Confinador

 

RECRIA

Adoção do confinamento nessa fase encurta tempo do abate mesmo àqueles pecuaristas menos tecnificados

Ricardo Alexandre Silva Pessoa*

O manejo zootécnico racional se sustenta na adaptação econômica do animal ao ambiente e deste àquele. Considerando a boa conduta, o modelo de bem-estar animal permite gerar maior lucro, se sobrepondo ao de menor custo. Assim, o maior investimento em sistemas mais complexos poderá resultar em maiores ganhos líquidos. Nos sistemas intensivos, os animais dispõem de todos os nutrientes no cocho, em atendimento às suas exigências nutricionais. Animais criados em confinamento obtêm maiores ganhos de peso por demandarem menor quantidade de nutrientes para mantença, gerando carcaças oriundas de animais jovens em menor espaço de tempo e carne de melhor qualidade. No confinamento, o produtor dispõe de ferramentas que, quando bem manejadas, resultam na obtenção de produtos com qualidade diferenciada.

O estabelecimento do sistema de confinamento requer investimento diferenciado associado ao uso de instalações, insumos, mão de obra e maior gerenciamento. A escolha dos animais deve seguir rigoroso conceito sanitário, nutricional e, sobretudo, genético. Não adianta ensejar intensos ganhos se os animais não apresentam potencial para tanto. Por outro lado, a precocidade produtiva permite obter produtos de melhor qualidade em maior quantidade. Os confinamentos de gado para o corte no Brasil são responsáveis por menos de 10% do total de animais abatidos anualmente no País e, embora seja mais utilizado na terminação, o confinamento pode estar presente em qualquer fase do ciclo produtivo, inclusive na fase de recria.

A fase de recria se inicia imediatamente ao desmame, precedendo a fase de terminação. A ausência maternal e a falta do leite expõem o bezerro a condições de estresse intenso que podem ocasionar perda de peso e aparecimento de doenças. Em recria a pasto, a restrição alimentar ocasionada pela ausência do leite materno é agravada, muitas vezes, pela deficiência de forragem disponível aos animais. A má qualidade e a baixa disponibilidade de forragem agravam os efeitos da restrição alimentar na recria a pasto. É comum observar no período pós-desmame baixa disponibilidade de forragem e, nessas condições, a necessidade de manutenção dos animais leva ao consumo das folhas de rebrota e ainda contribui para a degradação da pastagem. O equilíbrio animal-ambiente torna-se, portanto, comprometido.

Seja a apartação, seja o agrupamento com outros animais ou a nova alimentação, os efeitos do estresse resultantes do desmame precisam ser minimizados. O transporte dos animais por longas distâncias também contribui para a perda de peso, agravando a situação. Os índices de mortalidade e o aparecimento de doenças podem ser altos, gerando prejuízo ou custos adicionais com o manejo.

Após o desmame restam sete arrobas a serem obtidas durante a fase de recria

Já na recria em confinamento, procura- se evitar levar o animal desmamado a essas condições mais extremas, uma vez que a alimentação no cocho, embora não tão nobre como o leite, é bastante superior em qualidade à forragem que os animais tradicionalmente teriam em sistemas de recria a pasto. A manutenção do ganho de peso é o que se busca no momento da recria. Portanto, minimizar os efeitos do estresse da desmama não parece ser tão desafiador na recria em confinamento.

Por outro lado, é comum observar redução no consumo de alimentos após o desmame, nos primeiros dias de confinamento, notadamente quando os animais não tiverem à disposição alimento em cochos durante a fase de cria. O uso do creep-feeding, ou “cocho privativo” aos bezerros, é bastante comum na fase de cria em sistemas de produção de animais superprecoces. Novilhos superprecoces iniciam na fase de terminação imediatamente após o desmame e não necessitam ser recriados. Embora não seja o principal objeto desta discussão, a adoção do cocho privativo para os animais que serão recriados em confinamento irá contribuir para minimizar os efeitos do baixo consumo de alimentos no início da recria em confinamento associados ao estresse do desmame.

Planejamento

Considerando que os bezerros possam ser desmamados pesando em média seis arrobas, aos oito meses de idade, e necessitem chegar à fase de acabamento com 14 meses, pesando aproximadamente 13 arrobas, restariam sete arrobas a serem obtidas durante a fase de recria. Ou seja, mais de 1 kg de ganho médio corporal/dia, algo improvável para sistemas a pasto. Porém, comum para os sistemas de produção em confinamento. A possibilidade de comercialização na entressafra de carne, a disponibilidade de bezerros desmamados e a utilização da capacidade ociosa do espaço de engorda/ terminação à medida que os animais estão indo ao abate tornam a atividade de recria em confinamento bastante atraente.

Com a adoção do confinamento na fase de recria, o bezerro desmamado pode ser comprado na época de maior disponibilidade, ou seja, com preço mais baixo, e pode voltar ao pasto na época das águas, imediatamente antes da terminação, e ser abatido a um peso maior, com alto rendimento cárneo, resultando em melhor desempenho na terminação, inclusive, por proporcionar adaptação prévia ao cocho. Os efeitos adversos do ambiente são mais controláveis no confinamento. Boas instalações que permitam conforto térmico, água suficiente e alimento disponível no cocho 24 horas por dia são premissas básicas.


PROGRAMAÇÃO DA ESCOLA DE PECUÁRIA INTENSIVA DA ASSOCON Da Redação

A Associação Nacional dos Confinadores (Assocon) está com as inscrições abertas para a Escola de Pecuária Intensiva, que antes era conhecida como “Escola de Confinamento”. A Entidade definiu o cronograma e a programação que acontecerá nos estados de Goiás, Bahia, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Rio Grande do Sul, começando em 23 de fevereiro e seguindo até o final de novembro.

“Com o novo posicionamento da Assocon definido no ano passado, que busca defender os interesses de toda a pecuária intensiva, neste ano teremos uma nova nomenclatura para o projeto. Apesar dessa mudança, o programa continuará com o mesmo formato, em cursos envolvendo parte teórica e prática com estimulo à profissionalização nos sistemas de produção e aumento da mão de obra qualificada no campo. Buscamos a valorização dos funcionários nas propriedades rurais, além da oportunidade para troca de informações relevantes entre os participantes”, explica Juliane da Silva Gomes, Assistente Técnica da Assocon.

As Escolas de Pecuária Intensiva terão os seguintes temas: Nutrição de Bovinos de Corte; Sanidade; Estrutura, Máquinas e Equipamentos; Gestão; Pastagem. O curso também inclui dinâmicas durante as visitas em fazendas pecuárias.

Mais de 1.300 funcionários já foram capacitados pelos treinamentos itinerantes da Assocon desde 2010. Esse projeto já foi realizado em 20 diferentes cidades do País e conta com o patrocínio e o apoio de diversas empresas e entidades ligadas ao segmento. As inscrições já estão abertas e podem ser realizadas pelo site www.assocon.com.br ou telefone (62) 3432-0395. O valor é de R$ 50,00 por participante. Os associados e colaboradores de confinamentos filiados à Assocon são isentos da taxa de inscrição.


Uma grande variedade de alimentos pode ser utilizada no confinamento de recria. As silagens, a cana-de-açúcar e a forragem armazenada na forma de feno são alimentos volumosos comumente utilizados nesses sistemas. Ainda no Nordeste do Brasil, outros volumosos adaptados às condições edafoclimáticas, como exemplo a palma forrageira, podem e devem ser utilizados. Os alimentos concentrados mais utilizados no confinamento são o milho e a soja. Porém, vários estudos têm sido conduzidos mostrando à viabilidade da utilização de outros subprodutos da indústria de oleaginosas, de bebidas, de bioenergia, etc.

A utilização de fontes de nitrogênio não proteico, como exemplo a ureia, deve ser priorizada. Outras fontes de nutrientes podem ser usadas, desde que embasado em critérios técnicos e científicos previamente estabelecidos. Os centros de pesquisa, as universidades e outras instituições que se dedicam à Ciência e à tecnologia em agropecuária detêm essas informações as quais estão à disposição da sociedade.

Para Ricardo Pessoa, é importante compreender a necessidade de se dispor de alimento concentrado e forragem armazenada

Confinamento na recria

O confinamento de animais na fase de recria na época seca do ano é uma prática que tem se expandido bastante, visando atenuar os efeitos da falta de forragem, comum na recria a pasto, permitindo oferecer carne para ser comercializada na entressafra, agregando valor ao produto. É comum o uso dos confinamentos de aluguel (boitel), por exemplo, para esse fim. A adoção desse sistema permite eliminar o principal limitante do ciclo produtivo, por vezes negligenciada em detrimento da fase de terminação e da própria fase de cria. A técnica tem se mostrado viável, sobretudo, nas épocas de estiagem prolongada. Com o confinamento, o produtor não precisa esperar o pasto melhorar para iniciar a reposição de bezerros, oferecendo descanso à forrageira em uma época crucial, o que certamente favorecerá o manejo do rebanho de cria. Além de resolver o problema da reposição do bezerro, o confinamento na recria encurta o ciclo produtivo. Assim, teremos mais carne, e de melhor qualidade, na mesa do consumidor.

É importante compreender a necessidade de se dispor de alimento concentrado e forragem armazenada para o sucesso da atividade. A alimentação constitui o item mais oneroso no sistema intensivo, quando se desconsidera o valor do animal. Armazenar o excedente da produção de forragem da época das águas e dispor de alimento concentrado de qualidade e em quantidade adequada são fatores preponderantes para o sucesso e para a garantia do ganho em peso. O correto balanceamento da dieta, a disponibilidade de água, o espaçamento adequado de cocho, entre outros fatores citados, associados à intensificação técnica, representam princípios fundamentais para maximização dos ganhos. A capacidade de gerenciamento, o planejamento da demanda e a previsão das receitas devem estar fundamentados no sentido da compensação dos investimentos.

As instalações utilizadas no confinamento de recria devem ser as mesmas que atendem os animais em fase de terminação. Na medida em que os lotes finalizados vão ao abate, os animais desmamados entram no sistema. Essa característica do confinamento de recria permite, inclusive, diminuir os custos fixos com instalações previamente estabelecidos na propriedade. O espaçamento adequado de cocho (50 cm/ animal) resultará em maior garantia do consumo. É fundamental perceber que o alimento fornecido aos animais no sistema de confinamento de recria é bastante diferente daquele ao qual o mesmo teve acesso do nascimento ao desmame. A previsão do consumo permitirá adequar a ração às exigências dos animais. O uso de creep-feeding no rebanho de cria vai contribuir para minimizar o efeito do baixo consumo de alimentos comumente observado na fase de recria.

Práticas de manejo como vacinações, vermifugação, marcação, pesagem, entre outras, devem ser realizadas pelo menos um dia antes da entrada dos animais no confinamento de recria. A observação dos animais com frequência nos primeiros dias do confinamento se faz necessária no intuito de minimizar a ocorrência de possíveis adversidades. Portanto, pode- se concluir que a prática de confinamento na fase de recria permite encurtar o tempo até o abate dos animais, mesmo em um sistema com intensificação de menor amplitude, quando comparado aos sistemas de produção de animais superprecoces, oferecendo um produto de melhor qualidade em condições mais sustentáveis.

*Ricardo Pessoa é Professor Associado da DZ/UFRPE - ricardo.pessoa@pq.cnpq.br


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