Feno & Silagem

 

ESTRATÉGIA

O passo a passo do planejamento da produção de silagem

Rafael Amaral*

A produção de silagem pode ser considerada como um dos processos mais complexos dentro do sistema de produção de leite ou de corte. O período entre o preparo do solo para estabelecimento da cultura até o momento do descarregamento do silo para início da alimentação dos animais pode variar de 5 a 8 meses, o que torna o planejamento da produção passível de erros. A seguir será apresentado um passo a passo de como planejar a produção de silagem.

1) Escolha da cultura
No Brasil, a cultura de destaque é o milho. É comum observar erroneamente o foco no teor de proteína. Entretanto, a atenção deve ser direcionada às fontes de carboidratos (fibra e energia). O teor de proteína bruta na silagem de milho pode variar de 6,5 a 8%. Geralmente, quando observarmos silagens com teores proteicos acima dos especificados, confere-se que o híbrido é pouco eficiente em produzir grãos. O grande foco para uma silagem de milho de alta qualidade deve ser direcionado novamente ao híbrido com alta produção de matéria seca (MS) digestível, alta proporção de grãos (>30%) e que seja adaptado à região.

2) Cálculo do plantio
Um erro muito comum é não considerar no cálculo da área a variável das perdas de MS.

Iremos tomar como exemplo um confinamento de gado de corte que tratará, durante 90 dias, 5.000 cabeças, com previsão de consumo de 10 kg/dia de silagem de milho. Também será considerada a produtividade média para o híbrido de 45 toneladas por hectare. Então teremos:
5.000 animais x 10 kg/animal/dia x 90 dias = 4.500 toneladas de silagem

Muitos produtores param o cálculo por aqui, ou seja:
Área a ser plantada: 4.500 toneladas ÷ 45 toneladas = 100 hectares

Entretanto, antes de realizar esse cálculo, devemos considerar as perdas que ocorrem no processo de produção de silagem, as quais podem variar de 15 a 30% de MS. Por isso, devemos dividir a quantidade a ser consumida por 100%, mas subtraindo ainda o valor das perdas estimadas, que, no exemplo, são de 15%. Verifique a comparação no quadro a seguir:

3) Escolha do tipo e dimensionamento do silo
Entre as diversas opções de tipos de silo, no Brasil, os silos de superfície e o de trincheira estão entre os mais utilizados. O silo de superfície tem destaque devido ao baixo investimento, visto a ausência de construções e escavações, necessária no silo trincheira. Esse último requer maiores investimentos, porém, é considerado o silo que possibilita obtenção de silagem de melhor qualidade, principalmente pelo fato de as paredes realizarem pressão e, dessa forma, permitirem que a densidade da silagem seja elevada, chegando a valores próximos a 750 kg MV/m³.

Quando a opção pelo tipo de silo for a de superfície, algumas regras são de extrema importância, tanto para maximizar a compactação como também garantir a segurança dos operadores que estarão compactando a forragem. Recomenda-se dimensionar esse silo entre a base do silo e a altura na relação de 6:1, ou seja, a cada seis metros de base do silo poderá ter um metro de altura. Essa relação auxiliará na obtenção de boa compactação, pois os tratores são capazes de compactar tanto no sentido transversal como no longitudinal. Essa relação também permite que os tratores, durante a operação de compactação, não fiquem propensos ao tombamento, o que geralmente ocorre em casos em que o silo tem seus lados muito íngremes.

Com relação ao dimensionamento dos silos, dois pontos são fundamentais para serem respeitados: o avanço diário do painel e a largura mínima do silo. Para bom manejo no pós-abertura, o avanço diário deve ser, no mínimo, de 30 cm, isso permite reduzir a deterioração aeróbia da silagem e assim preservar a qualidade da mesma. Para pequenas propriedades, também é necessário definir a largura mínima. No caso de silo tipo trincheira, deve ser de 1,5 vezes a bitola do trator que fará a compactação. Respeitando essa regra, o trator que realizará a compactação terá a possibilidade de transitar por todo o silo e, assim, permitirá que a compactação seja maximizada.

No exemplo do confinamento anteriormente apresentado, a quantidade de forragem a ser ensilada é de 5.295 toneladas. Será assumido nesse caso o silo tipo trincheira com densidade média de 750 kg MV/m³. Para o silo tipo superfície, recomenda-se utilizar densidade média de 650 kg MV/m³. Como esse volume será fornecido durante 90 dias, a quantidade média diária de forragem será de 59 toneladas, o que gera um volume de retirada de 78,5 m³/dia (59 ton ÷ 0,75 ton/m³ densidade média do silo).

De posse do volume a ser retirado por dia e com o avanço mínimo a ser utilizado, é possível calcular a área do silo (definição da largura e altura). No exemplo, recomendaremos um avanço próximo a 1 m/dia, pelo fato de que se fosse utilizar um avanço de apenas 30 cm, os valores de altura e largura seriam muito elevados, inviabilizando esse tipo de silo. Assumindo o avanço de 1 m/dia, a área do painel do silo será de 78,5 m² (78,5 m³ ÷ 1 m de avanço). A sugestão é que a largura seja de 16 m, o que gera um silo com altura de 4,90 m (78,5 m² ÷ 16 m = 4,90 m). A definição da largura e da altura deve ser orientada de acordo com o bom senso, nesse caso, está sendo considerado um confinamento de médio porte, o que permite utilizar esse dimensionamento de silo.

4) Ponto de colheita
A definição do momento de colheita é parte obrigatória para obtenção de silagem de qualidade. Para o milho, por exemplo, a recomendação é que esse valor encontre-se entre 30 e 35% de MS. Uma avaliação que auxilia nessa verificação é a linha do leite do grão, em que a recomendação é que 2/3 da mesma esteja preenchida (aspecto farináceo) e 1/3 leitosa (base do grão). Esse ponto define concentração adequada de umidade e açúcares solúveis para que bactérias benéficas realizem a fermentação lática, maximizando a produção de ácido lático, o qual tem por finalidade fazer com que o pH da silagem chegue a valores abaixo de 4,0 em menor espaço de tempo possível.

Silagens muito úmidas permitem crescimento de outros microrganismos que não são benéficos para o processo de conservação, um exemplo de gênero de bactéria que se desenvolve em elevada umidade são os clostrídeos, bactérias produtoras de ácido butílico. Esse tipo de fermentação leva a grande elevação nas perdas de MS e também comumente se observa redução da ingestão voluntária por parte dos animais. Do outro lado, silagens muito secas, com teores de MS superiores aos 37%, também encontram dificuldades no momento da fermentação. Nesse estágio, os carboidratos solúveis presentes na planta estão com valores baixos e a sua falta impede que a fermentação seja duradoura o suficiente para que ocorra queda de pH. Outro grande fator que se soma é a dificuldade de obtenção de alta densidade, a planta mais seca faz um efeito “colchão”, não permitindo a acomodação das partículas.

5) Definição do tipo de inoculante
Dentre as bactérias láticas, encontram- se as homoláticas e heteroláticas. As primeiras produzem ácido lático, já as posteriores, além do ácido lático, produzem outros que podem ser estratégicos. Uma bactéria heterolática recomendada é o Lactobacillus buchneri e seu uso é para momentos em que se observe fermentação alcoólica, como é o caso da silagem de grão úmido e silagem de cana-de-açúcar, bem como para silagens que, no pós-abertura, estejam propensas à deterioração aeróbia. É muito frequente deparar-se com silagens quentes (38ºC). As leveduras e fungos oxidam os nutrientes e os convertem em calor, gás carbônico e água.

É muito comum encontrar silagens aquecidas por avanço de painel abaixo do recomendado (<30 cm/dia), como também silos descarregados por pá carregadeira.

Em um processo de ensilagem, perdas de até 23% são encontradas. O inoculante pode reduzi-las em até 10%, dependendo da bactéria escolhida. Com o produto, o pH da silagem chega a valores abaixo de 4,0 após 48 horas de fermentação, entretanto, esse fato não é suficiente para que a silagem esteja estabilizada e apta para abertura. Assim, a estabilização da silagem ocorre por volta de 20 a 30 dias após o fechamento do silo.

No caso do uso de Lactobacillus buchneri, recomenda-se a abertura do silo após 45 dias de fechamento. Sua finalidade é a produção de ácido acético e 1,2 – propanodiol, sendo que esses compostos têm seu grande pico de produção após 28 dias.

Na tabela 2, é apresentada uma simulação da redução de perdas e seu reflexo no valor da tonelada de silagem produzida com uso de diferentes tipos de inoculantes. No exemplo, foi considerado o valor da tonelada de matéria verde (MV) da silagem de R$ 95,00 e uma produtividade de 35 toneladas/ha, sendo o custo da inoculação para redução de 5% das perdas de R$ 2,50/tonelada (bactéria homolática) e para redução de 10% das perdas de R$ 6,00/tonelada (uso de bactérias homoláticas + Lactobacillus buchneri). Verifica-se que sem o uso do inoculante e perdas de 23% de MS, o valor da tonelada de silagem atinge R$ 123,38, com redução das perdas para 5% ou 10%, o valor da tonelada é de R$ 118,90 ou 116,09. Isso representa uma redução de R$ 4,48 e R$ 7,29, respectivamente, para cada tonelada de silagem produzida. No exemplo, para cada hectare colhido, é possível reduzir a perda de 1,75 toneladas ou 3,5 toneladas, para reduções de perdas de 5% ou 10%, respectivamente.

6) Enchimento e compactação
Como a velocidade de colheita aumenta com o uso das automotrizes, o produtor deve estar atento a essa quantidade de forragem que chegará ao silo. Em pequenas e médias propriedades, verifica-se o enchimento ao mesmo tempo de 2 ou mais silos para comportar a quantidade de forragem e não prejudicar a compactação. Vale ressaltar que a terceirização da colheita é benéfica ao processo, visto que as automotrizes têm elevada qualidade na picagem do material. Além disso, esses equipamentos possuem o cracker, dispositivo que realiza a quebra dos grãos.

Os cuidados com a compactação devem ser direcionados ao tempo em que o trator compacta a forragem e ao peso empregado nesse processo. A recomendação do tempo para a compactação é de 1 a 1,2 vezes o tempo de colheita. Além dessa variável, o peso do trator deve ser de 40% da quantidade de forragem que chega a cada hora no silo.

7) Vedação do silo
É muito comum observar silos com camadas deterioradas na sua porção superior no momento de abertura. Perdas que podem chegar a 35% de MS no primeiro metro do silo, sendo que a cada 1 cm de camada preta que se encontra no topo pode se estabelecer uma relação de 3 cm de perda de camada boa. Para um silo com 10 cm de camada preta, estima-se que o valor da perda por metro quadrado seja ao redor R$ 25,00.

Um dos grandes vilões para a ocorrência desse tipo de deterioração é a própria lona utilizada, que é constituída em polietileno, como já discutido anteriormente nessa seção. O mais indicado são os filmes de barreira de oxigênio, constituídos de etil vinil álcool. Outro fator que contribui para o aumento da camada deteriorada no topo do silo é o dano físico ocasionado por animais, aves e roedores. Mantas ajudam nessa questão e duram até oito anos.

8) Abertura do silo
Após ter passado por todas as etapas de produção, o momento final é o da abertura do silo e o fornecimento para os animais. Dentre as recomendações, destaca-se novamente o avanço mínimo diário de 30 cm, a retirada da silagem de forma que todo o painel seja removido diariamente e a necessidade de avaliação da temperatura da silagem.

*Rafael Amaral é zootecnista, mestre e eoutor em Ciência Animal pela Esalq/USP