Leite

 

90 DIAS VITAIS

Leonardo Dantas da Silva*

Os 90 dias vitais são definidos como o período de tempo de sessenta dias antes do parto (secagem das vacas) até trinta dias após o mesmo. Durante esse intervalo de tempo, várias alterações fisiológicas e metabólicas ocorrem na vaca; esses eventos são inter- -relacionados e em cascata, podendo influenciar tanto os resultados produtivos como os não produtivos. A transição bem sucedida, através dos 90 dias vitais, determinará o sucesso da vaca em passar bem pelas outras fases da lactação, quando sua contribuição para a rentabilidade global da fazenda é mais alta.

Todas as vacas passam por algum grau de imunossupressão durante as duas ou três semanas antes e depois do parto, bem como sofrem algum grau de déficit energético. As práticas adotadas pelos produtores durante os 90 dias vitais são tentativas diretas para gerenciar a função imunológica e o equilíbrio energético.

Há muitas práticas de gestão que os produtores e consultores utilizam para gerenciar e monitorar o balanço energético e a função imunológica, todas com o objetivo de ajudar a fêmea na transição bem sucedida para uma nova lactação.

A gestão e a formulação de dietas são componentes importantes na gestão do potencial de produção da vaca e do seu bem-estar. As práticas nutricionais devem enfatizar a maximização do acesso ao cocho e da comida pelas vacas e minimizar a variação do consumo dos alimentos. As vacinas são importantes medidas de controle de doenças que são dadas em momentos estratégicos em todo o período dos 90 dias vitais. Elas trabalham com o sistema imunológico adquirido para ajudar a prevenir doenças respiratórias e reprodutivas na próxima lactação. Programas de controle de mastite são implementados para evitar novas infecções e resolver aquelas existentes. Uso da terapia de vaca seca é um dos componentes que o National Mastites Council (NMC) recomenda nos programas de controle de mastite e tem sido eficaz na redução da incidência da mastite contagiosa.

Desafios imunológicos

O sistema imunológico é essencial para a vida, uma vez que protege os animais contra a invasão microbiana. A proteção contra a infecção depende das defesas não específicas e imediatas do sistema imune inato e das defesas mais lentas e específicas do sistema imune adquirido. Embora esses dois sistemas sejam frequentemente discutidos como respostas separadas e com características distintas, eles funcionam em sincronia e constantemente se comunicam um com o outro.

Quando há comprometimento do sistema imunológico, as vacas ficam mais suscetíveis a doenças. Alterações endócrinas e estresses fisiológicos do período de transição levam ao comprometimento da função imunológica. Quase todas as vacas leiteiras experimentam algum grau de imunossupressão durante as duas ou três semanas antes e após o parto. Tipicamente, essa supressão representa um declínio de 25-40% na função dos neutrófilos e linfócitos. A dieta devidamente formulada e entregue em ambiente limpo e decisões de manejo são importantes para restaurar a competência do sistema imunológico da vaca recém-parida o mais rápido possível após o parto.

Balanço energético

Vacas leiteiras passam por mudanças fisiológicas tremendas desde o final da gestação até o início da lactação. Após o parto, o aumento rápido da produção de leite aumenta a demanda por energia. Exigências de energia para lactação essencialmente duplicam “da noite para o dia”, a partir do parto. Esse déficit ocorre quando os requerimentos por energia não conseguem ser supridos pela energia consumida através da dieta.

Carboidratos são a principal fonte de energia para as bactérias ruminais em vacas. A fermentação de carboidratos dietéticos por micro-organismos no rúmen resulta na formação de ácidos graxos voláteis (AGVs), principalmente de acetato, propionato e butirato.

AGVs são absorvidos pela corrente sanguínea e deslocam-se para o fígado, onde o propionato é convertido em glicose por um processo chamado de gliconeogênese. O propionato é o mais importante AGV convertido em glicose, a principal fonte primária de energia utilizada por várias células do corpo da vaca, bem como na glândula mamária para a síntese de lactose. Há três principais mecanismos ou intervenções diretas para aumentar a gliconeogênese no fígado e, consequentemente, a quantidade de glicose disponível para as funções do corpo;

1. aumentar a disponibilidade de propionato (AGV) através da dieta;

2. usar as reservas corporais de glicose; e

3. alterar a população de bactérias ruminais produtoras de AGVs.

Quando uma vaca sofre um déficit de energia, ela vai mobilizar reservas corporais que podem levar a uma diminuição da condição corporal. Se ela mobilizar economias em excesso, isso pode acarretar em elevado nível de corpos cetônicos no sangue, o que pode predispor a vaca à cetose, deslocamento de abomaso e exacerbar a imunossupressão nesse período. Períodos prolongados de balanço energético negativo também podem levar à disfunção ovariana e ao desempenho reprodutivo reduzido.

Monitoramento

Durante o período pré e pós-parto imediato, as vacas apresentam alto risco de desenvolverem distúrbios metabólicos e doenças infecciosas devido ao imunocomprometimento e às altas demandas da lactação. A maior parte das fazendas tem algum tipo de programa de monitoramento que permite identificar rapidamente as vacas doentes, que podem se beneficiar de terapia e/ou tratamento de suporte.

Gráfico 1- O impacto e as consequências do balanço energético negativo e da imunossupressão

No entanto, a forma exata desses programas é altamente variável. Algumas fazendas desenvolveram métodos intensivos bem concebidos, com monitoramento da temperatura retal e avaliação clínica diária de todas as vacas do parto até dez dias em lactação. Em outras fazendas, o programa de triagem consiste no monitoramento ocasional que depende da identificação de animais que estejam claramente diferentes. Por exemplo, algumas fazendas podem examinar os animais somente durante o processo de ordenha e mais cuidadosamente as vacas que apresentarem depressão significativa da produção de leite.

Outras podem depender da detecção de padrões alterados de atividade (7) ou consumo. Os componentes exatos de um programa de monitoramento e tratamento de vacas paridas variam muito entre fazendas de acordo com a tolerância ao risco do gerente, habilidade dos funcionários para identificar vacas doentes, incidência de enfermidades específicas no pós-parto e equipamentos disponíveis.

O monitoramento contínuo para a identificação precoce e precisa de doenças é importante para o bem-estar animal e ao sucesso terapêutico. O registro de dados exatos e os tratamentos com medicamentos apropriados são necessários para diminuir os impactos negativos dos distúrbios da transição.

As doenças desse período nunca acontecem de forma isolada. Além do impacto econômico, tais problemas podem gerar um grande desgaste emocional em uma fazenda. Cuidar de vacas adoentadas é desanimador para funcionários, frustrante para produtores e veterinários e estressante para todos os envolvidos, principalmente na hora de tomar decisões difíceis, como o descarte involuntário de animais. As ações tomadas para prevenir e tratar doenças durante os 90 dias vitais resultarão em uma lactação de maior sucesso. Olhe além do período de transição tradicional, foque em gerenciar os 90 dias vitais – quando múltiplas transições ocorrem.

*Leonardo Dantas é consultor técnico de Negócios da Elanco Gado de Leite. Consulte as referências bibliográficas com o autor


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