Entrevista do Mês

 

Barato que sai caro

Fungos, doenças, pragas e plantas daninhas, além da baixa produção. A esses riscos submetem-se os pecuaristas que compram semente forrageira pirata. Será que é uma “economia” que compensa? Para responder a questão, convidamos José Américo Pierre Rodrigues, presidente da Associação Brasileira de Sementes e Mudas (Abrasem).

Adilson Rodrigues adilson@revistaag.com.br

Revista AG - A pirataria ainda é o maior gargalo do mercado de sementes? Hoje, quanto do mercado é perdido para a ilegalidade?

José Américo - É verdade. Consideramos a pirataria uma grande ameaça à saúde da indústria de sementes brasileira. Estimamos que, aproximadamente, 30% das sementes no Brasil sejam piratas.

Revista AG - Ainda nesse contexto, o calcanhar de Aquiles do setor seria a impossibilidade de fiscalização?

José Américo - A questão não é tão simples. É verdade que a fiscalização, em um País continental como o Brasil, é um desafio. Nós não esperamos que o Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), com os poucos recursos que possui, venha a vigiar todo um País. O que esperamos são ações planejadas, inteligentes e focadas na informalidade. Dessa forma, acreditamos que a fiscalização será mais eficiente, cumprindo o papel de órgão regulador do setor. Além disso, procuramos, como setor privado, desenvolver ações de investigação, gerando provas que evoluirão para denúncias junto ao Mapa e/ou ações judiciais diretas das empresas obtentoras contra os piratas. Também desenvolvemos ações de informação e educação, em mais de 2.000 dias de campo e palestras técnicas, com a distribuição de material com orientações, etc.

Revista AG - No mercado de sementes forrageiras, o problema é ainda maior?

José Américo - A pirataria em espécies forrageiras pode gerar consequências graves ao setor, uma vez que 99% da colheita de forrageiras são realizados por varredura, o que pode ocasionar a disseminação de fungos, nematoides e sementes de plantas daninhas. Isso pode representar grande risco fitossanitário para o País, já que as sementes piratas são provenientes de campos irregulares que podem conter uma série de pragas e doenças. A cultura forrageira, por ser uma cultura perene, representa um grande potencial à pirataria a todo momento, seja via comercialização com pureza fora do padrão ou por enxertos, entre outros.

Revista AG - Qual seria o “mapa” da ilegalidade no Brasil? Há regiões onde o problema é mais crítico?

José Américo - O Norte é a região brasileira que mais sofre com esse problema, principalmente os estados do Pará, Maranhão, Piauí e Rondônia.

Revista AG - Apenas o preço mais em conta é a isca que seduz os produtores a caírem em golpes ou teria algo mais nessa história?

José Américo - São uma série de fatores. Existem golpes, de quem vende produtos de péssima qualidade, prometendo o que não podem cumprir. Existem, também, aqueles que têm a falsa ilusão de que estão economizando, quando compram um grão pirata para utilizar como semente. Da mesma forma, a falta de informação técnica, consequência do distanciamento das empresas que produzem sementes de qualidade, por parte do produtor, é um fator determinante. Notamos que os pecuaristas que mantêm uma relação mais próxima com os fornecedores são mais bem informados sobre os avanços da pesquisa e, por consequência, sobre os materiais de qualidade disponibilizados ao mercado.

Revista AG - Além do perigo da ineficácia do produto, quais os riscos impostos a quem compra o produto ilegal?

José Américo – Semente pirata é o chamado barato que sai caro, pois no campo não terá o mesmo desempenho de um produto certificado. Ao adquirir sementes piratas, o consumidor não terá uma garantia de qualidade, não podendo, em caso de problemas, reclamar os direitos legais. A pirataria representa, de maneira geral, um risco fitossanitário ao setor. Um exemplo seria a disseminação de sementes de espécies nocivas proibidas. Além disso, a questão da sonegação de impostos também é importante.

Revista AG - E como seria a comparação entre os índices de germinação de uma semente idônea e os de uma semente pirata? José Américo – De maneira geral, a semente de forrageira apresenta patamares de qualidade fisiológica elevados. Dessa forma, não existe grande distinção entre os níveis de germinação de sementes certificadas e piratas. A grande diferença está na pureza física, muito abaixo neste último grupo.

Revista AG – Mas como distinguir a semente forrageira falsificada de um produto original?

José Américo – As sementes em si são muito parecidas. O consumidor já poderá desconfiar se uma semente de forrageira é pirata se o preço de venda estiver muito abaixo do padrão. O consumidor também poderá identificar uma semente pirata pela embalagem irregular e a ausência de um selo de qualidade. Além disso, é preciso solicitar os documentos de autorização para comercialização pelo vendedor e os certificados de origem do produto que está sendo adquirido. Uma dica é sempre comprar sementes de empresas tradicionais, idôneas e legalmente estabelecidas.

Revista AG - E no caso das sementes incrustadas, quais seriam as dicas?

José Américo – Apenas por meio da visualização das sementes seria difícil diferenciar. Mas o consumidor deve, sempre, optar por sementes em que o processo de incrustação esteja em boas condições.

Revista AG - Quais seriam as sementes de cultivares forrageiras mais pirateadas?

José Américo – De acordo com o levantamento de denúncias da Abrasem, a cultivar mais pirateada tem sido a BRS Piatã (Brachiaria brizantha), da Embrapa.

Revista AG - O que deve fazer o produtor que foi enganado? Quais os canais para denunciar?

José Américo – Identificado um caso de pirataria, a alternativa seria enviar uma denúncia para que o Ministério da Agricultura possa realizar a fiscalização e tomar as devidas providências, seja a autuação ou a suspensão da comercialização do produto irregular. No site da Abrasem temos disponível um sistema de denúncias online, totalmente anônimo. Um outro caminho seria realizar a denúncia diretamente à Ouvidoria do Mapa.

Revista AG - Algumas frentes defendem que as sementes forrageiras não deveriam mais ter grau de pureza mínimo, informando apenas o nível que a semente possui. Essa proposta seria positiva ou negativa ao mercado?

José Américo – Esse tema está sendo discutido no âmbito do comitê de forrageiras da Abrasem, foro no qual estão representados todos os estados produtores de forrageiras do Brasil. Estamos buscando um consenso com relação a essa questão, no sentido de que toda a cadeia esteja confortável. A grande limitação ainda está relacionada às dificuldades para fiscalização.

Revista AG - Mas, mesmo se a embalagem informasse que o grau de pureza e germinação fosse de 10 ou 20% seria possível confiar ou apenas repetiríamos a mesma situação?

José Américo – Se não for viabilizada a fiscalização, a situação permanece a mesma. E pelas informações que recebemos, já existem grupos organizados e em regiões específicas.

Revista AG - Quais iniciativas a Abrasem têm desenvolvido para coibir a pirataria? O anuário de sementes seria uma delas?

José Américo – O anuário é um instrumento importante, pois leva informações ao produtor, por meio de matérias técnicas. Possuímos, ainda, a possibilidade de efetuar denúncias anônimas por intermédio do site www.abrasem.com. br. Essas denúncias serão encaminhadas ao Mapa para que sejam tomadas as devidas providências junto às Superintendências do Ministério nos estados. Além disso, a Abrasem e a nossa Associada Braspov (Associação Brasileira dos Obtentores Vegetais) desenvolvem ações de investigação a campo que geram provas para processos judiciais contra piratas em todas as regiões produtoras do País.

Revista AG - Na questão de tecnologia, as sementes forrageiras tropicais existentes no Brasil são o que há de mais moderno no mundo?

José Américo – Sim, hoje em dia trabalhamos com materiais de altíssima tecnologia, bastante modernos, de alto nível, disponibilizando ao produtor sementes de qualidade.

Revista AG - Seria possível listar alguns lançamentos desse segmento programados para o curto prazo ou que esteja em estudo?


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