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PREÇOS LÁ EM CIMA

Alta demanda movimenta as negociações nas fazendas e nos leilões no Brasil

Erick Henrique erick@revistaag.com.br

Associações de raças e pecuaristas de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, São Paulo e Rio Grande do Sul estão otimistas pelo atual momento de efervescência comercial dos reprodutores, graças à valorização desses animais em até 30%, em comparação ao último ano.

O motivo é a demanda aquecida com a proximidade da estação de monta, refletindo nos valores negociados nos leilões e nas vendas diretas na fazenda. Segundo o fundador e diretor da Estância Bahia Leilões, Maurício Tonhá, em 2015, está havendo uma recomposição dos plantéis de cria, após um período de forte abate de fêmeas, o que aumentou a necessidade por touros.

De acordo com Tonhá, houve um incremento de mais de 20% dos valores praticados em 2015, na comparação com 2014, nos remates organizados pela leiloeira no Mato Grosso. “A atividade de pecuária de cria voltou a remunerar bem o produtor. Em consequência, há uma predisposição natural em qualificar o plantel, investindo em melhoramento genético, nutrição, manejo, etc.”, analisa Tonhá.

Na análise do consultor técnico da Associação dos Criadores do Mato Grosso (Acrimat), Amado de Oliveira, os criadores observaram uma oportunidade na retenção de fêmeas, em virtude dos bons preços pagos pelo bezerro, por isso, o setor está comprometido em ampliar a oferta, mirando sempre esse produto valorizado.

Para Oliveira, a precificação mais alta dos touros, responsáveis por mais da metade do potencial genético de um rebanho, é vista com normalidade, uma vez que um produto valoriza-se apenas quando a demanda está aquecida, momento vivido atualmente, com o preço do bezerro nas alturas.

Na estimativa da Associação Sul-mato- -grossense de Criadores de Nelore (Nelore MS), os preços pagos aos touros Puros de Origem (PO) ultrapassam os 30% no estado, em relação ao mesmo período do ano passado. “Verificamos que a falta de fêmeas e de bezerros puxa o preço dos touros para cima e o animal de 30 meses que comprávamos por cerca de R$ 11 mil custa, hoje, R$ 14 mil”, diz o diretor da entidade, José Pedro Budib.

Proprietário da Fazenda Campo Triste, no município de Três Lagoas/MS, Gilson Katayama avalia que a comercialização de touros mantém-se muito firme desde o ano passado, em suas negociações no Estado. “A demanda por reprodutores que normalmente é fraca no período de dezembro até março esteve muito firme, com vendas nas fazendas, leilões e acréscimo de 30% ante 2014”, comemora o pecuarista.

“Muita gente voltou a fazer cria porque os preços dos bezerros estão satisfatórios, causando retenção de matrizes. Retendo essas matrizes, o pecuarista precisa produzir mais bezerros, consequentemente, tem de comprar mais touros”, explica o criador Gilson Katayama.

Quem compartilha dessa visão é o técnico da Associação de Criadores de Zebu (ABCZ), Fábio Ferreira, que entende que nesse momento segurar as matrizes e investir em touros é uma estratégia sábia.

“O mercado de cria mantém-se firme, mas com oferta restrita. Com isso, os pecuaristas precisam aumentar o número de matrizes e investir em reprodutores de genética comprovada, chegando a 30 ou 40% mais em comparação ao valor pago em 2014”, conclui Ferreira.

Os geneticistas aconselham que todos os anos 20% dos reprodutores sejam retirados dos pastos e substituídos por novos animais. Ademais, a cada cinco anos haveria uma troca completa da genética utilizada na propriedade.

Segurança

Mesmo com o mercado aquecido, antes da compra, é imprescindível que o pecuarista conheça os procedimentos de manejo e o local da propriedade do fornecedor com o qual está negociando, para não correr o risco de adquirir um animal que se mostre ineficiente em outros pastos.

“Considerando o tamanho do rebanho bovino mato-grossense, grandes também são as possibilidades de negociação de gado em todos os segmentos da pecuária. Todavia, é sempre importante que o comprador conheça a tradição do criador de touros, porque, dessa maneira, saberá o padrão genético que está adquirindo”, reforça o consultor da Acrimat.

“Eu vendi esses touros jovens por causa do nosso investimento em precocidade na fazenda’’, explica Pereira Júnior

Na opinião de Tonhá, cada criador precisa saber exatamente que tipo de animal precisa para utilizar no rebanho e acertar na compra. “Não existe mais espaço para amadores nem na produção de touros nem na pecuária de Corte”.

A procura está tão grande que o criador de Crixás/GO e presidente da Associação Goiana de Criadores de Zebu (AGCZ), Clarismino Pereira Júnior, teve de entregar dez touros bastante jovens em virtude da preocupação dos clientes em não terem exemplares qualificados para cobrir a vacada na estação de monta. Prática atípica, segundo ele, porque geralmente comercializa os animais aos 24 meses.

“Eu vendi esses touros ainda jovens, por causa do alto investimento em precocidade na fazenda e pelo fato de esses animais estabelecerem ótimos índices andrológicos. Apresentaram musculatura e estrutura óssea bem definidas”, esclarece o dirigente da associação.

Pereira Júnior observa certa tendência em Goiás pela procura de reprodutores jovens. “O selecionador que não se preocupa em buscar precocidade e só trabalha com características visuais, raciais e estéticas, por sua vez, venderá o plantel em média com três anos ou mais. É essa mudança de comportamento que estamos presenciando no Estado”, disse.

“A compra de touros ainda jovens, se conhecida a origem, não oferece muitos problemas. No entanto, deve-se observar o desempenho e as condições corpóreas desses produtos em serviço e se estão com os exames andrológicos em dia. Por outro lado, exige manejo adequado, quando colocado em serviço precocemente”, diz o técnico da Acrimat.

Se depender dos primeiros remates de primavera, os preços seguem firmes para reprodutores no Sul

Segundo Oliveira, deve-se evitar a convivência entre animais jovens e mais erados, em função do fator de dominância. Se houver disputa entre os touros, os mais novos são prejudicados. Outra observação importante é investigar onde e como esse gado foi criado. Para o acasalamento a pasto, é fundamental que esses reprodutores tenham sido criados na mesma condição.


“Se estão comercializando produtos tão jovens é porque tem alguém disposto a comprar. Mas, na minha concepção, vender touro com apenas 19 meses de idade é muito arriscado, porque eles ainda estão em formação. Acredito que o ideal é a partir dos 24 meses de idade. Contudo, essa prática vai ao encontro da confiança de quem está ofertando em trazer garantias sobre esses animais”, ressalta Katayama.


No pregão

Em setembro, definitivamente a demanda por touros dispara, não apenas no Centro-Oeste, mas também no restante do Brasil. As leiloeiras projetam que mais de 60% das vendas ocorram no bimestre de setembro/outubro e vão arrefecendo até o fim de novembro.

“Promovemos em Goiânia/GO a quinta edição da Goiás Genética, onde foram comercializados, no dia 12 de setembro, 60 touros com idade entre 22 e 24 meses, avaliados pelo Teste de Desempenho de Touros Jovens (TDTJ) da safra 2014/2015”, informa Pereira Júnior. Esse projeto é uma parceria de 21 anos entre a associação e a Embrapa Cerrados, sendo realizado na fazenda da Embrapa Arroz e Feijão, na cidade de Santo Antônio de Goiás.

Durante todo o teste, os animais são mantidos em pastagens renovadas por sistema de integração lavoura-pecuária (ILP), sendo apenas mineralizados por faixa etária e época do ano. Após a prova de ganho de peso, os animais selecionados são preparados e ofertados.

Segundo Pereira Júnior, para participar do TDJD, o selecionador precisa estar integrado a algum programa de avaliação chancelado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Dados da AGCZ assinalam a procura por touros da raça Guzerá com relativa preponderância. Entretanto, a segunda raça zebuína mais comercializada em Goiás depois do Nelore é o Tabapuã. “O estado é um grande polo produtor de Tabapuã, só atrás de São Paulo, graças ao expressivo número de criadores do zebuíno que difundem o Tabanel, pois proporciona uma heterose muito interessante”, observa o presidente.

Durante a exposição goiana foram expostos cerca de 200 animais das raças Nelore e Tabapuã oriundos de Goiás, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Tocantins. Além disso, a qualidade do material genético apresentado fez com que seis touros fossem contratados por centrais de sêmen do País.

Katayama, que possui fazenda também no interior paulista, no município de Guararapes, colocou à venda 411 touros Nelore, adquiridos pelo preço médio de R$ 10.117,96, com faturamento de R$ 4.158.480.

Primavera gaúcha

Um forte indicador de preços dos touros no Sul do País é a temporada de vendas da primavera gaúcha, e os dois leilões que abriram a estação mostraram que os ventos são bons para a venda de reprodutores.

O remate Selo Racial, em 25 de setembro, atingiu médias de R$ 10,41 mil nos touros Braford, R$ 9,63 mil nos Angus e R$ 8,16 mil nos Hereford, com a promoção das cabanhas Cia. Azul, Corticeira, Rincon Del Sarandy e Tradição Azul, alcançando um faturamento de R$ 3,15 milhões.

Considerado um dos leilões que colaboram para balizar os preços, em 27 de setembro, o Leilão da GAP Genética faturou R$ 6,7 milhões, sendo R$ 5,68 milhões na venda de 730 lotes de bovinos das raças Angus, Brangus, Hereford e Braford, além de R$ 1,01 milhão com outras espécies animais.

“Mais uma vez a GAP mostra que as vendas do seus remate anual vão balizar os preços para o restante da temporada. Além disso, o bom momento vivido pela pecuária faz com que haja uma sinalização de alta no período”, resume Marcelo Silva, leiloeiro e diretor da Trajano Silva Remates, organizadora do evento.

As médias registradas por raça tiveram o Brangus como grande destaque nas vendas dos reprodutores, com média de R$ 13,63 mil; seguido da raça Angus, com R$ 11,59 mil; Braford, com R$ 11,15 mil; e Hereford, com R$ 9,67 mil. Silva projeta que a temporada termine com média de R$ 10 mil para a categoria.