Leite

 

Manejo AMBIENTAL

Conceito permite reduzir custos de produção em virtude do menor consumo de água, ração, energia, fertilizantes e combustíveis

Júlio Cesar Pascale Palhares*

O conceito de manejo na área zootécnica é definido pelo ato de submeter os animais a cuidados de alimentação, trato e higiene, a fim de torná-los mansos, limpos e sadios. Considerando que a execução do manejo ambiental de um sistema de produção de leite também contribui para manter os animais em condições de bem-estar e sanidade, entende-se que esse tipo de manejo deve fazer parte das atividades cotidianas. O conceito do manejo ambiental também passa pela consideração dos valores sociais vigentes. Antigamente, bastava produzir leite. Hoje, a sociedade quer leite com segurança dos alimentos, animais bem tratados, qualidade ambiental e respeito ao trabalhador da propriedade, entre outras exigências.

Realizar o manejo ambiental não é um processo simples, devido aos inúmeros fatores envolvidos: a atividade em si, o meio ambiente e seus recursos, as interações da atividade produtiva com outras correlatas, as legislações, as realidades econômicas e os valores sociais e culturais. Portanto, os manejos devem ser muito bem realizados, caso contrário, as ações poderão ter efeitos adversos ao ambiente e à atividade e sua imagem.

Com isso, pergunta-se: o manejo ambiental faz parte do cotidiano da produção? Considerando a maior parte das unidades leiteiras brasileiras, esse manejo não está inserido no cotidiano produtivo. As justificativas são:
- não há uma definição clara do conceito de manejo ambiental, o que o compõe e como deve ser feito;
- há um entendimento simplista de todos os atores da cadeia produtiva e dos consumidores de que manejo ambiental significa cumprir a legislação ambiental. E cumprir a legislação ambiental é entendido como possuir as licenças ambientais exigidas para a atividade pecuária. Manejar o ambiente é muito mais amplo do que cumprir a lei e esse manejo deve ser uma ação cotidiana e não um ato administrativo;
- os atores da cadeia de produção de leite possuem pouco conhecimento ambiental. Atualmente, essa condição é a maior barreira a um salto de qualidade ambiental das unidades produtivas. Produtores devem ser assistidos em técnicas e práticas ambientais. Profissionais agropecuários devem ter na sua formação as ciências ambientais e profissionais de empresas, e agroindústrias devem ter capacitação ambiental constante a fim de identificar as questões ambientais inerentes à atividade.

Segundo Júlio Palhares, efluentes produzidos devem ser usados na fertilização das pastagens, gerando economia

Manejar o ambiente é entendido como algo de custo elevado, que demanda tempo e mão de obra e não gera recursos financeiros, mas saiba que é possível, através dele, obter o retorno econômico esperado na produção de leite. Isso porque produz impactos positivos na redução do custo de produção devido ao menor consumo de água, ração, energia, fertilizantes e combustíveis; melhora a eficiência no uso de nutrientes, principalmente nitrogênio e fósforo; otimiza o uso da mão de obra da fazenda, aumenta a vida útil de máquinas e equipamentos, melhora o nível de instrução e a capacidade técnica de produtores e colaboradores e, com os benefícios gerados, torna- -se possível disponibilizar mais área agricultável por unidade produtiva.

Na figura 1, propõe-se uma definição para o conceito de manejo ambiental de unidades de produção de leite e os manejos que o compõem. Observa-se que a definição proposta tem um caráter mais focado, baseando- se nos resíduos gerados e nos principais recursos naturais utilizados pela atividade, não considerando outros aspectos que também devem estar presentes no manejo ambiental, como o manejo da biodiversidade e da paisagem, entre outros. A consideração dos outros aspectos propiciará a gestão ambiental, conceito mais amplo que o de manejo ambiental.

Ressalta-se que todos os manejos devem estar baseados nas diretrizes e nos padrões ambientais vigentes nas legislações federal, estadual e municipal, mas não se limitando ao cumprimento dessas diretrizes e padrões. As ciências zootécnicas e ambientais têm elevado dinamismo, o qual muitas vezes não é acompanhado pelas legislações, mas os manejos devem considerar tais características.

O Manejo de Resíduos inclui todos os resíduos gerados pela atividade, como estercos, efluentes (mistura de água com esterco, urina, leite e outros que podem estar presentes na sala de ordenha e são retirados pela lavagem ao final da prática), papel, material veterinário e frascos de produtos agropecuários (medicamentos, carrapaticidas e agroquímicos utilizados nas lavouras, etc.), entre muitos outros. Os efluentes são gerados com maior frequência, em maior quantidade e com grande potencial poluidor.

Uso racional da água é um dos preceitos que compõem o manejo ambiental

Tanto no Brasil como em vários países do mundo, o manejo mais comum para os efluentes é o seu uso como fertilizante, pois se tem nessa água nutrientes indispensáveis para o crescimento das culturas vegetais, como o nitrogênio, o fósforo e o potássio. Esse uso pode ser feito sem tratamento prévio. Os efluentes ficam armazenados em tanques impermeabilizados por determinado tempo ou com tratamento prévio, sendo as tecnologias mais comuns os biodigestores e as lagoas de tratamento.

A utilização dos efluentes como fertilizante é aconselhável, desde que realizada considerando o conceito de Balanço de Nutrientes e o preceito dos quatro Cs (produto certo, taxa certa, tempo certo e local certo).

Na figura 2, observa-se o que deve ser priorizado no cálculo do balanço de nutrientes. O emprego na mecânica de Balanço é válido para qualquer tipo de matéria orgânica que será utilizada como fertilizante. Como exemplo, podemos citar estercos, biofertilizantes, compostos orgânicos e camas.

É possível produzir leite com conservação ambiental. Para isso, mudanças, principalmente culturais, devem ocorrer em todos os elos das cadeias de produção.

Na última década, avanços ocorreram na melhoria das condições ambientais das produções. Esses avanços foram, em grande parte, resultados de pressões sociais e de legislações, e, por assim serem, não causaram as mudanças culturais necessárias e as práticas não foram integralmente internalizadas, pois foram promovidas para atender um objetivo que não era o manejo ambiental da atividade.

O presente sistema traz novos padrões ambientais. Se não for entendido e praticado pelos atores da cadeia de produção, vai fragilizar a pecuária leiteira perante os mercados nacional e internacional, além de não contribuir para a melhoria da qualidade dos produtos.

O país tem conhecimentos e tecnologias para melhorar o padrão ambiental da produção leiteira. Agora, deve-se utilizar essas ferramentas disponíveis para mudar a realidade e garantir um futuro promissor para a pecuária leiteira nacional, com produção em quantidade e qualidade.

*Júlio Palhares é pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste