Encontro

Prognósticos

Para a economia, a previsão está mais fácil, já em relação à calmaria da pecuária...

Adilson Rodrigues
adilson@revistaag.com.br

Para tentar desvendar esse desafiador enigma, um time de consultores de primeira linha se reuniu na capital paulista. Capitaneados por Alcides de Moura Torres Júnior, proprietário da Scot Consultoria e promotor do Encontro de Analistas, os especialistas tentaram decifrar as pistas deixadas em 2015 para o pecuarista tentar planejar o nebuloso 2016. Normalmente, os três primeiros meses do ano já são muito ruins para a pecuária, pois é um período que compreende a voltas às aulas e também é quando os consumidores amargam uma alta carga tributária.

Agora um complicador tornou esse problema ainda maior: a desaceleração da economia, provocada especialmente pela crise política que assola o País. Segundo o time de analistas, nesse quesito, os prognósticos não são bons. Números negativos pairam sobre o poder de compra do brasileiro, inclusive da cesta básica, na qual também está embutida a carne bovina. Confirmou-se a previsão do índice de inflação em dois dígitos e 2015 fechou em 10,67%. Além disso, a taxa Selic (Sistema Especial de Liquidação e de Custódia), que baliza o cálculo de juros, fechou em assustadores 14,25% e o ICF (Intenção de Consumo das Famílias) já em novembro despencava 39%.

E não para por aí: as tão famigeradas “Pedaladas Fiscais” que permitiram a abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, entre outros fatores bem conhecidos, e com base na Selic que o próprio Governo Federal estipulou, o mesmo terá um gasto de R$ 400 bilhões para rolar uma dívida pública superior a R$ 3,5 trilhões. Como se sabe, a saída será o aumento dos tributos, algo que já pesa bastante no bolso do brasileiro desde 2014. “A mensagem é clara, o produtor vai pagar a conta e deve esquecer o crédito rural. Ele só existe para quem oferece garantia real para custeio, coisa que nunca se vê em qualquer outro lugar do mundo”, informa inconformado Alisson Paolinelli, ex-ministro da Agricultura.

A pequena luz no fim do túnel é atribuída a dois fatores. O primeiro é a virada do ciclo pecuário, a qual ainda vivenciamos e que pode segurar a cotação da arroba do boi gordo na média de crescimento apresentada em 2015, ou, segundo uma parte dos consultores, um pouco acima da inflação. “Em 2016 teremos mais do mesmo. Não passaremos tão incólumes à crise”, projeta o analista Décio Zylbersztajn, pesquisador do Pensa/USP. “Devemos ter um ano bom, mas menos otimista que nos últimos dois”, endossa Alcides Torres. O segundo fator é a retomada das exportações brasileiras de carne bovina, em que o dólar a quatro reais deixa as coisas bem interessantes e também pode causar borbulho no mercado interno.

O calendário encerrou ruim para o setor. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) informa que os embarques de carne bovina fecharam o ano de 2015 com faturamento de US$ 5,9 bilhões e 1,39 milhão de toneladas de equivalente- carcaça embarcadas. O resultado é inferior ao mesmo período de 2014, quando se registrou um recorde histórico de US$ 7,2 bilhões e 1,56 milhão de toneladas, todavia efeito provocado por fatores conjunturais que levaram alguns importantes países a comprarem menos.

A boa notícia é que a China reabriu o mercado para o Brasil e já fez toda a diferença nas exportações de carne bovina do segundo semestre. Ainda na Ásia, o Japão também deve retomar as compras em breve, assim como fez a Arábia Saudita. Esta última vai agregar mais 40 mil toneladas/ano de equivalente-carcaça e facilitar a entrada do produto brasileiro em países como Qatar, Bahrein e Kuwait.

Os árabes são uma referência na escolha de fornecedores de proteína vermelha naquela região. Além disso, o fornecimento de 59 mil toneladas de carne in natura para os Estados Unidos está previsto para iniciar ainda neste primeiro semestre. A esperança é que os norte-americanos tragam outras clientelas interessantes ao Brasil. É nisso tudo que Antônio Jorge Camardelli, presidente da Abiec, se baseia para apostar em bons ventos para a pecuária brasileira em 2016.

Sem mar de rosas

Alcides Torres comandou os debates do evento

Ratificando o que foi dito anteriormente, mesmo em meio a tanta volatilidade, e muito cauteloso, Sérgio De Zen, coordenador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea/USP), arriscou enxergar margem para uma arroba corrigida acima da inflação, “o problema é a falta de previsibilidade. Não há como antecipar as relações de troca, boi/ milho é um bom exemplo”, pondera.

Alex Lopes, analista da Scot, esperava, ao momento do encontro, com a chuva que caía em Goiás, Mato Grosso e mais pontualmente em São Paulo, o boi de safra desovando em janeiro e fevereiro, entretanto, uma reviravolta garantiu boas precipitações no Sul e Sudeste do País e seca no Brasil Central, Norte e Nordeste. Resultado: com menos bois na praça, graças à falta de pastagens, o preço se sustentou. Só que nem todos os analistas creem que esse mar de rosas continue no decorrer do ano.

O mercado do boi gordo, no segundo semestre de 2015, já havia fraquejado e algumas variáveis explicam a situação, pois é natural depois de um ciclo de três anos de alta os preços arrefecerem. Entretanto, soma-se a esse fator uma crise de consumo no mercado doméstico - em que fica 80% da carne produzida e que ainda tende a piorar - e uma recessão econômica severa. “Em um primeiro momento isso não foi sentido no início de 2015 porque estava sendo compensado pelas exportações de carne bovina com dólar mais alto, só que é um movimento que não se sustenta”, avalia o analista Fábio Dias, membro convidado da rede global de consultores GLG Grup.

“O câmbio favorável e a possibilidade de uma exportação em alta não são fatores suficientes para gerarem otimismo em 2016. O momento é para correções um pouco abaixo da inflação ou mesmo repetição dos preços vividos em 2015. Além disso, o boi já esteve acima da inflação nos últimos dois anos e vai ser difícil se ultrapassar o teto novamente”, complementa Dias. Para ele, hoje até há gordura para queimar, mas atenção nunca é demais. O mercado do bezerro, por exemplo, continua com preço bom e não apresentou queda; o problema é que também não apresentou espaço para correções positivas.

“Esse é outro indicador de que 2016 poderá ser mais duro para o pecuarista. E todo o valor da exportação não vai ser transportado totalmente para a arroba, pois os frigoríficos vão guardar essa margem de lucro pra eles”, explica Dias.

Inclui-se ao panorama o fato de os próprios pecuaristas já sinalizarem a retenção do rebanho de fêmeas, ensaiando colocar mais boi no mercado neste ano, e, do outro lado, a indústria já ter diminuído em 10% o volume de abate para ajustar sua produção à demanda, para não correr risco de ficar com muito produto na mão, com pouca gente pra comprar.

Para Fábio Dias, o ano de 2016 não vai ser tranquilo e recomenda que não se faça nenhuma grande loucura

Lembrando que se trata de uma tática para corrigir o erro que levou ao fechamento de diversas plantas frigoríficas entre janeiro e julho passados, equilibrando-se a oferta com a procura.

Cautela

Se vale a pena investir em tecnologia, em meio a tudo isso? Essa é uma pergunta que veio da plateia, exatamente do microfone de João Pimenta Ferrari, administrador da Fazenda Mariópolis, em Itapira, no interior de São Paulo. E a resposta dos analistas foi rápida: um sonoro sim, afinal, sempre é válido investir no processo produtivo, mas com cautela.

O Encontro de Analistas da Scot Consultoria contou com dois blocos, um sobre macroeconomia e outro voltado ao planejamento da propriedade. No primeiro, conduziram os debates Alysson Paolinelli (presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e ex-Ministro da Agricultura), Bernhard Kiep (vice-presidente de Marketing da AGCO Brasil), Decio Zylbersztajn (pesquisador do Pensa/ USP), Eduardo Corrêa Riedel (secretário de Governo e Gestão Estratégica do Mato Grosso do Sul), Gustavo Diniz Junqueira (presidente da Sociedade Rural Brasileira) e Victor Nehmi (Sparta Fundo de Investimentos).

No segundo, estiveram presentes Alex Lopes (Scot Consultoria), Antônio Jorge Camardelli (presidente da Abiec), Fabiano Tito Rosa (Minerva Foods), Fábio Dias (membro da GLG Grup), Hyberville Neto (Scot Consultoria), Leandro Bovo (analista do Haitong Bank), Luiz Cláudio Paranhos (presidente da ABCZ) e Sérgio De Zen (pesquisador do Cepea/ Esalq-USP).


Warning: getimagesize(/revistas/ag/imagens/id_403/encontro_1.jpg) [function.getimagesize]: failed to open stream: No such file or directory in /home/storage/a/fb/47/edcentaurus/public_html/edcentaurus/application/controllers/AgController.php on line 441