24 meses. Com os animais permanecendo menos tempo na propriedade, aumentamos o número de cabeças por hectare”, relata entusiasmado. E não é só. Como bom empresário que é, tem planilhas para mostrar ganhos de toda ordem.


1º SUMÁRIO SERÁ LANÇADO NESTE ANO, MAS PARTICIPA DO SUMÁRIO ALIANÇA DESDE 1998

5 diferenciais:

Pioneirismo na avaliação genética e genômica

Foco em características produtivas com seleção massal a pasto

Emissão de Ceip

Gerido dentro de uma associação, proporciona grande interação entre os integrantes

Um dos mais eficientes programas de teste de progênie do País com avaliação de carcaça


Um ótimo exemplo seria em relação ao ganho de peso. Subiu na balança, pesou 17 @, o lote é apartado. A cabeceira cumpre o objetivo na faixa de 18 a 20 meses e o fundo desse mesmo grupo, somente entre os 24 e 26 meses. “Fazemos o abate do lote contemporâneo aos 22 meses, um resultado excepcional, considerando que a nossa produção é 100% a campo”, explica o empresário, já íntimo da atividade, e que ingressou no Programa de Avaliação e Identificação de Novos Touros (Paint) em 2004.


15 SUMÁRIOS LANÇADOS

5 diferenciais:

Objetivo de seleção definido: prenhez aos 14 meses e índice de desmama de 75% para as fêmeas e abate dos machos aos 20 meses e 20 @

Avalia visualmente ao sobreano 17 características e, em dez anos, evoluiu 400%. Os animais nascidos no início eram TOP 40% e os da safra mais recente são TOP 20%

O acasalamento das matrizes é planejado por software que tem como meta a maximização do ganho genético e produtivo

Desde 2010, os 120 melhores machos produzidos a cada ano são submetidos à avaliação de eficiência alimentar e qualidade de carcaça por ultrassom

Há compromisso com os resultados produtivos e financeiros dos participantes, dando suporte técnico em todo o sistema de produção


20 SUMÁRIOS LANÇADOS

5 diferenciais:

Fornece suporte, assessoria, treinamento e conhecimento técnico

Programa democrático, com presença em todo o Brasil e países do Mercosul

Real ganho de eficiência produtiva e consequente incremento de resultado na fazenda

Maior troca de experiências e informações entre os participantes

Tendência Genética do ganho de peso do Nascimento à desmama mostra evolução de 21,37 kg e 21,58 kg no Ganho de Peso do Nascimento ao Sobreano


“Também percebemos que as pessoas não querem mais um animal somente com registro, um papel. Buscam resultados e esses são possíveis através do animal avaliado geneticamente. A procura maior é para indivíduos provados como superiores”, observa Frederico Marcondes.

Se a raça Nelore vive um salto evolutivo satisfatório na produção de carne, a pecuária brasileira muito tem a agradecer a um visionário pesquisador chamado Arnaldo Zancaner, que ainda em 1962 iniciou o trabalho revolucionário de estudar as diferenças esperadas na progênie (DEPs), servindo ainda hoje como denominador comum aos diversos programas de melhoramento genético existentes.

"A coerência que existe entre a evolução do Nelore e os conceitos que fundamentaram a seleção do Dr. Arnaldo Zancaner é a melhor avaliação desse trabalho", endossa o nelorista Michel Caro. Atualmente, esse incrível legado encontra-se vivo nas mãos de duas propriedades, a Fazenda Bonsucesso e a Fazenda Alvorada, ambas de Guararapes/ SP e que assinam suas seleções com o acrônimo Nelore ZAN.

A primeira é conduzida por uma das filhas de Arnaldo, Patrícia Zancaner, e o marido Michel Caro, e a segunda pela irmã Adriana Zancaner e o esposo Flávio Aranha. "Desde o início selecionamos longe das pistas, com muito foco em um Nelore com características de produtividade econômica, consolidando, assim, fertilidade, habilidade materna e ganho de peso", define o titular da Bonsucesso.

Premissa elementar do melhoramento, não pode existir valor genético positivo que caminhe sozinho. O ganho de peso e o padrão racial, por exemplo, não devem alçar voos cada vez mais altos em controvérsia a outras características importantes, a exemplo da precocidade sexual e do acabamento de carcaça, bem como as demais citadas por Caro. Um animal caracterizado e que consiga explorar ao máximo seu potencial produtivo é essencial, mas quando selecionado de forma desconexa com o todo leva a complicações futuras. Realidade essa vivida pelos julgamentos zebuínos.

Por muito tempo, as exposições eram o principal referencial de produtividade. O problema acontecia quando essa genética chegava ao pasto e não ao cocho. “O Nelore pernalta ilustra um biótipo que brilhava nas pistas, onde os detalhes ‘plásticos’ da beleza racial primavam. Esse tem os dias contados. Creio até que já se foi. Por outro lado, muita coisa ainda vai surgir na evolução genética do zebu”, alerta.

Frederico Marcondes já começou a usar touros provados dois anos depois de ingressar na pecuária

Esse animal, considerado tardio, pelo tamanho (frame) mais avantajado, até teria um bom proveito com as dietas privilegiadas de um confinamento intensivo, entretanto, no campo, a dificuldade de mantença afetaria a precocidade sexual e o acabamento de carcaça. “Muitas vezes, implica em um atraso de seis meses na terminação a pasto - ou até superior - e mais evidente nas fêmeas, perderia-se a eficiência reprodutiva”, avalia o zootecnista e jurado William Koury Filho, que assina a coluna Brasil de A a Z. Ainda no que se refere aos machos, o perímetro escrotal, uma DEP correlacionada à fertilidade e à musculosidade possui grande chance de receber impacto negativo, fazendo-se necessário o acompanhamento da curva de crescimento testicular para seleção dos indivíduos capazes de chegar à puberdade mais cedo.


33 SUMÁRIOS LANÇADOS

5 diferenciais:

Possui uma base genética de 12 milhões de animais

Aberto a pecuaristas que se interessarem em registrar animais como LA

Trabalha com todas as raças zebuínas e serve de parâmetro entre elas

As DEPs são rodadas internamente com software importado

A responsabilidade técnica é compartilhada entre consultores e há plantão de dúvidas


Porém, conciliar interesses muitas vezes é uma tarefa hercúlea por força da própria natureza bovina. As raças zebuínas têm como característica anatômica e fisiológica o crescimento, principalmente das pernas, e no decorrer da juventude e da idade adulta desenvolvem a musculatura e a profundidade corporal.

No entanto, já são vistos na seleção atual muitos indivíduos que crescem mantendo certa proporção entre altura e profundidade. “O Nelore moderno (entende-se como precoce) tende a dominar os rebanhos PO, assim como já o faz nos rebanhos Ceip e em alguns dos plantéis puros, produzindo touros eficientes, funcionais e que transmitem ótimo ganho em peso e carcaça aos filhos”, reconhece o também zootecnista Alexandre Zadra, colunista de Caindo na Braquiária.

Mais receptiva a críticas do mercado, a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) criou nos últimos anos comissões para discutir o indigesto assunto, pois diferentemente de um passado “recente”, ultimamente os pecuaristas contam com novos modelos palpados nos programas de avaliação genética. Cadência tamanha que culminou em uma completa reformulação do Programa de Melhoramento Genético de Zebuínos (PMGZ), um banco de dados de mais de 12 milhões de bovinos.

“Existe na ABCZ um movimento no sentido de aproximar os critérios de pista e de pasto. O processo que vem sendo construído busca integrar aspectos positivos dos dois sistemas, pois a verdade absoluta nunca esteve em nenhum deles isoladamente. O efeito dessa decisão será exponencial”, adianta Frederico Cunha Mendes, diretor Técnico, Científico e de Tecnologia da Informação da ABCZ. Novidades são esperadas já para a ExpoZebu 2016, como forma de corrigir distorções.

Serão inseridas no PMGZ as DEPs relacionadas a perímetro escrotal, stayability (longevidade das matrizes), 3Ps (Probabilidade do Primeiro Parto) e características de carcaça, projeto iniciado há alguns anos na ExpoGenética. Indo mais além, mudanças estarão presentes também nos julgamentos, com uma exposição paralela denominada “Julgamento Zebu a Campo”, uma ideia que havia sido testada pela raça Brahman. A participação dos animais ocorrerá em trios de machos e fêmeas, em quatro categorias e com idades variando dos oito aos 27 meses. A formação dos conjuntos terá como base a classificação TOP de até 50% nos programas de avaliação genética, seja dos competidores ou de seus pais, além de exigências de fertilidade e ganho de peso diário, para garantir a proximidade com o sistema extensivo.

Uma boa notícia é que o projeto foi “comprado” pela Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB) e muita coisa boa vem por aí. “Animais Nelore nascidos a partir de 1º de outubro de 2015 só poderão participar das pistas de julgamento se obtiverem uma classificação que não ultrapasse o TOP 40%. A partir de outubro de 2016, o pai dos produtos poderá ter TOP até 50% e o produto em si ainda obrigado ao TOP 40%. Em 2019, reduz-se para 30% e, em 2021, para 20%”, explica Mendes. Essa uma verdadeira revolução no que diz respeito ao Nelore PO, que, aliás, também marca presença no Ceip.

O futuro dirá

Todos esses avanços consolidam um balanço positivo, em especial, na última década. Talvez o maior deles seja o controle de dados. “Evoluiu especialmente na qualidade das informações genéticas e genômicas disponíveis para tomarmos decisões mais acertadas. Agora, para que a informação reflita em resultados deve ser bem interpretada e utilizada nas duas únicas oportunidades que temos para melhorar um rebanho: acasalamento dirigido e seleção”, destaca Wiliam Koury, informando que alguns criatórios já unem genética e morfologia de forma muito apurada.

Agora, o desafio é prever o futuro. Se degustaremos uma carne Nelore marmorizada? Alguns poucos projetos de avaliação de carcaça com ultrassonografia revelam um caminho e há quem acredite em uma concorrência de igual para igual com os taurinos, apostando na subjetividade implícita na definição de qualidade. “O que posso dizer é que hoje nossos bois possuem carne mais macia que há dez anos, reflexo primeiro da idade mais tenra ao abate”, lembra Zadra.

Outro ponto, observa o especialista, é que reprodutores provados para ganho em peso geram bezerros mais pesados ao nascimento, tornando rara a presença de touros novilheiros, tanto nos sumários Ceip quanto nos POs. “Por outro lado, a carcaça desses animais apresenta excelente cobertura muscular e rendimento de cortes, demonstrando a efetividade no direcionamento para melhoria desse atributo”, finaliza.

Por fim, fica o recado de João da Rocha Cavalcanti, proprietário do centenário Nelore Irca: “A nutrição de ruminantes tem muito a comemorar, já a genética tem muito a avançar. A pecuária brasileira é uma pérola e o Nelore é um diamante”, faz o trocadilho. Conforme aponta o experiente criador, existe muito touro de 600 kg descaracterizado e com costelas à mostra. “Está errado!”. O Brasil demanda 320 mil touros por ano e o mercado de reprodutores avaliados não ultrapassa 90 mil/ano. Oportunidade e responsabilidade são as palavras de ordem no momento.