Caprinovinocultura

 

Trabalho pela preservação

Pesquisadores buscam iniciativas para multiplicar caprinos Marota e afastar os riscos de extinção da raça

Um trabalho de pesquisa pretende buscar maneiras de expandir o rebanho de caprinos da raça Marota que existe no Brasil. A intenção é afastar definitivamente o risco de extinção desses animais, que estão na lista de ameaçados, segundo relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Recentemente, uma boa notícia trouxe um alento sobre a raça. Em sua tese de doutorado defendida na Universidade Federal do Piauí (UFPI), a bióloga Jeane de Oliveira Moura constatou que é possível desviar o risco no curto e médio prazos. A conclusão foi possível depois da análise do material biológico do plantel da Embrapa Meio-Norte, em Teresina/PI. O rebanho preservado pela pesquisa é de 100 matrizes e 25 machos. “Há mais de 20 anos mantemos este material genético em um esforço para não perder a diversidade”, explica a zootecnista Adriana Mello de Araújo, pesquisadora da unidade.

Com fazenda no Piauí, produtor José Ferreira Dantas Filho mantém rebanho de diferentes raças caprinas, incluindo a Marota

A pluralidade genética encontrada no plantel é suficiente para multiplicar com segurança a população da raça. É essa variedade que vai evitar as perdas ocasionadas pela endogamia, ou seja, pela reprodução entre indivíduos de parentesco próximo. Entre as consequências dessa relação estão a menor capacidade de reprodução e a maior probabilidade do surgimento de doenças genéticas. Já a extinção de uma raça representa perdas irreparáveis para a biodiversidade, para a pecuária e para a alimentação.

Ainda que a heterogeneidade encontrada traga uma novidade positiva, os desafios são grandes para fazer com que esse trabalho transite da pesquisa para os sistemas produtivos. Orientadora da bióloga Jeane em seu trabalho de doutorado, Adriana diz que é necessário atrair produtores dispostos a participarem do esforço pela conservação. “Precisamos de rebanhos puros para conduzir essa multiplicação”, observa. Segundo ela, se houver interesse de produtores, aumentam as chances de a pesquisa conquistar recursos de financiamentos públicos para custear o projeto. “Enquanto esse material estiver apenas conosco, os riscos de extinção ainda existirão”, acrescenta.

Caprino nativo do Nordeste brasileiro, a raça Marota é rústica e resiste bem às características típicas da região, como a falta de chuva

Resistência

Para que uma raça de mamíferos fique de fora da lista de animais ameaçados de extinção, é necessário que sejam contabilizados pelo menos 1 mil indivíduos puros. Número que, de acordo com a pesquisadora, está distante de ser alcançado no caso dos caprinos Marota. “Hoje é difícil mensurar quantos criadores e quantos exemplares existem no Brasil porque a raça não é registrada e há muitos animais que são meio-sangue”, informa Adriana.

Alguns criadores tradicionais do Nordeste são parceiros da Embrapa e também trabalham para a manutenção e multiplicação da raça. Um deles é Manelito Dantas, que na propriedade na Paraíba mantém um núcleo de conservação com animais de 16 raças nativas, com destaque para a Marota. Outro produtor é José Ferreira Dantas Filho, que tem fazenda no Piauí, onde cria diversas raças de caprinos, em um rebanho total em torno de 700 animais. Também no Piauí, está em formação um núcleo de preservação de pequenos animais nativos ameaçados de extinção. O trabalho está em desenvolvimento na Escola Família Agrícola Santa Ângela, no município de Pedro II. A escola oferece o curso de técnico em agropecuária, agroindústria e turismo rural no ensino médio.

Com atuação nacional, a Embrapa mantém o projeto Rede de Recursos Genéticos Animais, em parceria com a Universidade de Brasília e órgãos estaduais de pesquisa. A iniciativa preserva animais em núcleos de criação e em um banco genético onde estão armazenadas doses de sêmen e embriões de diferentes espécies.

Segundo dados do IBGE, o rebanho de caprinos no Brasil é estimado em 8,64 milhões de exemplares, sendo que mais de 90% do total estão concentrados nos estados do Nordeste. “O caprino é um símbolo do Nordeste, região onde a pecuária sofre pela falta de chuva. São animais resistentes, que sobrevivem em ambientes onde outras espécies muitas vezes não conseguem permanecer”, declara Adriana.

Voltada para a produção de carne, a raça Marota é rústica e, por ser de pequeno porte, tem menos exigências alimentares. Também por ser nativo é um animal que sente menos problemas sanitários como a verminose. “Além da importância econômica para comunidades locais e pequenos criadores, a preservação da raça é fundamental em um cenário de mudanças climáticas e de recursos naturais limitados, onde a segurança alimentar da população é prioridade”, ressalta a pesquisadora.


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