O Confinador

 

VALE A PENA

Sistema de confinamento no Rio Grande do Sul é economicamente viável

Paulo S. Pacheco, Edom A. Fabrício e Angelina Camera*

Apesar de a produção de bovinos de corte no Brasil caracterizar-se por animais oriundos de pastagens, as perspectivas de incremento na demanda por proteína animal e competitividade de áreas pecuárias com a agricultura tem tornado a intensificação da produção por animal e/ou por área um processo cada vez mais necessário, sendo o confinamento uma alternativa tecnológica de grande eficiência para atingir essa meta.

Os sistemas de produção de bovinos de corte são caracterizados por fases específicas, denominadas de cria, recria e terminação. O confinamento pode ser utilizado como tecnologia integrada às demais fases do sistema, proporcionando benefícios indiretos dentro de um sistema de ciclo completo ou como tecnologia isolada, ou seja, visando aproveitar os benefícios diretos. No Brasil, o confinamento vem sendo utilizado para terminar cerca de 4 milhões de animais (~10% do total de abates – o inverso dos EUA, por exemplo), sendo que, desde o ano 2000, vem sendo feitos investimentos em projetos de grande escala no país, como os confinamentos de 5, 10, 30 mil ou mais animais ao mesmo tempo, principalmente nas Regiões Sudeste e Centro-Oeste, em pelo menos dois ciclos anuais, beneficiando-se basicamente de dois fatores:

1. Oferta de animais magros e grande número de indústrias de abatedouros- frigoríficos;
2. Oferta de ingredientes componentes da dieta a preços mais atrativos;

No RS, a terminação caracteriza-se predominantemente por animais oriundos de pastagens, principalmente naturais, seguidas das cultivadas de inverno responsáveis por 15% dos animais abatidos. No estado, aproximadamente 5% do gado abatido são oriundos de confinamento, o que parece pouco, mas ao longo dos últimos anos houve incremento expressivo no uso dessa tecnologia. O estado contribui com 3% dos animais terminados em confinamento no País, mas o uso da tecnologia vem acompanhando o crescimento ocorrido no somatório dos demais estados (veja na figura 1).

Se caracterizarmos o confinamento como projeto de investimento, é importante a aplicação de conceitos que vão além do conhecimento sobre como engordar um boi. Os conceitos de microeconomia, administração/ gestão, estatística e matemática associados com a prática zootécnica são ferramentas de grande valor na obtenção de informações a serem utilizadas para tomada da decisão de investir ou não investir.

Assim, determinar a maneira como apresentar ou analisar economicamente um sistema de terminação tem implicação prática de grande valia, pois serve de referência, necessitando apenas de atualização dos valores conforme a realidade local.

Determinação da viabilidade

A avaliação econômica do sistema é importante, pois nem sempre a melhor resposta biológica consiste na melhor resposta econômica. Isso quer dizer que nem sempre o peso mais elevado, o maior ganho de peso ou o maior acabamento de carcaça representam a melhor opção para o investidor/ produtor. Há uma dependência de diversos fatores que interagem e definem, para cada propriedade, o sucesso do negócio para determinados padrões de informações zootécnicas de desempenho dos animais.

Sabe-se que a resposta econômica está muito relacionada com as variações regionais, nacionais e/ou internacionais dos itens de custo, principalmente cotações do boi magro, do boi gordo e da alimentação, que são os itens que mais influenciam na resposta econômica da atividade.

Nas diversas áreas zootécnicas (bovinos de corte e de leite, ovinos e caprinos, bubalinos, aves e suínos, abelhas, peixes, equinos, cães e gatos, nutrição animal, forragicultura, entre outras), a incorporação da viabilidade econômica associada à viabilidade técnica/ biológica nos parece ser de grande importância, no entanto, algo que acontece de maneira ainda modesta no dia a dia da prática profissional. Podemos caracterizar tecnicamente esse processo como “análise bioeconômica”, que deverá ser cada vez mais utilizada por técnicos, produtores e indústria.

Quanto à magnitude da resposta econômica obtida com o confinamento, podemos considerar como uma tecnologia com elevado investimento inicial e baixas margens de retorno, ou seja, maiores probabilidades de prejuízo econômico. No entanto, o giro de capital é elevado. E é justamente pelo fato de o confinamento apresentar essa característica que o uso de ferramentas auxiliadoras da tomada de decisão tornam-se cada vez mais indispensáveis nesse tipo de tecnologia. Planilhas eletrônicas e/ou softwares específicos estão disponíveis aos produtores e técnicos, permitindo quantificar os custos e receitas mais facilmente, os quais serão utilizados para estimar os chamados indicadores financeiros do projeto de investimento (tabelas 1 e 2).

Nesse processo de tomada de decisão, Souza e Clemente (2009) sugerem a estimativa e avaliação conjunta de indicadores de retorno e de risco do investimento. O uso conjunto de vários indicadores resulta em informações mais consistentes do que o uso isolado de cada um deles ou de um subconjunto deles e se caracterizam pelo aprofundamento da avaliação do risco e o confronto com a possibilidade de retorno.

Embora utilizados com menor intensidade em estudos zootécnicos, a avaliação conjunta de indicadores de investimento apresenta facilidade metodológica, principalmente quando do uso de planilhas eletrônicas e, por consequência, facilidade na interpretação das estimativas obtidas.

Estudo de caso

Para exemplificar o uso e a importância da análise econômica via indicadores financeiros do projeto de investimento em confinamento de bovinos de corte, vamos analisar um estudo de caso para o estado do RS, pela grande demanda por essa informação.

Definiram-se três ciclos de engorda ao longo do ano:
Ciclo 1: jan/abr
Ciclo 2: mai/ago
Ciclo 3: set/dez.

Visando à maior precisão nas estimativas, utilizamos cotações históricas dos principais itens componentes dos custos e das receitas, mais precisamente de 2003 a 2014, consecutivamente. O custo total correspondeu ao somatório dos seguintes itens:
1. Depreciações (instalações, máquinas, implementos e equipamentos);
2. Compra do animal magro;
3. Controle sanitário;
4. Alimentação (volumoso e concentrado);
5. Mão de obra contratada + assistência técnica;
6. Outras despesas operacionais.

A receita consistiu da venda do animal gordo. O resumo dos critérios utilizados para compor a matriz de custos e receita constam na Tabela 3.

Qual a melhor época para engordar bois? Analisando os indicadores financeiros em conjunto, nota-se que os ciclos de engorda 2 e 3 (Mai a Dez) foram os que apresentaram os melhores resultados (tabela 5). Confinar no verão (ciclo 1) parece resultar em maior risco de investimento, devendo ser avaliado com critério no momento de decisão gerencial. Nesse período, a maior oferta de animais gordos faz com que as diferenças entre as cotações de boi magro e do boi gordo se aproximem bastante, refletindo na viabilidade da terminação. Nos períodos de inverno e primavera ocorre o inverso, sugerindo que a definição da época de compra e venda dos animais deve ser bem criteriosa.

Outra informação interessante que os indicadores financeiros oferecem é a capacidade de auxiliar investidores/ produtores que utilizam critérios diferentes de análise dos resultados. Por exemplo, para aquele investidor que considera a “margem bruta” para tomada de decisão, observando os resultados da tabela 5, a decisão final seria de aceitar o investimento, pois os valores foram positivos em todos os ciclos de engorda ao longo do ano. No entanto, sabe que esse indicador não considera a depreciação e oportunidade do capital. Para outro investidor, a compreensão do “índice benefício:custo” pode ser mais interessante para as decisões, pois indica o retorno de cada real investido. No caso, a média de R$ 1,036 para os três ciclos significa que o retorno do investimento foi de 3,6 centavos. Parece pouco? Depende do que o produtor espera. Para alguns, pode ser suficiente, para outros pode não ser uma boa opção segundo as metas traçadas. Mais um exemplo: Se considerarmos a “taxa interna de retorno”, o resultado médio (1,214%) indica retorno duas vezes maior que a TMA (0,58%), que seria a taxa de juros da melhor opção de investimento com baixo risco de prejuízo. Será que serve? Para alguns sim, para outros não.

Porém, uma coisa nos chama a atenção: todos os indicadores financeiros estimados resultaram em valores que permitem uma única resposta: o confinamento no RS é viável economicamente, ressaltando-se o benefício direto da atividade.

Também se tem a possibilidade de analisar outros indicadores mais difundidos na atividade, por exemplo, o custo do kg de ganho de peso ou o custo da arroba produzida (figura 2). O custo de produção foi menor que o boi gordo em todos os ciclos de engorda, determinando viabilidade.

O preço do boi gordo teria que ser quanto a mais em relação ao boi magro para que o investimento tivesse retorno? Aspecto importante a ser considerado na resposta da atividade é o fato de alguns itens influenciarem de maneira mais marcante o resultado do indicador financeiro. Chamamos isso de Análise de Sensibilidade, e na figura 3 temos um exemplo de como a mesma pode auxiliar na tomada de decisão. Considerando a média dos ciclos de engorda, verifica-se que a diferença de 9% entre as cotações do boi magro e do boi gordo é suficiente para empatar o investimento, ou seja, não se perde nem se ganha. Assim, diferenças superiores a essa possibilitam margem positiva, tornando o negócio interessante.

E em relação à possibilidade de investimento em outras atividades, como a agricultura ou outras criações? Será que o confinamento é competitivo quanto ao retorno esperado? A figura 4 apresenta o lucro esperado por hectare para o confinamento de bovinos de corte nos diferentes ciclos de engorda e também o acumulado anual (R$ 4.789,80). A partir dessa informação, o produtor/ investidor pode fazer a comparação com outros projetos de investimento e tomar a decisão de maneira mais acertada, obviamente dentro da possibilidade de viabilidade técnica de todos os projetos comparados.

Segundo Paulo Pacheco, o acompanhamento de indicadores ajuda a identificar o melhor momento para confinar

Percebe-se que a análise de viabilidade econômica é uma ferramenta fundamental para tomada de decisão, e quando a experiência estiver aliada à vivência de campo, provavelmente, possibilitará resultados que permitam a sustentabilidade da atividade. Considerando as estimativas para o estado do RS, podemos afirmar que o confinamento é opção interessante para investimento em bovinos de corte.

*Paulo Pacheco, Edom Fabricio e Angelina Camera são do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Santa Maria/RS - pacheco.dz.ufsm@hotmail.com


A voz da pecuária intensiva no Brasil

A Associação Nacional dos Confinadores (Assocon) está com um novo posicionamento. A entidade mudou o estatuto para além de confinamentos, buscar defender os interesses da pecuária intensiva. “Nosso objetivo é elaborar um plano estratégico buscando estudar as associações internacionais de pecuaristas dos Estados Unidos, da Austrália e do Uruguai, fazendo as adaptações ao mercado brasileiro”, comenta Eduardo Moura, presidente da Assocon. Até o final do ano serão realizados três workshops com os associados para que eles possam contribuir e agregar com o novo posicionamento. Os reflexos dessa decisão serão sentidos já na grade técnica da Conferência Internacional dos Confinadores (Interconf), programada entre 15 e 17 de setembro de 2015, em Goiânia. A proposta do evento neste ano é discutir Novos Caminhos da Pecuária para ajudar os pecuaristas a produzir mais e melhor.


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