Raça do Mês

 

LEITE a PASTO é possível

Girolando conquista preferência dos produtores brasileiros e sua genética já se comprova em outros países de clima tropical

Erick Henrique - erick@revistaag.com.br

Sinergia é uma espécie de mantra em qualquer atividade econômica e na pecuária leiteira não é diferente. Muitos são os desafios a serem enfrentados. Por esse motivo, é imprescindível extrair ao máximo o potencial dos animais, visando à sustentabilidade da fazenda.

Em outras palavras, estar preparado frente às adversas condições que cada bioma impõe, como calor, umidade, ataque de parasitas internos e externos, pastagens degradadas e doenças economicamente importantes já é meio caminho andado pelo produtor.

“O Girolando, nos seus diferentes graus de sangue, adapta-se facilmente à necessidade de cada propriedade e aos diferentes tipos de manejo, dos mais especializados, com ordenha mecânica ou em alojamentos como compost-barn ou free-stall, até os mais simples, com ordenha manual feita totalmente a pasto, com ou sem suplementação”, acredita veemente o presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Girolando, Jônadan Hsuan Min Ma.

Segundo o dirigente, fornecendo uma dieta adequada e equilibrada, assim como deve ser feito com qualquer outro animal leiteiro, independentemente da raça, o potencial de produção do Girolando será expresso com relevância. “Não se pode ficar amparado exclusivamente nos aspectos genéticos da raça. Há também de se atentar a outros fatores, pois sabemos que a genética sozinha não produz leite a contento. Precisa estar sustentada pelos demais pilares da boa produtividade: nutrição, sanidade e gestão”, resume.

“A raça possui capacidade produtiva tão boa quanto à do gado Holandês, desde que manejado corretamente. O animal é fruto do cruzamento do Gir Leiteiro (zebu) com Holandês (taurino), raças com virtudes particulares e comportamentos distintos, mas com uma coisa em comum: a aptidão por produzir leite, e de muita qualidade”, observa Jônadan Ma.

Para ele, não é prudente comparar uma raça centenária em melhoramento genético como o Holandês com o Girolando, que ainda não completou 30 anos como raça homologada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Entretanto, ao gerar uma produção economicamente viável a campo, a raça tem conquistado adeptos dentro e fora do Brasil.

Quem ratifica essa procura internacional pela genética Girolando é o administrador da Fazenda Santa Luzia (Grupo Cabo Verde), Maurício Silveira Coelho. Segundo ele, a propriedade já exportou animais, sêmen e embriões de suas principais doadoras para países como Colômbia, México, Bolívia e Venezuela.

Jônadan Ma ressalta que o Girolando pode ser usado a pasto, no fre-stall ou no compost-barn

O produtor da cidade mineira de Passos explica que o interesse pelos animais Girolando têm crescido substancialmente graças ao bom desempenho das vacas na produção leiteira em condições tropicais, assim como o melhoramento genético constante que o rebanho tem vivenciado. Fatores que, para Coelho, resultaram na boa satisfação dos clientes, gerando altos índices de recompra da raça.

Conforme informações do presidente da Girolando, a demanda cresce, sobretudo, nos países da América Central e do Sul, que possuem clima e sistema produtivos similares ao brasileiro. Diante da demanda internacional, a entidade está estabelecendo termos de cooperação técnico- científicos com diversos países, mirando a expansão do número de registros genealógicos, além da obtenção de dados mais precisos para uso no Programa de Melhoramento Genético do Girolando (PMGG).

“Na maioria dos países que já criam o Girolando, o resultado tem sido muito satisfatório. Baseado em nossa experiência, o animal está promovendo um aumento significativo na produção de leite nesses polos”, afirma o dirigente.

Jônadan Ma, inclusive, esteve na Costa Rica no dia 18 de outubro, durante o evento promovido pela Aceleche (Asociación de Criadores de Cebú Lechero y Sus Cruces) para ministrar uma palestra sobre a raça e a pecuária leiteira brasileira.

A associação costa-riquenha pretende firmar em breve um termo de cooperação técnica na área de melhoramento genético e registro genealógico. A ação deve se estender até Guatemala e República Dominicana, que integraram a agenda do presidente da Girolando para negociar os acordos técnicos com associações dos dois países.

Costa-riquenhos estão interessados em termo de cooperação técnica com criadores brasileiros

Esses acordos, de suma importância para qualificar a genética do animal nas Américas, estão previstos para serem concluídos e oficializados no 1º Congresso Internacional da Raça Girolando, a ser realizado na cidade de Belo Horizonte/ MG, entre os dias 19 e 21 de novembro.

O simpósio terá presença de renomados técnicos e pesquisadores do Brasil e do exterior, que abordarão temas como sanidade, reprodução, melhoramento genético, manejo, nutrição, seleção genômica e comportamento animal. Ademais, haverá visitas às fazendas produtoras de leite a partir do Girolando. O Congresso terá a apresentação de painéis e sessões de pôsteres com trabalhos científicos nacionais e internacionais sobre a pecuária de leite.

“Será um momento importante para os girolandistas e profissionais do setor se atualizarem sobre as novas tecnologias do segmento com especialistas do Brasil, da Guatemala, Venezuela, Bolívia e Bélgica”, informa Jônadan Ma.

De acordo com o mandatário da Girolando, haverá apresentação de cases de sucesso dos produtores que são referencia na bovinocultura leiteira brasileira e de outras nações. O acesso às novas informações, experiências, tecnologias, fará do congresso um marco importante para a internacionalização da raça.

Leite em larga escala
A trajetória da Fazenda Santa Luzia é considerada um exemplo de sucesso tanto pela produção de leite em larga escala quanto pela tradição. A fazenda existe desde 1960, criada pelo patriarca José Coelho Vitor, o Sr. José Cabo Verde. A propriedade destina 90 ha ao plantio de milho, 120 ha para cafeicultura e avicultura de corte, além de 270 ha à produção de leite em pastejo rotacionado, o carro-chefe da propriedade, em que são utilizados os capins brachiarão, coastcross, tanzânia e estrela africana. Todos adubados e com solo corrigido.

O sistema produtivo da Cabo Verde é composto por 17 módulos, onde o gado pasteja durante dois dias, com período de descanso de 30 a 32 dias. Os piquetes possuem água fornecida à vontade, sombra, saleiro e um cocho para fornecimento de volumoso no período da seca.

“Optamos por produzir leite aproveitando- se ao máximo as pastagens. Por isso, investimos em irrigação para permitir uma produção estável e maior ao longo do ano. Temos agora 130 ha irrigados por pivô central, e vamos introduzir mais 80 ha de irrigação por malha. Assim, podemos garantir que a maior parte da dieta das vacas provenha dos pastos e o complemento seja pelo fornecimento de concentrado”, detalha o gestor da Santa Luzia.

A fazenda possui um rebanho 3.500 fêmeas, sendo a composição racial do rebanho de adulto 45% de vacas meio-sangue, 40% de fêmeas 3/4 e 15% de matrizes 7/8. A empresa ordenha 1.500 vacas, com uma produção diária de 28.000 litros de leite. Em 2014, alcançou 7 milhões de litros de leite e a expectativa para 2015 é de um crescimento na ordem de 20%.

Para ajudar a cumprir essa meta, o Grupo Cabo Verde contratou um inovador sistema de ordenha rotatória, o primeiro desenvolvido para animais Girolando, ao qual destinou 65 hectares de pastagem irrigada. O equipamento entrou em funcionamento em agosto, com poucos animais, agora está com mais de 500 vacas em lactação e a projeção é para 700 úberes até dezembro.

“O projeto é moderno, com foco muito grande na racionalidade da mão de obra, uso de dejetos na fertirrigacão, reaproveitamento de água pluvial, alimentação automatizada individual e por produção fornecida na sala de ordenha, permitindo uma elevada facilidade operacional”, destaca Maurício Coelho.

Diferente do que é visto na pecuária brasileira, Coelho representa a terceira geração na sucessão familiar da propriedade. “Nós somos cinco irmãos com funções variadas. Isso fortalece nossa estrutura administrativa. No nosso entendimento, o caráter familiar da empresa é visto como uma ‘fortaleza’, porque estamos determinados nos objetivos preestabelecidos com visão no longo prazo, tanto na produção de leite como nas demais atividades de atuação da fazenda”, conclui.

Maurício Coelho informa que a Cabo Verde já dispõe de um plantel de 3.500 fêmeas

Chovendo leite
Não é novidade que a atividade agropecuária na Região Nordeste é uma tarefa espinhosa por fatores climáticos ocasionados pela seca, inexistência de incentivo das esferas políticas e falta de mão de obra qualificada, entre outros problemas. Mesmo diante desse gargalo, há muitos produtores que apostam no potencial da região e estão dispostos a investir pesado na raça Girolando para produzir leite de qualidade ao consumidor local.

É o caso do criador Manoel Montenegro Neto, da Fazenda Boa Esperança, em Parnamirim/RN, que há seis anos iniciou seu trabalho com a raça. “Nós criamos os animais Girolando meio-sangue, em razão de sua resistência ao clima e alimentação restritiva. Se fosse utilizar a raça holandesa, eu teria que criar 90% do rebanho no confinamento; já com o Girolando posso fazer um combinado de confinado, semiconfinado ou a pasto”, explica o pecuarista.

Montenegro também promove leilões com animais selecionados, mas segundo ele a atividade principal da propriedade é a produção de leite. “Conseguimos 20% de rentabilidade com o rebanho Girolando. Nossa média diária de produção é de 1.380 litros, com 60 vacas em lactação”, comemora o produtor.

O novo girolandista e seu filho, Juliano Montenegro, participam de feiras, encontros técnicos e treinamentos que são promovidos no Rio Grande do Norte. “Também realizamos treinamentos de bem-estar animal, na fazenda, com os colaboradores, para que, no momento da ordenha, a vaca tenha confiança que o peão não vai machucá-la”.

Na análise do produtor da Fazenda Boa Esperança, o mercado está ótimo para os criadores do estado, pois está acontecendo um movimento de melhoramento genético dos plantéis do estado. De acordo com ele, os criadores estão procurando animais melhorados e registrados.

A raça faz “chover leite” na região com ajuda da Companhia de Alimentos do Nordeste (Cialne), uma empresa que atua no ramo de avicultura e pecuária, gerando aproximadamente 4.000 empregos diretos no Ceará. A Cialne conta com a criação de bezerros, gado de recria, reprodução e ordenha, todos das raças Girolando e Gir Leiteiro.

O desempenho dessas duas raças garante a produção de 40 mil litros por dia, considerada a maior nas Regiões Norte e Nordeste do Brasil. Com tamanho sucesso, a empresa passou a fornecer matéria- -prima para a empresa Sabor & Vida, de Maranguape/CE, que atualmente pertence ao grupo Cialne, comercializando derivados como queijos, requeijões, queijo frescal, creme de leite, manteiga, queijo coalho e iogurtes. A indústria processa mais de 60 mil litros de leite por dia.

“Com o manejo sendo adequado desde a cria, nós otimizamos a produção”, diz o veterinário responsável pelo rebanho, Péricles Montezuma, com 20 anos dedicados à pecuária leiteira do Nordeste. A produção de leite da Cialne fica apenas no estado do Ceará, 90% do rebanho que a empresa trabalha é Girolando e 10%, Gir Leiteiro para o cruzamento com o gado Holandês.

De acordo com Montezuma, no momento, o rebanho Girolando em lactação da Cialne é de 2 mil animais. “Realizamos também o controle zootécnico do gado através da qualidade do leite, controle produtivo, descarte dos animais de baixa produtividade, controle sanitário e, para isso, utilizamos ferramentas preventivas para evitar doenças nos animais”, explica o profissional que representará a companhia no Congresso Internacional da Raça Girolando.

Panorama da raça
O mercado vem registrando um aumento considerável na venda de sêmen nos últimos anos. Entre 2009 e 2013, esse crescimento foi de mais de 150%. Atualmente, a raça lidera a produção de sêmen de raças leiteiras no Brasil, chegando à marca de mais de 774.000 doses no ano de 2014.

Um dos fatores que vêm contribuindo para isso, segundo a Girolando, é a maior oferta de touros provados em testes de progênie, ou seja, uma genética comprovada e de qualidade. “Nos leilões, o panorama é altamente favorável. As comercializações têm ocorrido com bastante liquidez, com boas médias e responde por uma comercialização de animais acima de 80% no mercado, conforme dados das leiloeiras”, revela Jônadan Ma.

O presidente da Girolando ressalta que a entidade realiza um trabalho de efetivação do rebanho ativo no sistema Web da associação e, com isso, permitiu levantar exatamente quantos associados o rebanho em atividade tem no banco de dados. Dessa forma, foi identificado um aumento de 15% no número de sócios ativos em 2014.

“Temos, hoje, aproximadamente 3 mil associados e mais de 330.000 animais ativos em um total de 1,5 milhão registrados. A previsão é fechar 2015 com um crescimento no quadro associativo na ordem de 9%, superando a casa de 3.100 e mais de 100.000 novos registros de animais”, completa o dirigente.

Dentro do balanço, a Girolando encabeça o programa Pró-fêmeas com o governo mineiro para viabilizar o aumento da produtividade de leite de pequenos e médios pecuaristas por meio da inserção de animais geneticamente superiores. O programa permite que os produtores comprem fêmeas de qualidade utilizando linhas de crédito com taxas de juros baixas e prazo de pagamento acessível.

“Os animais, em geral, são vendidos em feiras específicas do projeto, mas em 2016 vamos lançar uma plataforma online do programa para facilitar a entrada dos produtores. Minas Gerais foi o primeiro estado a adotar o Pró-Fêmeas, que é desenvolvido pela Girolando em parceria com a Emater, Epamig, IMA e ABCZ”, diz o presidente.

O Rio Grande do Norte é o segundo estado a instituir o programa. A associação também está em negociação com outros estados, a exemplo de Amazonas, Bahia, Alagoas, Goiás, Mato Grosso e São Paulo.