Entrevista

Arrobas por hectare

 

Esqueçam a métrica de unidade animal (UA) por hectare, pois nem sempre esse equivalente a um animal de 500 kg significa eficiência produtiva. Quem dá a dica é o professor Moacyr Corsi, aposentado na Universidade de São Paulo e consultor ainda hoje prestigiado quando o assunto é manejo de pastagem.

Adilson Rodrigues adilson@revistaag.com.br

Revista AG - Trabalhar com pasto é trabalhar com solo. A primeira medida seria fazer uma análise de solo antes de semear? Moacyr Corsi -Todo trabalho em relação à obtenção de uma boa pastagem começa com a coleta correta das amostras de solo. Para uma amostra representativa da fertilidade do solo seriam necessárias pelo menos 15 subamostras da área que tem histórico semelhante de uso, de topografia, de cultivos, etc.

Em resumo, uma coleta de solo sem os cuidados necessários pode provocar frustrações quanto aos resultados das recomendações para o uso dos corretivos e fertilizantes.

Revista AG - Quais cuidados gerais o produtor precisa ter em relação à pastagem?

Moacyr Corsi - Primeiro, seria em relação à escolha da espécie forrageira e à qualidade da semente, não só o valor cultural, mas também a pureza varietal. Isso é adquirir sementes sem a contaminação de outras forrageiras. A contaminação por outras espécies tem se constituído em problemas para o manejo intensivo das pastagens. Depois vem o preparo adequado do solo, taxa de semeadura, compactação, controle de invasoras na época correta para auxiliar no estabelecimento e adubação para estimular o perfilhamento e minimizar a erosão através da rápida cobertura do solo pelo capim. Esses são cuidados que resultam em maior economia na formação das pastagens, considerando os resultados de produtividade animal nessas áreas bem formadas.

Revista AG - Hoje, o pecuarista acordou para a necessidade da adubação de pastagens? Ele vem promovendo-a corretamente?

Moacyr Corsi - A adubação só é recomendada quando o pecuarista realiza um bom manejo do pastejo, isto é, faz bom aproveitamento da forragem produzida. Estima-se que na média aproveitam-se cerca de 40% da forragem produzida, quando deveria usar pelo menos 60%, e, em pastagens exploradas intensivamente, o aproveitamento da forragem produzida deveria estar entre 70 e 80%. Em resumo: se está se perdendo forragem produzida, não faz sentido produzir mais através de adubações. O resultado seria aumento nas perdas e prejuízo com o mal uso da técnica. Quando o manejo do pastejo é correto, o resultado da adubação tem demonstrado margem líquida (lucro) equivalente ou maior que a cultura da soja em projetos implantados em Rondonópolis/ MT, Paragominas/PA e Rancharia/SP.

Revista AG - Nos casos em que a pastagem já não é mais “aquela”, seria imprescindível fazer a suplementação mineral do rebanho? Moacyr Corsi - A suplementação mineral sempre é necessária. À medida que a fertilidade do solo melhora, se pode ajustar as concentrações dos minerais no suplemento. O fósforo é um dos minerais que em níveis elevados no solo reflete níveis adequados na planta forrageira. Nesse caso, e quando o consumo da forragem não é limitado, o teor de fósforo no suplemento pode ser recalculado para atender à exigência nutricional do animal.

Revista AG - Sementes também são um ponto interessante de discutir. O barato sempre sai caro? Moacyr Corsi - Na compra das sementes, deve-se considerar o valor cultural (VC), a pureza varietal e o vigor. É recomendável fazer análise do lote de sementes quando chega à propriedade para não ser surpreendido após a semeadura. Nem sempre a semente com preço menor é a mais econômica, quando se considera a taxa de semeadura e outros custos envolvidos na implantação da pastagem. Se as sementes A e B têm valor cultural de 30 e 60%, respectivamente, a semente B pode custar pouco mais que o dobro da semente A, considerando a mesma taxa de semeadura, o custo do transporte e a autonomia das semeadoras.

Revista AG - Sabemos de algumas entidades que estão brigando para derrubar a exigência de um percentual mínimo de pureza das sementes. Você concorda com essa medida?

Moacyr Corsi - A pureza das sementes é uma necessidade em sistemas intensivos de produção. Se tivermos mais que uma variedade de gramínea forrageira em um piquete, o manejo é feito sacrificando a eficiência do pastejo e/ou o desempenho dos animais.

Com redução na eficiência do pastejo, a perda de forragem aumenta, refletindo no decréscimo da taxa de lotação. Espécies forrageiras diferentes têm ritmos de crescimentos que alteram o intervalo de pastejo. Assim, se as sementes de capim Mombaça estiverem contaminadas com as de capim Tanzânia ou Tobiatã, os animais darão preferência ao pastejo de uma das espécies forrageiras em detrimento da outra.

A espécie preferida será superpastejada, provocando degradação, enquanto a menos pastejada perderá valor nutritivo e poderá se constituir na espécie dominante no pasto. Nessa situação, a eficiência do pastejo é baixa e o desempenho do animal pode ser prejudicado quando se decide aumentar a pressão de pastejo para os animais consumirem uma forragem pouco utilizada no início do pastejo. Em resumo, o prejuízo devido à impureza varietal é significativo.

Revista AG - Manejo também é um fator determinante. O pecuarista está acertando mais o cálculo da pressão de pastejo?

Moacyr Corsi - O manejo do pastejo é, ainda, o fator limitante para atingirmos níveis mais elevados de produtividade na pecuária. Atualmente, a produtividade média da nossa pecuária é de 5@/ha/ano e cerca de 0,3 bezerro/ha/ano. Nesses níveis, a pecuária de corte não é sustentável frente às alternativas do uso do solo. Entretanto, muitos empresários estão conscientes da importância do manejo do pastejo e já não se surpreendem com produtividades superiores a 40 @/ha/ano e mais de 1,5 bezerro/ha/ano. Nesses patamares de produtividade, a margem líquida da pecuária permite equivalência em retornos econômicos comparada à agricultura.

Revista AG - Hoje, o pecuarista tem meios para sair da monocultura do braquiarão?

Moacyr Corsi - O pecuarista pode usar diversas espécies forrageiras na propriedade, desde que cada uma delas ocupe piquete diferente. Não se recomenda ter mais que uma espécie forrageira no mesmo piquete, devido às diferenças nos ritmos de crescimento das plantas.

Revista AG - Para as condições do Brasil Central, seria possível dar um exemplo de como consorciar dois ou mais pastos?

Moacyr Corsi - Associar duas ou mais gramíneas forrageiras em um mesmo piquete é arriscado. Entretanto, podem-se usar duas espécies para auxiliar a formação da planta forrageira que se estabelece mais lentamente. Esse é o caso de se semear o milheto com a Brachiaria humidicola.

O manejo correto do milheto de forma que a humidícola não sofra a competição por luz é recomendada para acelerar a cobertura do solo, reduzindo os riscos de erosões, diminuindo a competição por invasoras e, o mais importante, iniciando o pastejo mais rapidamente na área, aproveitando o crescimento do milheto.

Revista AG - Outra tendência muito forte é a integração da pastagem com o milho. Qual seria a melhor cultivar para esse sistema?

Moacyr Corsi – A espécie forrageira mais usada é a Brachiaria ruziziensis, devido à qualidade de forragem que pode proporcionar. Mesmo quando o estádio dessa planta forrageira esteja mais avançado, é adequado o consumo pelo animal. Também uma das qualidades dessa planta forrageira é a facilidade para dessecação, exigindo menor quantidade de insumo para obter bons resultados. Atualmente, considera-se também a capacidade de a planta forrageira controlar ou minimizar a multiplicação de nematóides pratylenchus e meloidogyne, que são pragas para a cultura da soja.

Quanto à capacidade de as plantas forrageiras se estabelecerem com a cultura do milho, não haveria restrições quanto à espécie forrageira porque, em caso de muita dominância da forrageira, como com as do gênero Panicum, pode ser usado sub dosagem de herbicida para o controle da velocidade de crescimento.

Revista AG - Há dois anos houve inúmeros relatos de Morte da Braquiária no Mato Grosso. Essa situação se encontra mais controlada?

Moacyr Corsi – A cada ano são apresentadas algumas novidades sobre esse assunto que ainda não está resolvido. Sabe-se que a causa mortis é definida por vários fatores. Experimentos mostram que o ataque de cigarrinha das pastagens predispõe o braquiarão à morte. Em alguns trabalhos, tem-se comprovado que o controle sistemático da cigarrinha promove cobertura de cerca de 75% da área da pastagem com o braquiarão enquanto que, nas glebas onde o controle foi esporádico, essa cobertura não passava de 45%. Os resultados demonstram que níveis de correção e fertilidade do solo não apresentaram resultados significativos no controle da morte e aplicação de fungicidas e nematicidas também não apresentaram resultados consistentes.

Revista AG - Goiás registrou ataques de Lagartas-das-pastagens e, em outros locais, de helicoverpa. Como está a situação da incidência de pragas nos pastos brasileiros?

Moacyr Corsi – Os ataques são mais frequentes quando as condições climáticas favorecem. Com dias chuvosos, seguidos de temperaturas mais elevadas, ocorre o crescimento das plantas forrageiras e a multiplicação das lagartas.

O ataque sempre é mais severo quando o pecuarista não identifica a presença das mariposas responsáveis pelo surgimento dessa praga. Se isso fosse prática de rotina na pecuária, teríamos menores prejuízos com lagartas, uma vez que seu controle é mais eficiente e menos oneroso quando esse inseto está em fase inicial de crescimento.

Após a constatação da presença da mariposa, aparecem folhas do capim raspadas que seriam o indicativo da presença da lagarta no início de seu desenvolvimento. Nessa fase, defensivos que agem por contato ou fisiológicos são muito eficientes para o controle e, ainda nesse estágio, a lagarta não provocou nenhum prejuízo significativo à planta forrageira.

O controle nessa fase larval geralmente não ocorre por falta de observação do pecuarista que inicia as aplicações de defensivos quando boa parte das folhas foram consumidas pelas lagartas. Nesse caso, o controle, além de apresentar menor eficiência, estaria sendo efetuado quando o prejuízo já ocorreu.

Revista AG - Arrobas por hectares, essa deve ser a nova conta do pecuarista?

Moacyr Corsi – A pecuária será sustentável quando for competitiva a outras alternativas para o uso do solo e, para isso, deve apresentar elevadas produtividades que seriam aferidas em @/ ha, como ocorre na agricultura, em que a produtividade é definida em sacas/ha ou kg/ha a exemplo da soja, milho, feijão, etc.

A nossa pecuária ainda é avaliada por unidades compartimentadas, a exemplo de @/boi, kg de ganho de peso por animal por dia (GPD), cabeças ou UA/ha, porcentagem de prenhez e porcentagem de mortes de bezerros quando esses índices zootécnicos deveriam estar associados para determinar @/ ha ou bezerro/ha.

Vamos aos fatos: se um pecuarista aumentar o ganho de peso diário de um animal partindo da média de 400 g/dia para 700 g/dia, teria um acréscimo de 75% na produção. Entretanto, se esse acréscimo percentual for realizado sobre as 5@/ha/ano, que é a média nacional, sua produtividade passaria para 8,75@/ha/ano ou estaria recebendo R$ 1.312,50/animal ao valor de R$150,00/@. Por outro lado, o sojicultor ou o agricultor que plantou milho comercializando safras aos valores de R$ 65,00/saco de soja e R$ 28,00/saco de milho precisariam produzir 20 sacos de soja ou 47 sacos de milho/ha/ano para ter a mesma renda bruta que o pecuarista.

Sem dúvida essa produtividade para soja e milho seriam consideradas como “frustração considerável de safra”. Se a pecuária continuar com níveis baixos de produtividade, terá pouca chance de ser sustentável, definindo- -se como sustentável uma atividade longeva. O potencial de produtividade da pecuária permite afirmar que essa atividade em sistemas intensivos de exploração apresenta margem líquida tão boa ou melhor que a proporcionada pela agricultura como tem sido comprovado em fazendas nos estados do MT, PA, SP e AC, entre outros.


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