Feno & Silagem

 

MANDIOCA

Parte aérea da planta pode ser utilizada na preparação de feno ou silagem

José Renato Alves*, Adriano Noleto Pinto**, Eliakim da Rocha Maiobo***, Luciano Rodrigues**** e Rosiel Costa Santos*****

Um dos principais alimentos utilizados na formulação de concentrados é o milho. Porém, apesar de sua boa qualidade, muitas pesquisas são realizadas com o objetivo de estudar alternativas para sua substituição em dietas para gado leiteiro.

Além de grãos de cereais, vários subprodutos, como farelo de arroz, farelo de trigo e raspa de mandioca, são utilizados com relativo sucesso, diminuindo o uso do milho na composição do concentrado. Nesse sentido, destaca-se a cultura da mandioca (Manihot esculenta Crantz.), tradicionalmente cultivada em países de clima tropical. Embora muito conhecida, o uso na alimentação animal tem sido pouco explorado, o que pode ser atribuído, especialmente, por desconhecimento do valor nutricional.

A mandioca é cultivada em todas as regiões do Brasil, desempenhado papel relevante na alimentação e nutrição humana e animal. Esse tubérculo gera uma série de produtos para uso humano, além de produzir subprodutos industriais da extração da casca, farinha de varredura, massa de fecularia ou bagaço, manipueira e vinhaça, que podem se tornar contaminantes ambientais se não houver uma destinação adequada.

As pesquisas com mandioca e subprodutos podem ser uma boa alternativa de substituto do milho, em função da facilidade de cultivo e da expressiva produção.

Cultivo

A mandioca é dividida em dois grandes grupos: um destinado à produção de produtos secos que exigem sistemas de processamento mais complexos (farinha de mandioca e outras farinhas, fécula, beijus, etc.) e outro destinado ao consumo via úmida, cujo processamento se dá no ambiente doméstico (cozida, frita, moqueada, etc.).

O primeiro grupo é chamado em linguagem técnica de mandioca para indústria e em linguagem popular, simplesmente mandioca. É produzida em sistemas tipicamente agrícolas, em áreas relativamente grandes, em qualquer tipo de solo, ou seja, a quantidade se sobrepõe à qualidade.

O segundo grupo é chamado em linguagem técnica de mandioca para mesa, mas há várias denominações regionais: aipim (Região Sul), macaxeira (Nordeste) ou simplesmente mandioca. São produzidas em sistemas hortícolas, pequenas áreas com o mínimo de estresses bióticos e abióticos, para se obter a melhor qualidade organoléptica, ou seja, a qualidade se sobrepõe à quantidade.

A mandioca é um produto de ampla versatilidade quanto às possibilidades de uso como fonte de alimento para animais ruminantes e monogástricos, além de apresentar características agronômicas que permitem sua exploração não só em condições de alta tecnologia, como em áreas marginais. A mandioca tem se mostrado rústica e de fácil cultivo. De acordo com a tecnologia empregada, a cultivar e os aspectos edafoclimáticos, pode-se obter de dez a 30 t/ ha de raízes e de oito a 30 t/ha de parte aérea (rama).

Análises indicam que silagem substitui o milho, desde que seja utilizada suplementação

Quanto ao plantio, geralmente, é uma operação manual, podendo ser feito em covas preparadas com enxada ou em sulcos construídos com enxada, sulcador à tração animal ou mecanizados. Tanto as covas como os sulcos devem ter espaçamentos de 1 m entre linhas x 0,50 m entre plantas e 1 m entre linhas x 0,60 m entre plantas. Deve-se aumentar a distância entre fileiras simples para 1,20 m em solos mais férteis. Em fileiras duplas, recomendam-se espaçamentos de 2 x 0,60 x 0,60m, com aproximadamente 10 cm de profundidade.

O primeiro corte da parte aérea deve ser feito a partir do 8º mês pós-plantio e, a partir do segundo corte, deve ser feito a cada quatro meses após a rebrota. A mesma pode ser explorada por até seis cortes em um ano e meio.

Parte aérea

A mandioca fornece folhas e caule também denominados por subprodutos da parte aérea e subprodutos industriais (casca de mandioca, farinha de varredura e massa de fecularia ou bagaço) que podem ser fontes alternativas de energia para ruminantes.

Os subprodutos da industrialização da mandioca são partes constituintes da própria planta, gerados em função do processo tecnológico adotado. Esses subprodutos assemelham-se às raízes em termos de composição química, por apresentarem elevados teores de carboidratos não estruturais. Tanto a qualidade quanto a quantidade dos subprodutos podem variar muito, em função de uma série de fatores, tais como o cultivar, a idade da planta, o tempo após a colheita, o tipo e a regulagem do equipamento industrial.

Logo após o corte, a rama deve ser picada em desintegrador de forragem e devidamente compactada

As ramas e as folhas possuem alto valor nutritivo (proteína, açúcares, vitaminas e minerais), além de excelente aceitabilidade pelos animais. Considerando que apenas 20% do total de ramas são aproveitados para o replantio da mesma área, restam no campo 80% de um produto de grande valor nutricional que não deve ser desperdiçado. Para que se obtenha boa eficiência alimentar da parte aérea, é necessária uma boa formulação da ração. Deve- -se usar uma boa fonte de energia como o milho, o sorgo e evidentemente a própria raiz da mandioca.

Tratando-se de mandioca-brava, aconselha-se picá-la e fazer a murcha por um período de 24 horas e misturá-la com 50% de outros volumosos

O fornecimento da parte aérea fresca aos animais é simples, bastando picá-la e colocá-la nos cochos. Em se tratando de mandioca-brava, aconselha-se picá-la e fazer a murcha por um período de 24 horas e misturá-la com 50% de outros volumosos, quando destinada a ruminantes, e com 80% de concentrado, quando para monogástricos. A parte aérea da mandioca- mansa não oferece perigo de toxidez.

Feno da parte aérea

O processo de produção do feno consiste, em linhas gerais, na trituração em pequenos pedaços, de até 2 cm, logo após a colheita das ramas, usando-se uma picadeira de forragem para acelerar o processo de secagem e facilitar o armazenamento, a conservação e o uso no preparo de rações.

Depois de triturado, o material é exposto ao sol ou colocado em estufa, em camadas uniformes em uma área cimentada, lona plástica ou bandejas com fundo de tela, proporcionando uma densidade de até 15 kg/m², com o objetivo de reduzir o teor de umidade, de 65% a 80% existente nas ramas, para 10 a 14% no feno. Os mesmos autores afirmaram que, para acelerar o processo, o material deve ser revolvido no sentido do maior comprimento, a cada trinta minutos, permitindo uma secagem mais uniforme e rápida. A depender da insolação, ao final de quatro horas o material está em condições de ser armazenado.

A taxa de eficiência na produção de feno da parte aérea da mandioca situa-se entre 20-30%, isto é, para cada 1.000 kg de ramas são produzidos de 200-300 kg de feno, dependendo da variedade, idade da planta, umidade inicial, densidade e condições climáticas.

O armazenamento do feno pode ser feito em sacos de aniagem ou ráfia, tendo- -se o cuidado de colocá-los em local com boa ventilação, baixa umidade relativa do ar e protegido da chuva. Para evitar fermentações indesejáveis e consequente deterioração do produto, o material armazenado não deve apresentar umidade superior a 14%.

Ensilagem da parte aérea

A silagem é um método de conservação de forragem que há muito tempo vem sendo proposto no Brasil devido à sazonalidade de produção de forrageiras ao longo do ano, levando períodos de grandes produções seguidos de estiagem.

O processo de ensilagem apresenta problemas, mas comparado ao processo de fenação tem algumas vantagens, como a menor dependência dos fatores climáticos, além de evitar a excessiva perda de folhas.

Logo após o corte, a rama deve ser picada em desintegrador de forragem e devidamente compactada. Embora a ensilagem da parte aérea da mandioca sem picar também seja viável, desde que se use trator pesado para obter alta densidade, é preferível sempre picar o material, em partículas de 1 a 2,5 cm. Esse procedimento possibilita uma melhor compactação com aumento da densidade e consequente redução da porosidade da silagem. Assim, haverá melhor qualidade de fermentação e maior estabilidade da silagem durante a utilização.

Uma boa compactação deve proporcionar em torno de 600 kg/m3 de silagem. Normalmente, silos tipo trincheira revestidos proporcionam melhores condições de compactação e perdas insignificantes, embora a silagem de rama de mandioca também possa ser feita em silos de superfície, desde que adequadamente manejados.

Modesto et al. (2009) avaliaram a substituição da silagem de milho pela silagem do terço superior da rama de mandioca nos níveis de 20%, 40% e 60% e não observaram diferenças no consumo de MS (2,63% do peso vivo), FDN (0,8 do peso vivo), PB (2,35 kg/dia) e digestibilidade.

Na avaliação da viabilidade econômica da substituição da silagem de milho pela silagem do terço superior da rama de mandioca, nos níveis de 0, 20, 40 e 60%, observou-se que a substituição de 60% foi a que melhor apresentou retorno econômico, tendo maior custo-benefício.

Redução de custos

A mandioca e seus subprodutos da parte aérea apresentam ampla versatilidade quanto às formas de utilização na alimentação do gado leiteiro e representam uma alternativa para substituição de ingredientes de alto custo tradicionalmente utilizados em sistema de produção de leite.

Para que as dietas baseadas em subprodutos da parte aérea da mandioca permitam bom desempenho dos animais, deve-se estar atento à correção das deficiências nutricionais desses alimentos.

Porém, a utilização da mandioca e seus subprodutos da parte aérea como substitutos dos alimentos tradicionalmente utilizados na alimentação dos ruminantes visa à redução nos custos com a criação.

*José Renato é zootecnista, mestre em Produção de Ruminantes e especialista em Bovinos de Leite e Manejo de Pastagem **Adriano Noleto é estudante de Zootecnia ***Eliakim Rocha é graduando de Medicina Veterinária ****Luciano Rodrigues é estudante de Agronomia *****Rosiel Costa é estudante de Agronomia


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