Raças - Angus

 

Para o Brasil e para o Mundo

Angus solidifica imagem junto a criadores e conquista prestígio com consumidores, tornando-se grife de carne de qualidade

Carolina Jardine

O mercado mundial de proteína animal abriu suas portas ao Brasil. O recente anúncio de que os Estados Unidos e a China voltarão a comprar a carne nacional foi recebido com otimismo no campo e na indústria, com a esperança de turbinar as exportações que, segundo projeções do governo, podem atingir 2,88 milhões de toneladas em 2025, aumento de 37,4% em uma década. Mais do que uma promessa de negócios futuros, o anúncio representa um novo caminho a ser seguido por vários outros países, um sinal de que o Brasil está, sim, no caminho de se tornar o grande fornecedor de carne do planeta.

Porém, transformar esse movimento favorável em divisas não deve ser tarefa fácil. A demanda por carne de alta qualidade e respaldada por informações oficiais precisas sobre a criação repassa aos pecuaristas e ao setor público a responsabilidade de saber aproveitar o bom momento. Mais ou menos como o turista que já está com a passagem aérea comprada e o visto carimbado, porém, ainda precisa definir o roteiro e fazer as malas.

Angus almeja futuro promissor com o advento das exportações brasileiras de carne bovina

Preparados para enfrentar consumidores exigentes em diversas partes do mundo, os criadores brasileiros de Angus confiam na excelência da produção local, uma carne que não deixa a desejar a nenhum chef internacional. Para tanto, a Associação Brasileira de Angus (ABA) vem desenvolvendo um trabalho intensivo de reposicionamento internacional que lhe permite traçar uma meta audaciosa: exportar 4 mil toneladas de carne Angus por ano até 2019. Na mira do presidente da Angus, José Roberto Pires Weber, estão mercados tradicionais como União Europeia, Rússia e o apetite voraz de gigantes do Oriente Médio e China.

Para fortalecer as negociações internacionais, a Angus viu a necessidade de trocar a certificadora que chancelava a produção e contratou a alemã Tüv Rheinland. A estratégia conquistou mais credibilidade entre os países da União Europeia e sinaliza para uma maior simpatia dos consumidores europeus. Em paralelo, intensificou a participação em feiras internacionais para estar mais perto dos clientes, por meio de parceria com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) dentro do escopo do projeto Brazilian Beef. Só neste ano, a programação inclui exposições na Rússia, Chile e Emirados Árabes, sem falar na Alemanha, onde a raça promoverá o Brazilian Angus Day na feira de Anuga, entre 10 e 14 de outubro. Neste dia, o estande da Abiec ganhará ornamentação temática sobre a raça Angus e receberá clientes para prospecção de negócios.

A primeira grande incursão internacional da Angus em 2015 foi o projeto ExpoMilão, que levou a carne brasileira a uma das maiores feiras de nações do mundo no mês de junho. Em parceria com a Apex e a Abiec, a associação realizou o Cooking Show Angus. A proposta foi apresentar a carne brasileira como potencial gastronômico. Para isso, foi contratado o chef italiano Fabrizio Nonis, apresentador do programa Sconfinando TV. Com toda a maestria de quem domina a técnica culinária local, ele introduziu a carne Angus brasileira em suculentos pratos como Alcatra à Saltimboca e Picanha à Pizzaiola. “As pessoas se surpreenderam com a qualidade do produto que apresentamos. Muitos perguntavam se existiam animais Angus no Brasil e não acreditavam no sabor e na maciez do que estavam degustando”, conta o gerente do Programa Carne Angus Certificada, Fábio Medeiros, que chefiou a missão à Itália. A estratégia é levar a produção brasileira ao exterior e pôr fim à ideia de que o Brasil só exporta carne commodity.

Durante a ExpoMilão, a carne Angus foi servida em típicos pratos da culinária brasileira

Recentemente, pesquisa de branding internacional realizada pela Apex Brasil expôs uma realidade a ser superada exatamente nesse sentido. Com base nas respostas de atores de diferentes elos da cadeia produtiva, foi constatado que o Brasil é visto como fonte de carne-ingrediente, aquela que é ideal para rechear embutidos, fazer molhos ou ser consumida moída, estando fora da visão desses consumidores quando o assunto é um corte para pratos especiais, os chamados segmentos “Gastronomia” e “Gourmet”. “É exatamente esse mercado que queremos conquistar. O criador de Angus brasileiro tem totais condições de acessar os clientes mais exigentes. Precisamos apenas abrir canais”, pontua Medeiros. Nesse caminho, os criadores de Angus vêm desenvolvendo novos produtos. É o caso dos cortes de dianteiro produzidos pela VPJ, Marfrig, Frigol e JBS, que oferecem sabor diferenciado e vêm impressionando consumidores. Outras novidades são os hambúrgueres Angus para Churrasco, que abrem um novo nicho.

Esse novo conceito de carne gourmet aliado à abertura de novos mercados deve ajudar o País a agregar mais valor à produção exportada, obtendo melhores preços pela arroba e colaborando, inclusive, para melhorar a remuneração pela atividade no mercado interno. Afinal, a conquista de clientela internacional para os cortes Angus brasileiros também deve trazer importante reflexo ao mercado doméstico, com a valorização dos novilhos.

Em um primeiro momento, lembra o presidente da Angus, é preciso cumprir as metas da Cota Hilton - projeções indicam que, em 2015, o país atingirá a marca de 95% - e passar a usufruir da Cota 481 – High Quality Beef (veja no box ao fim da matéria), que confere acesso a cortes de alta qualidade ao mercado europeu com taxas reduzidas. O assunto foi alvo, inclusive, de uma das primeiras reuniões realizadas pela ministra Kátia Abreu logo que assumiu o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), em fevereiro deste ano. Reunida com lideranças dos criadores brasileiros, ela solicitou sugestões para desenvolver a pecuária. Em resposta ao pedido da ministra, José Roberto Pires Weber pontuou quatro questões prioritárias a serem atingidas: a liberação das ivermectinas para o controle do carrapato, a operacionalização da Plataforma de Gestão Agropecuária (PGA), o avanço das negociações para exportações na Cota 481 e uma legislação simplificada de rastreabilidade. A boa notícia é que a ministra trabalha rápido e que dois dos quatro pedidos já foram atendidos e os outros dois andam de vento em popa em Brasília.

Angus e Nelore comprovaram ser grandes parceiros quando o assunto é produção e qualidade de carne, seja no Sul ou no Pará

Para garantir que as portas internacionais fiquem abertas à carne de seus criadores, a Associação Brasileira de Angus deu o primeiro passo para um novo sistema de informações que promete revolucionar o agronegócio brasileiro e garantir a segurança das exportações. A PGA, implementada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), por intermédio de convênio firmado com o Mapa, teve sua primeira adesão em maio deste ano com a assinatura do Protocolo Angus. A ideia é compartimentalizar as informações de todos os setores produtivos nacionais em espécies de “gavetas” setorizadas que fiquem sob os cuidados das associações de raça e integrem informações de inspeção e defesa agropecuária, trânsito animal e emissão de nota fiscal. Com a adesão pioneira da Angus à PGA, obteve-se a base legal para a exportação de carne com identificação da origem genética, uma exigência para que os cortes brasileiros cheguem às gôndolas dos supermercados europeus com o nome Angus estampado no rótulo. “Esse tipo de informação, crescentemente reconhecida e valorizada pelos consumidores, era desprovida de legislação específica no País. Esse fato levou a uma descontrolada proliferação de marcas indicando a origem genética dos animais, colocando em risco não apenas a credibilidade das características qualitativas perante o mercado, mas também os interesses do consumidor”, salientou Reynaldo Titoff Salvador, diretor do Programa Carne Angus Certificada.


Mudança na Legislação de Rotulagem

As carnes brasileiras precisarão cumprir um novo rito para poder incluir em seus rótulos o nome da raça do animal de origem. A circular 001/2015 do Departamento de Inspeção e Produção Animal (Dipoa/SDA/MAPA) determina que a rotulagem com informações quanto a raças bovinas somente poderá ser feita mediante implementação de protocolo desenvolvido e aprovado pela associação de criadores da raça em questão. Para isso, será utilizada a nova PGA.

Pela circular, as marcas existentes em 25 de fevereiro de 2015 teriam 180 dias para atender esse requisito. Novas marcas solicitadas só poderiam ser aprovadas dentro do novo modelo.

Atualmente, os produtos que contêm o selo de certificação da Associação Brasileira de Angus já garantem aos consumidores a identidade (Carne Exclusivamente de animais Angus e cruza Angus) através de processo de certificação conduzido por técnicos da entidade, nas unidades frigoríficas credenciada. Participam desse processo as empresas JBS, JBSFoods, Marfrig, Frigorífico Silva, Cotripal, VPJ Alimentos, MCDonalds, Cia Zaffari, Frigorífico Verdi, Frigorífico São João, Frigol S/A e Cooperaliança.

No mercado interno, a mudança na rotulagem põe fim à concorrência desleal imposta aos frigoríficos idôneos que participam de Programas de Certificação, já que muitos cortes sem a procedência acabavam prejudicando a imagem das raças.


E a Angus já ensaia os primeiros embarques dentro do novo modelo. “Depois da adesão à PGA, estamos prontos para exportar Carne Angus do Brasil, por preços que esperamos sejam compensadores. E já existem mercados interessados nesse produto. Sem vender falsas ilusões, acreditamos que está sendo aberta uma nova etapa para os cortes Angus e à carne brasileira”, confia Weber.

Raça virou grife

Mais do que sucesso de rentabilidade, o nome Angus já é, dentro e fora do Brasil, sinônimo de carne de qualidade. Anos de melhoramento, trabalho técnico e negociação conduziram a raça a um momento ímpar, em que suas qualidades são unanimidade tanto no campo quanto no varejo. Assim como o consumidor brasileiro das classes A e B descobriu a carne de qualidade e não abre mão dela, o pecuarista também reconheceu os avanços que o Angus trouxe à criação. “Angus possui algumas qualificações que efetivamente cativam o pecuarista, tais como grande fertilidade, rusticidade, longevidade, facilidade de apronte e, principalmente, alguns atributos ligados à carne que lhe trazem um diferencial extremamente positivo, como marmoreio, maciez e sabor especiais”, define o presidente da Angus.

Apesar de o maior número de criatórios da raça escocesa estar concentrado no Sul e no Sudeste do Brasil, o aumento de interesse em diversas outras regiões vem exigindo atenção do staff da raça. “Os pecuaristas buscam produzir mais carne em menos tempo. E, nessa tarefa, a Angus é a ferramenta certa para elevar a rentabilidade da criação”, pontua Medeiros, lembrando que a estimativa é que 5% dos bezerros criados no Brasil já tenham sangue Angus, ou seja, 3,5 milhões de animais.

Com o aumento das restrições ambientais impostas pelo novo Código Florestal e pela necessidade de profissionalização da agropecuária, os cruzamentos industriais Angus com zebuínos vêm ganhando força não só no Brasil Central como em outras regiões. Isso fica evidente com o avanço da venda de sêmen. Em 2014, foram comercializadas aproximadamente 3,9 milhões de doses de sêmen Angus no Brasil. O principal destino são os estados da região Centro-Oeste, que absorvem mais de 50% do volume total. E a expectativa é seguir crescendo.

Um dos criadores que resolveu investir na Angus em busca da qualidade que a raça oferece à carne foi Alexandre Scaff Raffi, da Fazenda Boa Esperança, localizada no município de Anastácio, no Mato Grosso do Sul. A propriedade trabalha com recria e engorda de zebuínos, mas, em março passado, o pecuarista decidiu apostar em 500 matrizes meio- -sangue Angus adquiridas dentro da porteira de um criador da região. Confiante nos ganhos qualitativos que a Angus traz ao rebanho, ele pretende utilizar os animais para reprodução e, após o desmame, encaminhar para engorda. “Se tivermos o retorno esperado, seguiremos investindo na Angus”, pontua, lembrando que o momento da agropecuária exige cautela e observação. Sobre as potencialidades no mercado externo, Raffi acredita que o grande nicho é a venda de carne à União Europeia, o que, lamenta, ainda tem difícil acesso. Depois de trabalhar com a Angus entre 2000 e 2008, o pecuarista abandonou a cria e concentrou as ações na engorda com suplementação a pasto para maximizar os resultados da fazenda, que também tem floresta de eucalipto.

O Pará é outro exemplo de estado onde a Angus já se consolidou como alternativa para potencializar a produtividade dentro da porteira. Com um rebanho de 22 milhões de cabeças de bovinos, o quinto maior do país, o estado viu na raça uma forma de elevar produtividade e agregar qualidade ao acabamento de carcaça, o que já se reflete no início de uma movimentação da indústria para pagamento de bonificações. “O Pará é um estado que tem forte pressão ambiental. Cada vez mais se buscam animais mais precoces, que ficam prontos em menos tempo, para se produzir mais e melhor”, pontua o diretor da Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (Faepa), Guilherme Minssen, lembrando que apenas 24% da área do estado são utilizados e que os demais 76% são reservas.

Com grande capacidade de adaptação, os animais meio-sangue Angus também têm excelente ganho de peso e oferecem padronização invejável aos lotes de terneiros. O consultor Adrovany Teixeira Cavalheiro, da Soma Consultoria e Gestão Agropecuária, conta que acompanhou caso de animais meio-sangue em pastagens de braquiária no Pará com suplementação que obtiveram ganho de 1,11kg enquanto Nelore, nas mesmas condições, não passou de 750g. Contudo, alerta o consultor e mestre em Pastagens, a opção pela cruza com o Angus exige atenção e um manejo eficiente para evitar o comprometimento da base de matrizes zebuínas, sob o risco de prejudicar a qualidade das gerações futuras. “Hoje, ainda existe pouco critério para uso do Angus de modo a se ter boa longevidade do rebanho. É preciso planejamento e um trabalho que prepare as matrizes para receber o Angus”, alerta, pontuando a necessidade de critérios zootécnicos claros para a definição das vacas que serão submetidas à Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF).

Para qualificar ainda mais os cruzamentos que utilizam a genética do taurino no País, a ABA vem preparando um plano de orientação para escolha dos reprodutores. Segundo a presidente do Conselho Técnico da Angus, Susana Salvador, é preciso dar respaldo aos criadores que usam a raça. Entre as ideias em análise está a homologação de touros recomendados, o que serviria como um guia para a IATF no Brasil. Na tentativa de tabular as melhores opções para diferentes cenários de criação – a pasto, confinamento, semiconfinamento – a médica-veterinária deverá conduzir trabalho em conjunto com o técnicos da associação. No longo prazo, pontua ela, o planejamento poderá incluir a ampliação do quadro de técnicos de modo a assistir também os ciclos de cria e recria.

Em apenas dez dias úteis, foram embarcadas 3,7 mil toneladas para a China, representando mais de US$ 20 milhões, afirma Camardelli

O objetivo de toda essa movimentação é ampliar cada vez mais o retorno que a raça Angus proporciona aos pecuaristas e a inclusão de animais na política de bonificação no abate prevista pelo Programa Carne Angus Certificada. Em atuação no País desde 2004 e com crescimento de 20% ao ano no número de animais abatidos, o programa avalia as carcaças e certifica as carnes nos frigoríficos credenciados de acordo com critérios específicos. Entre eles estão mínimo de 50% de sangue Angus, idade de até 18 meses para machos inteiros e 24 meses para castrados e fêmeas e boa conformação e acabamento de gordura, superior a 3mm de espessura e com boa distribuição na carcaça.

Ao pecuarista, participar do Carne Angus rende valor adicional de até 10% para aqueles bovinos validados pelo técnico. “O Programa Carne Angus valoriza todo processo produtivo da raça, desde o criador, passando pelo selecionador e terminador e integrando a indústria, de forma a que o consumidor possa ter acesso a uma carne de qualidade”, salienta José Roberto Pires Weber. Segundo ele, a meta é elevar o percentual de animais abatidos dentro do programa para atingir produção suficiente e atender os mercados interno e externo.

Reger o rebanho brasileiro com harmonia, como uma grande orquestra, não é tarefa simples, principalmente frente à imensidão do território nacional. O criador brasileiro, embora já tenha alcançado um bom nível de produção e produtividade, certamente ainda tem um caminho árduo e difícil para alcançar a excelência. É preciso melhorar os níveis de nutrição do rebanho, aumentar os índices de fertilidade e, especialmente, qualificar a terminação dos animais encaminhados ao abate, com atenção redobrada à espessura de gordura e ao acabamento de carcaça. Há necessidade também de qualificar a mão de obra que opera no processo. Eis que os avanços tecnológicos surgem com muita rapidez. Segundo a consultora da Agrifatto Análise e Decisão, Lygia Pimentel, é exatamente isso que os mais exigentes clientes internacionais esperam do criador brasileiro. Mercados como China e Estados Unidos, lembra ela, são tradicionalmente mais exigentes e pedem que o agropecuarista faça a lição de casa muito bem feita. “É preciso focar em padronização e carcaças mais homogêneas. É aí que entra a importância da Angus para conquistarmos definitivamente o mercado que busca animais com acabamento melhor”, aconselha.

Fazer a lição de casa significa entender o que o cliente quer e, segundo ela, a maioria dos pecuaristas ainda está muito distante do consumidor internacional. “De modo geral, o que interessa ao produtor é o preço final da arroba e, na verdade, entregar um bom produto vai muito além disso ou de um animal simplesmente pesado”, acredita. O que o cliente quer é constância no fornecimento, padronização e confiança no produto. “Isso quer dizer que temos de focar em terminar bem o animal, buscar entender o que pode agregar valor ao produto e, obviamente, receber um diferencial por isso. Afinal, a boutique trabalha com valor agregado e nada mais natural ao pecuarista do que querer e merecer participar disso”.

Parceria da ABA com a Apex permite apresentar ao mundo as qualidades da carne brasileira no mercado gourmet

Contra a crise

Especialistas apontam que só elevando a eficácia do processo produtivo e adotando uma pecuária mais empresarial é possível enfrentar as dificuldades que estão por vir no mercado doméstico frente à crise que está estabelecida no país. O último boletim Focus aponta queda de -1,5% para o PIB e inflação de 9,12% até o fim de 2015, em previsões que pioram a cada novo informe. O cenário reflete-se na queda da atividade econômica, desemprego e, consequentemente, na redução do consumo de modo geral e, obviamente, em queda na demanda por carne bovina. Segundo estimativa da Agrifatto, o consumo per capita brasileiro deve cair de 41 kg/hab/ano, em 2014, para 37,5 kg/hab/ano em 2015.

Para segurar as contas enquanto a economia brasileira não se ajusta, o cenário internacional é visto como a saída, com perspectivas mais animadoras. Apesar da queda de 18% no faturamento das exportações (2,7 bilhões de dólares) no primeiro semestre de 2015 motivada pela redução nos embarques para Hong Kong, Rússia e Venezuela, a expectativa é positiva para a balança da carne bovina no ano. Indicadores divulgados referentes ao mês de junho já sinalizam um movimento de reversão, quando houve um aumento de 5% no faturamento (US$ 491,1 milhões contra US$ 467,8 milhões em maio de 2015). Os destaques positivos em junho de 2015 foram a recuperação de vendas a grandes clientes, como Rússia, Venezuela e Chile. O embarque de carne bovina brasileira para a Venezuela registrou aumento de 112% em volume (11,8 mil toneladas) e 117% em faturamento, se comparado com maio de 2015. A Rússia voltou ao patamar de liderança entre os grandes compradores de carne brasileira, com 19,5 mil toneladas (28% mais que o mês anterior), garantindo faturamento de mais de US$ 70 milhões (aumento de 36,8%). Já o Chile comprou 35% mais carne (4,8 mil toneladas), com US$ 24 milhões (43% de crescimento). “Além da volta de grandes mercados ao patamar normal de compras em junho, também já iniciamos os embarques para a China. Em apenas dez dias úteis, foram enviadas 3,7 mil toneladas para o país, representando mais de US$ 20 milhões em faturamento, o que já a colocou entre os maiores mercados compradores no mês”, destaca o presidente Abiec, Antonio Camardelli.

O otimismo dos exportadores ao projetar recuperação para o segundo semestre está no fato de que os seis primeiros meses de 2015 também foram marcados por grandes conquistas, como o fim dos embargos da China, Iraque e África do Sul, além da abertura do mercado norte-americano. “China e Estados Unidos eram nossos mercados estratégicos para este ano. Depois de anos de luta do setor, conseguimos reverter essa situação e parabenizamos a ministra da Agricultura, Kátia Abreu, que colocou o setor em sua pauta de negociações e atuou com empenho na finalização desses processos”, complementa o presidente da Abiec.

O dólar em bons patamares ainda ajuda e coloca a carne brasileira em uma posição de competitividade interessante em mercados que possuem moedas fortes, como os Estados Unidos. “Também há boas expectativas com a abertura de novas plantas para a China, além de Malásia, Indonésia e Cingapura, emergentes que podem ajudar a enxugar a diferença de carne oriunda da redução do apetite do brasileiro”, informa a analista Lygia. Entretanto, alerta, a abertura para a exportação a países novos é demorada e burocrática, o que pode fazer o efeito positivo ser sentido apenas em 2016.

Se no campo o cenário é de enfrentamento da crise com os olhos no exterior, nos frigoríficos a esperança também vem de fora com a sinalização de novos clientes. Só neste ano, já são 45 plantas fechadas/paralisadas em todo o País.

Frente a tantas dificuldades, a pergunta que paira entre os pecuaristas é: mas afinal, o que é possível fazer para passar incólume à crise? A consultora defende que o segredo é ter controle dos processos e tecnologia para diluir custos fixos e mitigar riscos. “A reposição está cara e só há uma maneira de diminuir o risco de o animal adquirido não se pagar no futuro: reduzir seu tempo na fazenda. Para isso, a implantação de tecnologia, o aumento da lotação e o gerenciamento do risco de preços têm papel fundamental”, completa.

Futuro

Nesse contexto, trabalhar com projeções é sempre arriscado. Contudo, estudo divulgado recentemente pelo Mapa tenta construir cenário para o agronegócio em 2024/2025. Pelo levantamento, a produção de carne bovina deve crescer à taxa de 2,1% ao ano, incremento que deve chegar a 23% em uma década e que é visto como suficiente para atender a demanda do mercado doméstico e as exportações. O movimento, indica o estudo baseado em dados da FAO e OECD, deve ser acompanhado por elevação de preço ao produtor. Segundo o Mapa, a produção de carne bovina no Brasil deve saltar de 9,2 milhões de toneladas para 11,35 milhões de toneladas. O governo também prevê aumento de 17,8% no consumo nacional de carne bovina na próxima década (de 7,1 milhões de toneladas para 8,4 milhões de toneladas). As exportações devem crescer à taxa de 3,1% ao ano, o que, segundo o Usda, deve colocar o Brasil como segundo maior exportador de carne mundial em 2024, perdendo apenas para a Índia. Em uma década, a exportação brasileira de carne bovina deve saltar 37,4%, passando de 2,09 milhões de toneladas para 2,88 milhões de toneladas/ano.

Técnico da Aba certifica gado que será abatido dentro do Programa Carne Angus Certificada

As projeções de ganhos da pecuária brasileira estão fundamentadas em aumento de tecnologia e melhoria de processos, o que permite potencializar o lucro em tempo reduzido e com menos recursos aplicados. Questionados sobre atalhos para esse caminho, especialistas garantem: o futuro está no Angus e nas características que a raça concede aos animais F1, em cruzamento com zebuínos. “O investimento em tecnologia tem crescido a galope e a disseminação da Angus no Centro-Oeste faz parte desse processo. A correlação entre vendas de sêmen Angus e aumento do peso da carcaça bovina brasileira é positiva e, por isso mesmo, não deve perder força nos próximos anos”, prevê Lygia.

Uma das ações que a Angus vem promovendo é o estímulo à criação de animais rústicos, mas sem esquecer o valor dos exemplares de argola. Além disso, a associação vem estimulando o uso de touros nacionais através do incentivo a provas de progênie que qualifiquem os reprodutores brasileiros e a testes de avaliação. Neste ano, duas provas estão em andamento e devem chancelar a qualidade genética dos reprodutores brasileiros. A primeira ocorre na central em Sertãozinho/ SP, e a segunda, nos campos da Embrapa, em Bagé/RS. Os animais são avaliados mensalmente de forma a receber uma validação para uso nas centrais de inseminação artificial.

Uma infinidade de oportunidades aguarda o Angus e a carne brasileira mundo afora


Entenda a Cota 481 – High Quality Beef (Cota Hilton)

É uma quota criada pela União Europeia para compra de carne de alta qualidade com redução de taxação. Para se beneficiar da Cota 481, as cargas precisam cumprir regras rígidas da produção ao abate. Fique por dentro:

?Os cortes de carne de bovino devem vir de carcaças de novilhos de idade inferior a 30 meses que, pelo menos durante os 100 dias anteriores ao abate, tenham sido alimentados exclusivamente com rações constituídas por, no mínimo, 62% de concentrados e/ou de coprodutos de cereais forrageiros, em matéria seca (MS), cujo teor de energia metabolizável seja igual ou superior a 12,26 megajoules por quilograma de MS.

?Os novilhos submetidos ao regime alimentar descrito devem ser alimentados diariamente com rações cuja matéria seca pese, em média, pelo menos 1,4 % do peso vivo.

?As carcaças de onde provêm os cortes serão avaliadas por um agente das autoridades nacionais e segue, na avaliação e na subsequente classificação das carcaças, um método aprovado por força da lei. Através do método de avaliação e das respectivas classificações devem se avaliar a qualidade da carcaça com base em uma combinação de características de maturidade da carcaça e de palatabilidade dos cortes. O método de avaliação da carcaça inclui as características de maturidade respeitantes à cor e à textura do músculo longissimus dorsi, aos ossos e à ossificação das cartilagens, assim como uma avaliação das características de palatabilidade, incluindo uma combinação das características específicas da gordura intramuscular e da firmeza do músculo longissimus dorsi.