Na Varanda

 Neoempreendedorismo - Parte 1 A tendência da produção bovina

Francisco Vila É economista, consultor internacional e diretor da Sociedade Rural Brasileira vila@srb.org.br

Certamente, aproveitamos a passagem do ano para refletir sobre o futuro. Mesmo contentes com a atual fase do nosso negócio, as preocupações sobrepõem-se ao otimismo. Muitas coisas mudam ao mesmo tempo e isso dificulta a visão clara sobre o melhor caminho a seguir. É evidente que não será mais possível continuar a aplicar as mesmas receitas vencedoras do passado. Por outro lado, os diversos cenários, desde a conjuntura global e a crise estrutural nacional, até a feroz explosão de tecnologias científicas, técnicas e administrativas tornam quase impossível a construção de um cenário consistente, que possa servir como mapa para a condução do nosso negócio nos próximos anos.

Primeiro, a boa notícia. A demanda por carne padronizada continuará a crescer em torno de 2 a 4%/ano, em um horizonte de dez anos. Dito isso, convém analisar quais são as condições necessárias para poder participar dessa evolução positiva. A Embrapa estima que 40% dos 5 milhões de produtores rurais desistirão da atividade nos próximos 15 anos. Ou seja, com menos pecuaristas, rebanho nacional reduzido e um encolhimento significativo da área de pasto, a oferta de carne irá crescer. Como em outros setores da economia, o número de atores do segmento diminuirá. Diferente do passado, quando todos sobreviveram, haverá uma divisão de vencedores e perdedores que, com prazos cada vez mais curtos, resultará na exclusão de produtores. Os de porte médio são os mais vulneráveis.

Como, então, construir um novo modelo de negócio para a bovinocultura? É importante enxergar que o peso relativo dos tradicionais fatores de produção está crescendo. Na teoria tradicional, a combinação de terra, capital e mão de obra era suficiente para produzir bens. Recentemente, com a tecnologia, um quarto fator foi adicionado. No entanto, com os mercados globalizados, a ascensão do poder do consumidor e a informação total e instantânea, outras vertentes precisam ser incluídas no planejamento e na gestão da pecuária. Trata-se das três características da economia do século 21, que são: mobilidade, liquidez e conhecimento.

Ao longo da história, o bovino exerceu quatro funções: animal de tração, produtor de leite, produtor de carne e indicador de riqueza. Lembram-se dos dotes que as noivas tinham que apresentar para o casamento? Mais tarde, no final da época dos nômades, a terra entrou como outro elemento de formação de riqueza. Porém, tudo isso perde relevância quando aplicamos as ferramentas modernas da gestão de negócios. Não preciso mais ser dono da terra, pois posso arrendar o pasto e aplicar meu dinheiro na operação e não no ativo fixo. Com o renascimento da inflação, o produtor pode raciocinar que é importante usar esse patrimônio como reserva de valor. Temos de pensar bem se isso hoje tem o mesmo significado dos anos 1980. Pois, se 40% dos produtores desistirem da atividade, certamente 15 a 20% das terras chegarão ao mercado (de compra ou arrendamento). Ou seja, a valorização real da terra não é mais tão segura como no passado.

Outro argumento é a tendência de aumentar a lotação por área em combinação com outras tecnologias de suplementação, que resultará no animal padronizado e mais precoce que o mercado demanda. Mais produção em menos área de pasto. Através da crescente diferenciação dos preços (combinação de prêmios e deságios de penalização, como ocorre no Uruguai) e da classificação de carcaça que pode ser acompanhada online, os produtores mais eficientes irão ditar o nível do preço da @. Com isso, automaticamente, pecuaristas menos competentes irão encarar prejuízos contínuos.

Se o modelo vencedor do passado não vingar mais no futuro, o que é preciso fazer? A resposta é copiar e adaptar a maneira de produzir de outros segmentos, seja da indústria, seja da agricultura. A tendência é a “produção puxada” combinada com múltiplas formas de alianças estratégicas e novos conceitos de financiamento e da gestão colaborativa. O mercado demanda diversos tipos de qualidade, em diversas épocas do ano, diferente em cada região e no mercado internacional. Não existe “um boi que sirva a todos”. Assim, o produtor terá de estudar sua vocação (dimensão da fazenda, solo, topografia, raça, características regionais, nível de capacitação dos colaboradores, etc.) e procurar programas de fidelização com um frigorífico de confiança.

No futuro, como em economias mais desenvolvidas, não existirá mais a consulta de preços de vários frigoríficos antes da venda. O animal será vendido antes da compra do seu sêmen, pois tanto o varejo, quanto o frigorífico e o produtor atenderão uma demanda específica de múltiplos segmentos de consumidores. O próximo passo são as chamadas alianças verticais. Trata-se do alinhamento dos processos entre os principais fornecedores de insumos, produtores em clusters (com o mesmo perfil de animais), frigoríficos e distribuidores/exportadores. Sabemos que o potencial de ganho através de uma melhor organização da cadeia oscila entre 20 e 25% que podem ser compartilhados por seus elos. E tudo isso pode ser completado com o chamado “financiamento de programas” que os bancos estão estudando e que serão dirigidos a um grupo composto pelas empresas de insumos, produtores e transformadores.

Naturalmente, tudo isso não ocorrerá da noite para o dia, mas a tendência é clara e não há outro caminho para atender o consumidor e organizar a cadeia da carne. Quem já está se preparando terá maior perspectiva de continuar a crescer e a lucrar em um dos melhores segmentos da economia brasileira. Os passos concretos para o planejamento e a implementação desse novo modelo serão objeto da próxima coluna. “Neoempreendedorismo - Parte 2 : Os 3 E’s da agropecuária competitiva”. Precisamos de um novo empreendedor na pecuária, sem diminuir o enorme valor que os antigos e atuais pecuaristas tiveram para transformar o Brasil de país importador para um dos principais exportadores mundiais de carne.


Warning: getimagesize(/revistas/ag/imagens/id_403/na+varanda_1.jpg) [function.getimagesize]: failed to open stream: No such file or directory in /home/storage/a/fb/47/edcentaurus/public_html/edcentaurus/application/controllers/AgController.php on line 441