Feno e Silagem

SILAGEM LAUREADA

A Fazenda Lovison levou o título de melhor silagem de milho do Brasil em 2015. Sistema é trabalhoso, mas garante bons frutos aos pecuaristas que a utilizam

Erick Henrique
erick@revistaag.com.br

O município da serra gaúcha, Nova Bassano, de forte influência italiana, é desconhecido a muitos dos brasileiros, entretanto, recebeu notoriedade no agronegócio, em virtude do trabalho da Fazenda Lovison, através do pecuarista Diego Lovison, ao conquistar a Taça Brasil de Silagem de Milho. A premiação foi organizada pelo portal Milkpoint.

“Para nós é gratificante receber esse troféu, fruto de muito trabalho ao perseguir a eficiência sempre, embora não tenhamos muito acesso à tecnologia, pois nossa propriedade é de pequeno porte e os recursos são limitados. Mesmo assim, chegamos ao primeiro lugar”, comemora Lovison.

O jovem pecuarista de 27 anos diz que a produção de silagem de milho na fazenda é uma herança dos avós e, ele, como sucessor, está tocando a propriedade, bem como alimentando o rebanho de gado Holandês e Jersey com uma suplementação de qualidade. A produção diária de leite do seu rebanho é de 600 litros, fornecidos à Cooperativa Santa Clara. “Como irmão mais velho, desde pequeno aprendi a trabalhar na lavoura e, atualmente, sou responsável pela gestão da fazenda. Minha irmã vai casar e morar em outra cidade e meu irmão caçula cursa engenharia mecânica em Passo Fundo/RS”, lembra Lovison.

Conforme descreve o jovem pecuarista, o trabalho que realiza é com animais semiconfinados, servindo alimento no cocho. Para tanto, em sua propriedade de 40 hectares, ele planta 7,5 ha de milho para silagem, que produziram na safra 2014/2015, cerca de 40 toneladas/ha, mais milho grão em 3,5 ha, com produção de 4,2 toneladas/ ha. “Fizemos ainda 2 ha de pré-secado, com uma produção de 8,4 toneladas/ ha”, acrescenta. Para ampliar a renda, ele comercializa pré-secado e feno para as fazendas vizinhas e tem planos de vender a silagem de milho em breve.

O produtor explica que, em seu sistema de produção, utiliza técnicas como o plantio direto, adubação orgânica, adubação a lanço, colheita com máquina autopropelida, máquinas específicas para confecção de pré-secado e alimentação mecanizada aos animais. “Procuramos sempre manter o solo fértil, utilizando esterco dos nossos animais e também de outras fazendas. Trabalhamos igualmente com adubação nitrogenada, usando também inoculante de bactérias homofermentativas na silagem. Nós contabilizamos que, na safra passada de 2015, o custo para confecção da silagem ficou em R$ 3.500 por hectare”, avalia Lovison.

O criador não abre mão de utilizar inoculantes porque destaca que entre os benefícios impede o desenvolvimento de fungos, a queda rápida do pH e evita o aquecimento no silo e no cocho. “Além do produto, aplico 180 gramas de açúcar por tonelada para o controle do pH. Aprendi esse artifício com técnicos de Bento Gonçalves/RS e tem dado certo. Ainda no Brasil se discute sobre os inoculantes, mas conversei com especialistas dos Estados Unidos que dizem que lá seu uso é indiscutível na produção de uma boa silagem”, enfatiza.

Segundo cálculos do produtor, apesar dos custos da última safra e a alta do preço do diesel para a utilização das máquinas, o sistema de produção de silagem ainda trouxe uma rentabilidade de R$ 2,7 mil por mês à pequena propriedade do Sul.

Especialista em planejamento de silagem, o zootecnista, doutor em Ciência Animal pela Esalq/USP, Rafael Amaral, ressaltou em diversos artigos publicados na seção Feno & Silagem da Revista AG que no Brasil a cultura de destaque para ensilagem é o próprio milho. Segundo o especialista, é comum observar erroneamente o foco no teor de proteína do milho. A maior atenção deve ser direcionada às fontes de carboidratos geradas pela planta (fibra + energia).

Diego Lovison exibe prêmio de melhor silagem de milho do Brasil

O zootecnista ressalta que o grande foco para uma silagem de milho de alta qualidade deve ser direcionado na escolha do híbrido com alta produção de matéria seca (MS) digestível, alta proporção de grãos (>30%) e que seja uma cultivar adaptada à região do pecuarista.

“Acredito que as principais características de um bom híbrido de milho são a produtividade, a sanidade do grão e acima de tudo a qualidade. Conseguimos obter esses aspectos através do híbrido 32R22, de alto potencial produtivo, excelente para ensilagem e adequado à utilização de fungicidas”, comenta o criador gaúcho.

Com relação ao cálculo de plantio do milho, Lovison diz que varia conforme as condições climáticas apresentadas na região. “Para a safra 2015/2016, ampliamos a área de plantio, pois levamos em conta a quantidade de animais que possuímos e o fornecimento em torno de 25 quilos de silagem por dia por animal”, explica.

Dimensionamento do silo

Entre os diversos tipos de silos que existem no País, Lovison prefere o silo trincheira. Para esse tipo de silo, é necessário fazer construções de alvenaria e escavações, ou seja, requer um pouco mais de investimento do produtor. Segundo Amaral, esse tipo de silo possibilita obtenção de silagem de melhor qualidade, devido ao fato de as paredes realizarem pressão e, dessa forma, permitirem que a densidade da silagem seja elavada, chegando a valores próximos a 750 kg MV/m³.

Outra opção menos onerosa e muito implementada pelos criadores é o silo superfície, pois essa técnica não necessita fazer escavações e construções. Contudo, algumas regras são de suma importância, tanto para maximizar a compactação da silagem como também garantir a segurança dos operadores que estarão compactando a forragem.

O zootecnista recomenda dimensionar esse tipo de silo entre a base e a altura na relação de 6:1, ou seja, a cada seis metros da base do silo poderá ter um metro de altura. Essa relação auxiliará na obtenção de boa compactação, pois os tratores são capazes de realizar o procedimento tanto no sentido transversal como no longitudinal.

Lovison faz cortes de 20 cm de espessura até embaixo e de um lado até o outro

Já no modelo de silo da Fazenda Lovison, compacta-se o volumoso com tratores de 5 toneladas, sendo que o efeito da compactação é efetivo apenas na camada superior, de 30 a 50 cm de espessura. Esse procedimento é realizado ininterruptamente, à medida que a forragem é inserida no silo trincheira.

É importante enfatizar que é praticamente impossível melhorar a compactação de uma camada que não tenha sido compactada adequadamente e que já tenha sido coberta por camadas subsequentes. Dessa maneira, a velocidade de chegada da forragem ao silo deve ser compatível com a capacidade de compactação.

Amaral sempre destacou na Revista AG que, para o dimensionamento dos silos, dois aspectos são fundamentais: o avanço diário do painel e a largura mínima do silo. Para o bom manejo no pós-abertura, o avanço diário deve ser, no mínimo, de 30 cm, isso permite reduzir a deterioração aeróbia da silagem e, assim, preservar a qualidade da mesma. Para pequenas propriedades como na fazenda de Nova Bassano, também é necessário definir a largura mínima. No caso de silo tipo trincheira, deve ser de 1.5 vezes a bitola do trator que fará a compressão.

Ponto ideal de corte

Os pesquisadores da Embrapa Gado de Leite de Juiz de Fora/MG e Sete Lagoas/ MG lançaram uma cartilha didática com todos os procedimentos para uma boa ensilagem de milho. Uma vez que esse processo não é tão simples de ser realizado, esse guia pode ser o impulso que faltava para os criadores produzirem silagem de milho com qualidade. Entre os tópicos no guia, há um passo a passo sobre o ponto de corte do milho (cartilha completa disponível no portal Embrapa: www.embrapa.br/ gado-de-leite/publicacoes).

A época ideal de corte é quando os grãos de milho estão farináceos. Neste ponto, as plantas acumulam MS de melhor qualidade nutricional. É preciso observar a linha do leite nos grãos (linha que separa a camada mais dura da camada mais macia nos grãos de milho), do meio da espiga, para ter uma boa ideia se o milho já está no ponto de ensilar ou não. Se a lavoura for muito grande e a colheita for demorada, comece a colher o milho um pouco antes do ponto farináceo, para que a colheita termine antes que os grãos fiquem duros.

Na análise do zootecnista, para o milho, a recomendação de colheita é que esse valor se encontre entre 30 e 35% de MS. Uma avaliação que auxilia nessa verificação é a linha do leite em grão, em que a recomendação é que 2/3 da mesma esteja em aspecto farináceo e 1/3 leitosa (base do grão).

Atenção para não realizar o corte antecipado ou tardio porque, antes do tempo, quando a MS da planta ainda é muito baixa, existem desvantagens como maior produção do chorume (quanto mais chorume, mais perda de nutrientes), fermentação inadequada, a qualidade diminui e o gado come menos silagem. Já quando passa o ponto de corte da planta, há maior perda da colheita, dificuldade para compactar e expulsar o ar do silo, qualidade inferior da silagem, plantas ficam mais secas e fazem com que as facas percam o corte rapidamente, prejudicando o tamanho e a qualidade do corte.

Conforme o tutorial técnico da Embrapa, a altura de corte varia de 15 a 25 cm do solo. O objetivo de colher nessa altura é evitar a presença de terra na silagem, reduzindo sua contaminação pela presença de micróbios da terra. Com relação ao tamanho do corte para ensilar, a forragem deve ser picada em tamanho, variando entre 0,8 cm e 1,5 cm. Essa regulagem facilita à acomodação do material dentro do silo, melhora a fermentação da massa ensilada e melhora a digestão do alimento.

Conforme o tutorial técnico da Embrapa, a altura de corte do milho varia de 15 a 25 cm do solo

Último ato

Com todos os cuidados mencionados para produzir uma silagem de alto valor nutricional, os procedimento finais são a vedação do silo e a abertura. Com a massa verde picada, descarrega-se o material no silo. Para compactá-lo na tricheira, por exemplo, espalha-se a forragem em camadas de 20 centímetros e após aplicar cada camada passa-se o trator diversas vezes sobre a massa para retirar o máximo de ar do interior.

É recomendável que o tempo de compactação seja de 1 a 1,2 vezes o tempo de colheita. Além dessa variável, o peso do trator é levado em conta. Deve equivaler a 40% do peso da quantidade de forragem que chega a cada hora no silo. Com a forragem completamente descarregada, o passo seguinte é vedar.

O material indicado pelos pesquisadores da Embrapa é uma lona plástica dupla face de 200 micras.

Esse material foi desenvolvido para suportar a fermentação do silo e as condições externas de sol e chuva. Para esse tipo de lona, é aconselhável que o lado branco fique voltado para fora, pois assim o sol é refletido e não se transfere todo o calor ao silo, o que permite a preservação de grande parte da camada superficial da silagem.

Com a silagem coberta e enterrados os quatro cantos da lona conclui- -se a vedação. É recomendável o uso de contrapesos ou cobrir a lona ainda com pneus de borracha, capim, terra ou areia e, se possível, um cercamento. O tempo mínimo para abertura do silo é de 30 dias, mas dependendo do inoculante utilizado, esse tempo pode ser reduzido.

Lovison, seguindo recomendações dos técnicos da região, realiza a abertura dos silos após seis meses, em razão de a silagem liberar mais amido. Para extrair a silagem para alimentar o rebanho, ele faz cortes de 20 cm de espessura, de cima até embaixo e de um lado até o outro – fatores que parecem irrelevantes, mas essenciais para manter a qualidade da silagem.

A Fazenda Lovinson comprova que a tecnologia da ensilagem é acessível a pecuaristas de qualquer porte!