Leite

VERÃO X REPRODUÇÃO

Ventiladores, aspersores, sombra ou galpões climatizados são ferramentas que minimizam o efeito do estresse calórico

Lucas da Silva Rocha*

Estresse térmico seria ultrapassar a zona de conforto de um animal em que o mesmo demanda gasto de energia e mudança de comportamento na tentativa de controlar sua temperatura corporal, produzindo ou dissipando calor. No Brasil, o estresse calórico é muito comum no verão, quando, além de altas temperaturas, temos elevada umidade. Com essa associação entre temperatura e umidade, conseguimos mensurar a sensação térmica, que reflete o impacto do ambiente sobre o animal.

As vacas leiteiras, em especial as de alta produção, são as que mais sofrem com o estresse pelo calor, pois demandam grande metabolização de nutrientes que geram calor para produzirem o leite. Os sinais de uma vaca estressada são aumento dos movimentos respiratórios, pescoço esticado, boca aberta e salivação (vaca ofegante). O principal fator responsável pela diminuição da produção em animais nesse estado é a diminuição no consumo de alimentos.

Diversos são os transtornos e prejuízos causados pelo estresse térmico, tanto direta como indiretamente. Dentre eles, podemos citar: queda na produção de leite (que segundo Simões, H.G. (2014) pode chegar a 30%), aumento da incidência de doenças, principalmente, no período de transição e relacionadas à imunidade, e diminuição da fertilidade das vacas.

Para minimizar esses efeitos, várias alternativas foram e estão sendo desenvolvidas. A utilização de ventiladores, aspersores, sombra natural e artificial ou até mesmo de galpões climatizados como nos cross-ventilation são ferramentas que minimizam o efeito do estresse calórico, diminui a queda da produção e dos índices reprodutivos, além de diminuir as chances de ocorrência de algumas doenças.

Atualmente, muitas pesquisas estão focadas na melhora da reprodução das vacas com estresse calórico na tentativa de diminuir o impacto que o verão pode exercer sobre os índices reprodutivos de uma propriedade leiteira.

No Brasil, em geral, pode-se notar um descaso em termos de ambiência com os animais não produtivos, destacando, entre eles, as vacas pré- -parto. Devemos voltar nossa atenção nessa fase e garantir, principalmente, a esses animais um ambiente confortável e ausente de estresse.

A fase transacional (espaço de tempo compreendido entre os 21 dias antes e depois do parto) de uma vaca leiteira é o período de maior importância e atenção. Importância porque o manejo adotado nesse período estará correlacionado e refletido em toda a lactação que se segue. Atenção, porque 75% das doenças ocorrem nessa fase.

“Essá é a fase que podemos e devemos intervir, para preparar nossa máquina de produzir leite a expressar todo seu potencial e evitar os contratempos”. Os cuidados com esses animais serão refletidos não só na produção, mas também na fertilidade e na capacidade de se tornarem gestantes após passar pelo período voluntário de espera.

De modo geral, a fertilidade das vacas é muito comprometida no verão devido ao estresse calórico. O aumento da temperatura ambiental e, consequentemente, corporal da vaca diminui a qualidade dos oócitos e altera a produção hormonal, diminuindo a concepção e a sobrevivência do embrião. As consequências desse fenômeno são o aumento dos dias em abertos, a diminuição da taxa de detecção de cio e da taxa de concepção, maior ocorrência de anestro ovariano e perda embrionária por afetar o sistema reprodutivo como um todo. Ou seja, prejuízos na certa.

Outro fator importante é a temperatura corporal da vaca na inseminação. Segundo Bonato et al. (2014), vacas que, no momento da inseminação, apresentavam temperatura corporal maior que 38,6ºC tiveram sua taxa de concepção quase 10% menor do que as com temperatura mais baixa. Isso ocorre porque a temperatura corporal está diretamente relacionada à temperatura uterina, sendo ela 0.2ºC menor que a temperatura do corpo (Ulberg e Burfening; 1967).

Muito se tem pesquisado em alternativas para minimizar os efeitos do calor sobre os índices reprodutivos. Esse fato passou a tomar tamanha dimensão à medida que percebeu se tratar de um problema social e não somente reprodutivo. Sabemos que as vacas que não emprenham no verão irão emprenhar após término desse período. Talvez mais ainda do que o problema de aumentar o intervalo entre partos desses animais, tem-se um acúmulo de partos no início do verão no ano seguinte, levando a superlotação dos lotes pré e pós-partos, aumento na incidência de doenças, diminuição ainda maior no conforto desses animais, produção instáveis, assim como demanda por serviço na propriedade. Isso se torna um ciclo vicioso.

Quando pensamos, qual seria o primeiro local a investir em ambiência na minha propriedade? Um estudo de extensão realizado nos Estados Unidos nos ajudou a responder essa pergunta. Foram utilizadas duas fazendas com 5.000 vacas cada uma, de mesmo proprietário e na mesma região. Em uma das fazendas, os índices reprodutivos no verão eram notavelmente melhores utilizando o mesmo manejo reprodutivo.

Controlando a temperatura dos animais e de todos os ambientes por onde passavam, identificamos que a propriedade com os melhores índices reprodutivos era a que apresentava maior eficiência no resfriamento dos animais na sala de espera. O contrário se aplica: quanto menor o conforto térmico desses animais, menores serão os índices reprodutivos. Isso ocorre porque esses locais geralmente são fechados e há aglomeração. Isso facilita a implementação de mecanismos para resfriamento das vacas, entretanto, quando isso não é realizado ou feito de forma ineficiente, tem-se um aumento do estresse calórico pelo acúmulo de calor.

E o que é mais eficiente para refrescar minhas vacas? Água, vento ou os dois juntos? Com certeza a associação entre a água e o vento em ciclos alternados é a forma mais eficiente para fazer com que haja a troca de calor entre a superfície corpórea e a água que, através do vento, evapore o calor e ele se dissipe, resfriando a vaca. Pensando pela utilização isolada de um desses mecanismos, a utilização da água, desde que ela entre em contato com a superfície da pele da vaca e não somente sobre o pelo (molhe a vaca), tem se mostrado mais eficiente que a utilização isolada do ventilador.

Em outra pesquisa que fizemos nas grandes fazendas do estado do Kansas nos Estados Unidos, as vacas caracterizadas como de baixa fertilidade (que foram inseminadas e não retornaram ao cio, porém, no diagnóstico de gestação aos 30-36 dias, estavam vazias) são muito comuns nos meses quentes do verão. Esses animais foram divididos em dois grupos, um que recebeu apenas uma prostaglandina e o outro, uma prostaglandina e uma dose de GNRH antes do início do protocolo de IATF. Não houve alteração no número de animais inseminados em cio, assim como na taxa de concepção desses animais. Entretanto, nos animais inseminados em tempo fixo, a taxa de concepção das vacas que receberam GNRH foi quase 11% maior do que as que receberam apenas uma dose de prostaglandina.

Outro fator já há bastante tempo concretizado é a utilização da tecnologia de transferência de embriões em vacas sobre efeito do estresse calórico. Com isso, podemos diminuir os efeitos do calor sobre a qualidade oocitária das vacas, assim como passar pelo período de maior sensibilidade do embrião ao estresse calórico, que é na sua primeira semana após fecundação. Como resultado, conseguimos ter uma taxa de concepção significativamente maior quando comparada à inseminação artificial, além de ser uma excelente ferramenta para agilizar a melhoria genética do rebanho, utilizando animais de genética superior.

Portanto, nota-se a importância do resfriamento das vacas sob temperaturas elevadas, pensando primeiramente em sala de espera e ordenha para projetos de climatização, utilização de hormônios que ajudem e reponham a deficiência das vacas, transferência de embriões e, quem sabe daqui a alguns anos, a utilização de touros geneticamente mais resistentes ao estresse térmico na inseminação artificial. Essas são algumas alternativas a serem empregadas para minimizar o efeito catastrófico que o verão pode representar a uma propriedade de leite.

*Lucas Rocha é técnico do Departamento Leite da ABS Pecplan. Consulte a bibliografia com o autor.


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