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LAGARTAS: o que fazer

Athos Bonifácio Marinho* e Marcos Henrique Teixeira Júnior**

O produtor rural constantemente encontra entraves que oneram a produção. Há um leque de “problemões” enfrentados com frequência, como veranicos, geadas e temporais, altos preços de insumos, baixos preços do produto, dentre outros. Contudo, há um “probleminha” chamado pragas, mais precisamente as lagartas desfolhadoras, dada a forma com que essas pequenas criaturas invadiram muitas regiões do Brasil, contribuindo para degradar ainda mais as já tão consumidas pastagens brasileiras.

Na maioria das propriedades, especialmente as de produção leiteira, o produtor aguarda ansioso o início do período chuvoso para novamente contemplar o capim se renovando e, então, soltar os animais no pasto. No entanto, neste ano, com a rebrota do capim, surgiram lagartas em várias regiões. Elas já causaram tanto estrago que em algumas áreas deixaram apenas o talo da gramínea, tendo consumido vorazmente todo o limbo foliar.

Por várias regiões do estado de Goiás, consultores do Programa Goiás Mais leite/ Metodologia Balde Cheio, depararam-se com duas espécies consumindo áreas de Mombaça (Panicum maximum), Braquiarão (Brachiaria brizantha CV. Marandu) e grama Giggs (Cynodon dactylon). São elas a curuquerê-dos-capinzais (Mocis latipes) e a lagarta-militar (Spodoptera frugiperda), também conhecida como lagarta do cartucho do milho. Além de Goiás, outros estados brasileiros que também sofreram com as lagartas desfolhadoras foram Mato Grosso e Espírito Santo. De modo geral, entendemos que as regiões que mais sofreram com o ataque dessas pragas foram aquelas que enfrentaram longo período de estiagem e, posteriormente, período de chuvas irregulares e altas temperaturas.

Vale ressaltar que essas lagartas são a fase larval de duas espécies de mariposas. Segundo Pereira, a mariposa (fase adulta) da curuquerê-dos-capinzais é um inseto que mede aproximadamente 4 cm de envergadura e apresenta asas de coloração pardo-acinzentadas. Elas fazem postura sobre as folhas e a eclosão ocorre após um período de 7 a 12 dias. Quando estão totalmente desenvolvidas, chegam a medir 4 cm de comprimento e possuem uma coloração verde-escura com estrias longitudinais castanho-escuras, limitadas por estrias amarelas. Locomovem-se medindo palmos. A vida de lagarta é cerca de 25 dias, e após, entram em fase de pupa, e em aproximadamente 12 dias tornam-se novas mariposas, mantendo o ciclo de vida na pastagem.

Marcos Henrique adverte ser necessário realizar uma análise técnica para decidir pelo controle químico

A mariposa da lagarta-militar apresenta as asas anteriores uniformemente cinzas, enquanto as posteriores são brancas e transparentes, com as bordas levemente escurecidas. Vive em média 15 dias. As lagartas apresentam coloração variando do verde ao marrom, com faixas longitudinais pretas. A cabeça é escura, apresentando, quando vista de frente, uma marca de coloração amarelada lembrando um “Y” invertido. Vivem em torno de 16-20 dias, depois se transformam em pupa e em aproximadamente dez dias eclodem uma nova mariposa.

Podemos observar que há algumas diferenças entre as duas espécies, no entanto, o produtor geralmente não distingue as duas lagartas. Daí a importância de assistência técnica, uma vez que é necessária essa diferenciação, dadas as particularidades do controle de cada espécie. Por exemplo, o controle da lagarta-militar costuma ser mais trabalhoso, pois essa é uma praga polífaga, atacando também culturas de algodão, milho e soja. Por isso, para as pastagens vicinais às lavouras, é necessário maior vigilância, pois a cada controle químico feito, há maior chance de as sobreviventes e mariposas migrarem para as pastagens. Contudo, a grosso modo, os hábitos alimentares das duas lagartas são bem parecidos e, em alguns casos, causam destruição completa das forragens. É importante lembrar que ambas, nos primeiros instares (período entre as mudas de pele), estão bem pequenas e ainda não conseguem causar muitos danos às folhas, mas já são capazes de raspá-las. Com o desenvolvimento, inicia-se o consumo da folha como um todo, ficando apenas a nervura central.

É crucial que haja monitoramento das áreas de pastagens estabelecidas, áreas que estiverem rebrotando, e principalmente áreas de formação, onde plântulas de capim sob ataque severo de lagartas maiores não terão chance de sobrevivência. O acompanhamento técnico é importante para detectar a incidência de lagartas e em qual instar encontram-se, e então, se necessitará ou não de controle químico.

Em Goiás, houve situações de infestações severas de lagartas da pastagem

Cabe ao produtor realizar esse monitoramento inicial, ficando atento à presença de mariposas na região e observando se as bordaduras das pastagens já apresentam lagartas em fase inicial. O melhor controle é conseguido caso o problema seja detectado no início. E a simples presença delas em fase inicial não quer dizer que progredirá para um descontrole da situação. Em muitos casos, nessa fase, são controladas apenas com predadores naturais, por exemplo, pássaros nativos da região (Anu-branco, Anu-preto, Bem-te-vi, Andorinha, Galinha d’Angola), alguns anfíbios como sapos e rãs, insetos como joaninhas (exemplo, Cycloneda sanguinea), e tesourinhas (Doru luteipes) e até mesmo bactérias, vírus e fungos protagonizam esse cenário de controle biológico. As joaninhas e tesourinhas são excelentes aliadas no controle biológico, principalmente da Spodoptera frugiperda, pois predam ovos e lagartas nos primeiros instares. Um exemplo de controle com fungos entomopatogênicos é com o Beauveria bassiana. Demonstra eficácia já nas primeiras aplicações, impedindo que as lagartas desenvolvam-se. Outro, o Nomuria rhiley, um fungo inespecífico (por atacar várias espécies de lagartas) e que naturalmente existe em áreas próximas a lavouras de soja, agride o sistema respiratório da lagarta, paralisando-a, e ela morre com seu corpo totalmente enrijecido, esbranquiçada, aparentando ter sido engessada, normalmente na extremidade distal da folha. O Baculovirus spodoptera também ataca a lagarta-militar, travando o seu crescimento e causando amolecimento corporal. Ela morre dependurada, umedecida, na parte abaxial (em uma das faces) da folha.

Em outros casos, as lagartas são destruídas quando se estabelece boa intensidade de chuvas, permitindo que o capim cresça e não seja mais tão suscetível ao ataque desse tipo de pragas.

O produtor só deverá entrar com controle químico após acompanhamento e receituário de um engenheiro-agrônomo, pois existem vários grupos químicos de inseticidas e vários princípios ativos no mercado. Cada caso deve ser individualizado. Não existe “receita de bolo” para abordar o assunto. Doses e produtos mudam em diferentes situações e em alguns casos nem se faz necessário o controle químico. Caso haja indicação de pesticida, esse deve ter registro no Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa) para aplicação em pastagem. É necessário respeitar o princípio ativo, a dosagem e a carência (período de reentrada dos animais na pastagem). Nesse caso, os grupos químicos utilizados são piretroides, no qual temos, por exemplo, a cipermetrina e deltametrina, e os organofosforados (clorpirifós). Lembrando que, enquanto se puder evitar o controle químico, melhor, pois uma vez utilizado, é preciso respeitar o período de retirada dos animais das pastagens para evitar contaminação da carne e do leite. Ademais, o controle químico poderá afetar inimigos naturais das lagartas. Também recomenda- se ter cuidado rigoroso para não contaminar o meio ambiente como solos, lençol freático e nascentes circunvizinhas, quando vier a água das chuvas ou de irrigação.

Athos Marinho deparou-se com duas espécies de lagarta atacando capins Mombaça, Braquiarão e Giggs

Por enquanto, não há motivo para assombro. A experiência que tivemos até então foi que, mesmo nas pastagens em fase avançada de degradação pelas lagartas e que se fez necessário controle químico, houve melhora e restabelecimento considerável do capim após erradicação dessas pragas. O dano foi notório apenas em áreas de pastagens muito recém-implantadas, constituídas principalmente por plântulas, pois nesse estágio de desenvolvimento não há volume foliar e nem resistência suficientes para suportar o ataque severo de lagartas, principalmente daquelas nos últimos instares. Nessas áreas, faz-se necessário o replantio, culminando em prejuízo não só econômico (sementes, fertilizante, hora/máquina), mas também de tempo para formação da nova pastagem, retardando a entrada dos animais. Também, em função do replantio, alguns locais podem não ficar tão uniformes devido à presença concomitante de plantas de primeira e segunda semeadura e/ou plantio, o que, no início da pesquisa, gerou dificuldade de manejo, necessitando roçagem para igualar as alturas da forrageira.

Uma constatação que facilmente pôde ser feita pelos consultores do Programa Goiás Mais Leite, metodologia Balde Cheio, foi que, em áreas atendidas, onde há pastagens bem manejadas e com grande volume foliar, não houve nível de dano econômico (NDE). Nessas propriedades, o fato de haver manejo intensivo das pastagens com lotação correta, altura de saída dos animais correta, adubação equilibrada e rotatividade do gado, houve uma rebrota vigorosa do capim, que aliado à regularização das chuvas, foram suficientes para suportar a pressão oferecida por essas inimigas. Já em propriedades sem acompanhamento técnico, com pastagens extensivas, onde não há manejo de lotação e adubação, o dano foi considerável, visto que essas pastagens não agrupam volume foliar suficiente para resistir ao ataque das desfolhadoras.

As pastagens secando no inverno, consequentemente, deixam de atrair as lagartas. Contudo, muita atenção deve ser demandada pelos produtores com áreas irrigadas.

Diante da experiência vivida neste ano, já alertamos, desde então, os produtores a observarem suas propriedades no início do próximo período chuvoso e, caso constatarem presença de mariposas ou folhas raspadas e/ou comidas desde a rebrota, é importante chamarem um profissional capacitado para orientar a melhor conduta a ser tomada.

*Athos Marinho é engenheiroagrônomo e técnico do Programa Goiás Mais Leite Metodologia Balde Cheio **Marcos Júnior é médicoveterinário, técnico-adjunto do Senar/ AR-GO e coordenador do Programa Goiás Mais Leite