Mercado

 

Até onde vai o bezerro?

O mercado de bezerros está aquecido este ano. Este boom no preço é devido a um desajuste entre oferta e demanda. Hoje, é possível comprar 1,6 bezerro com o valor da venda de um boi gordo (10@). A onda altista para a categoria deve-se à escassez de cria. No final de 2013, já havia rumores sobre um possível apagão de bezerros em decorrência de um grande abate de fêmeas, que começou em 2010 e intensificou-se em 2012. A baixa rentabilidade da pecuária de cria e a necessidade de capitalização fizeram com que o produtor optasse pela redução do plantel de matrizes. O maior abate de fêmeas nos últimos anos resultou no atual cenário, em que faltam animais jovens e há maior procura por essa categoria, visto que muitos projetos de intensificação têm surgido, como o confinamento e o semiconfinamento.

Há uma euforia generalizada no mercado de bezerros. Para termos uma noção, se pegarmos como base algumas praças produtoras como Mato Grosso e São Paulo, a alta no segmento foi significativa: em junho de 2014, a média do bezerro negociado no MT era de R$ 849,00/cabeça (à vista) e, em julho deste ano, a média chegou a R$ 1.200,00/cabeça (à vista), com alta de 42,8% (considerando a inflação). Para o estado de São Paulo, considerando o mesmo período, a média do bezerro que era de R$ 982,00/cabeça (à vista) subiu para R$ 1.305,00/cabeça em 2015, com alta de 22,19%.

A categoria teve valorização nas principais praças produtoras. Em SP, a arroba teve aumento de R$ 30,99%; em MG, de 35,93%; em GO, a alta foi de 35,64%; no MS, 33,07%; alta de 37,32 para o MT; no PR, a valorização foi de 40,24%; e no RS, de 25,81%.

Então, nos perguntamos: diante do preço do bezerro mais caro, qual estratégia deverá ser adota durante as negociações? A dica é continuar tendo cautela e analisar bem o negócio. Quem compra o bezerro nesses preços tem que ganhar em eficiência na hora da recria e engorda, porque senão a conta não fecha. O preço da arroba de um bezerro é mais cara que a do boi gordo, devido ao ágio.

O quadro à frente apresenta a relação de troca entre desmama e boi gordo em um ano.

Como pode ser observado no gráfico, a relação de troca entre desmama e boi gordo, ou seja, a quantidade de bezerros desmamados que pode ser comprada com a venda de um boi gordo caiu em todas as regiões avaliadas, nos últimos treze meses. Essa queda na relação mostra claramente a forte valorização da categoria (bezerros desmamados) quando comparada ao boi gordo, pois sabemos que o valor da arroba subiu ou se manteve no mesmo patamar ao longo do período analisado.

Essa tendência pode ser observada em todas as Unidades da Federação avaliadas; no entanto, o Rio Grande do Sul mostra uma reversão de tendência, com uma relação de troca de 2,33, a mais alta entre todas avaliadas.

Uma das formas para melhorar a relação de troca entre o boi gordo e a reposição (bezerros, garrotes ou boi magro) é aumentar o peso final de abate dos animais. Essa estratégia é a mesma que os norte-americanos estão utilizando, pois lá o bezerro também é muito caro. Contudo, para que isso seja compensador, o produtor deve ficar atento aos custos de produção, pois essa prática envolve um maior gasto com rações e/ou aumento de permanência dos animais no pasto, alongando o tempo até o momento do abate. Agora, de forma estratégica, ou seja, para a próxima safra, o produtor pode buscar maior eficiência na produção a pasto através da adoção de tecnologias que aumentem a lotação e o ganho de peso, o que ajudará a diluir os custos fixos da fazenda.

O produtor também deverá avaliar as mudanças do mercado e como isso influencia seu negócio. É importante ficar atento e observar a direção que a atividade toma. Atualmente, o setor vive uma fase de franca retenção de fêmeas, significando que, mais adiante, teremos mais vacas produzindo e mais bezerros entrando no mercado. Consequentemente, quanto maior a oferta menor o preço. Por hoje, o cenário é positivo para quem investe no mercado de recria e engorda, que tem sustentado bons preços e garantido rentabilidade aos investidores; mas, no longo prazo, não é garantido o mesmo sucesso. Essa oscilação faz parte do chamado ciclo pecuário, que no momento vive seu auge.

Outro fato que chama atenção é o fechamento de plantas frigoríficas no Brasil. Algumas indústrias encerraram atividades devido à diminuição de margem, pois não conseguiram repassar o aumento da arroba para o mercado. Outro fator foi à oferta escassa de animais para abate. Esses acontecimentos trazem consequências para a cadeia produtiva, pois o produtor fica sem opção de negociação e, sem a concorrência entre os frigoríficos, o pecuarista fica “refém” e precisa vender o seu produto pelo preço que o frigorífico quer pagar.

Apesar do cenário econômico enfraquecido, a expectativa para este ano é de preços firmes para o mercado pecuário, inclusive para a categoria bezerro, já que a oferta de animais jovens ainda é curta. Mas, se pensarmos no longo prazo, o bezerro caro de hoje poderá ser o boi caro de amanhã? Enquanto o cenário da oferta for menor que a procura, podemos acreditar que sim.

Já o consumo interno de carne bovina deixa a desejar, pois a renda do consumidor está mais baixa, fazendo com que ele opte por outras proteínas mais baratas, como o frango e o suíno. Portanto, as expectativas recaem sobre a melhora nas exportações para impulsionar as negociações.

O aumento da demanda mundial por carne bovina impulsionou as exportações em 2014, colocando o Brasil em uma posição favorável como grande exportador de carne bovina. De acordo com a Associação Brasileira de Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), as exportações brasileiras de carne bovina atingiram a marca de US$ 7,2 bilhões em 2014 - um crescimento de 7,7% em comparação com os US$ 6,6 bilhões de 2013. Entretanto, em 2015 a instabilidade econômica do país freou as exportações, registrando queda de 20% desde o início do ano. Além do turbulento momento econômico, o Brasil também perdeu importantes mercados como a Rússia, por exemplo, que em 2014 chegou a importar 214.672 toneladas.

Embora os resultados das exportações não estejam repetindo o sucesso do ano de 2014, o setor aguarda com grande expectativa a abertura de novos mercados. As exportações de carne bovina in natura para o mercado norte-americano deverão ter início no mês de agosto. Outro mercado que dá sinal de eliminar o embargo à carne brasileira é o Japão, cuja restrição aconteceu em 2010, em decorrência do caso de Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB) ocorrido no Paraná. A ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Kátia Abreu, disse estar confiante de que ainda este ano o Brasil volte a exportar carne bovina para o Japão.

Apesar do momento favorável na pecuária, no qual o criador está conseguindo ter rentabilidade, mesmo com os altos custos no mercado de reposição, não há espaço para descanso. Intensificar o uso de tecnologias é o ponto de partida para aumentar a produtividade e a lucratividade de forma efetiva. É necessário investir em manejo, genética, sanidade, nutrição, manejo de pasto, etc., além de ser fundamental ter uma gestão adequada, pois sem a coleta de dados, análise de custos, estruturação de estratégias e adequação da equipe não será possível implantar qualquer processo de melhoria no sistema de produção.

Antony Sewell e Rita Marquete
Boviplan Consultoria

 


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