Na Varanda

 

Neoempreendedorismo - Parte 2 Os 3 E’s da pecuária vencedora

Francisco Vila é economista, consultor internacional e diretor da Sociedade Rural Brasileira vila@srb.org.br

N a última reflexão, procuramos identificar as principais forças que moldarão a pecuária ao longo das próximas décadas. Previsões sempre ocorrem em um contexto de incerteza. No entanto, não devemos ter dúvida em relação à tendência fundamental: tudo muda o tempo todo, sempre mais rápido e nunca para trás. Terminaram os ciclos da pecuária extensiva e da semitecnificação. O futuro pertence ao produtor que antecipa as exigências do mercado e, em tempo, reestrutura seu negócio no sentido de aplicar cada vez mais conhecimento sobre a mesma base física.

As empresas de todos os setores passam por ciclos semelhantes à nossa trajetória da vida. Na juventude, desbravamos as oportunidades. Isso ocorreu nas décadas de 1970 e 1980, com grandes sacrifícios dos pioneiros, apoio do governo e amplo financiamento público. O jovem adulto constrói. Na pecuária, isso se iniciou na década de 1990, com a melhoria genética e a introdução do pastejo rotacionado. Na meia idade, o homem procura consolidar o que foi conquistado e construído anteriormente, fazendo mais e melhor, sem aplicar forças adicionais. Suplementação a pasto, confinamento estratégico e maior cuidado com o manejo racional levaram a pecuária a um estágio que permite produzir carne de qualidade com maior regularidade.

Todavia, enquanto na vida do homem entraríamos agora na fase de preservação do modelo construído ao longo do tempo, na pecuária, precisamos repensar tudo o que foi desenvolvido nos moldes das condições tradicionais do setor e recomeçar um novo ciclo em um patamar mais elevado. A revolução tecnológica, o fortalecimento da voz do consumidor, a necessidade de melhor gerenciar os relacionamentos entre os atuais e futuros sócios da empresa rural (governança familiar) e um maior cuidado com o fluxo de informações através da rastreabilidade, certificação e maior controle por parte do Estado obrigam o produtor, e seu sucessor, a repensar os fundamentos do seu negócio. Essas circunstâncias demandam uma nova abordagem da atividade que chamamos de neoempreendedorismo. O esforço, no futuro, será menos físico do que no passado, mas não menos estressante na otimização das energias para aproveitar novas oportunidades e evitar os riscos inerentes às práticas que procuram replicar o modelo vencedor que deu certo até agora.

Antigamente, as melhorias foram introduzidas de forma contínua e linear. Uma coisa após a outra. Mas agora estamos em um mundo multidimensional e instantâneo. Com a aceleração do tempo, todos os ciclos passam a ser cada vez mais curtos. O boi vive menos tempo e os equipamentos ficam tecnicamente obsoletos antes do período legal de depreciação. Vamos, então, avaliar como outros setores enfrentam esse desafio da evolução espiral de todas as coisas (na época da “Internet das coisas”).

Tanto nos ciclos de produtos como da vida empresarial, costumamos procurar primeiro as melhores soluções técnicas. “Eficácia” da solução é o lema. Focamos nos insumos como pasto, genética e equipamentos. Tentamos atingir o estado da arte em cada uma das funções do sistema produtivo. Porém, rapidamente descobrimos que soluções técnicas originam custos. E já os antigos ensinaram que muitas vezes o ótimo é o inimigo do bom. E o bom é ter resultado financeiro com o nosso trabalho de pecuarista, não apenas ter o animal mais bonito ou o curral mais sofisticado. As estatísticas do Rally da Pecuária de vários anos revelam que não são as fazendas com melhor nível técnico que são as mais rentáveis. Ou seja, além da eficácia técnica, devemos olhar para a “Eficiência” econômica. Lucro é o sangue do organismo empresarial. Sem ele, não haverá fundos para o investimento que precisamos para constantemente incorporar novas tecnologias e práticas gerenciais.

O terceiro foco concentra-se no fortalecimento da capacidade geradora de resultados no longo prazo. Trata-se do terceiro “E” que é a “Efetividade” do nosso sistema produtivo. Temos de ser tecnicamente competentes, economicamente viáveis e suficientemente robustos para poder viver da atividade daqui a anos ou até gerações. Assim, eficácia, eficiência e efetividade são três ângulos diferentes do mesmo assunto que é a saúde do nosso negócio.

Naturalmente, o curto prazo, muitas vezes é o inimigo da estratégia de sustentabilidade. Esse conflito existe em cada decisão de investimento. Por esse motivo, a mudança estrutural da fazenda comandada pelo dono para a sociedade de herdeiros com processos compartilhados de decisão parece ser a melhor forma de adaptar a estrutura tradicional da pecuária às exigências de um mundo moderno com informações instantâneas e transparência total das operações através da tecnologia de comunicação que penetrou todas as áreas da atuação humana.

Cada geração e, dentro dela, cada pessoa, tem sua vocação natural. Uns têm aptidão mais técnica, outros possuem talento comercial. Uns são mais imediatistas, outros mais estrategistas. Essa diversidade é saudável, pois a empresa rural contemporânea precisa de todas essas habilidades. Por esse motivo, a integração entre as gerações, entre o sucessor e seus sócios familiares, entre a empresa e seus colaborados e, finalmente, entre a fazenda e as indústrias antes e depois da porteira cria a plataforma que melhor consegue equilibrar as peculiaridades da eficácia técnica, com a eficiência econômica e a efetividade do negócio que o tornarão sustentável ao longo das mudanças do tempo.