Sanidade

 

Moscas preocupam PECUARISTAS

Expansão sucroalcooleira contribuiu para proliferação da mosca-dos-estábulos

Dalízia Aguiar

Mosca-da-bicheira, do berne, dos chifres e dos estábulos. Pragas para a pecuária nacional que podem causar prejuízos econômicos para os produtores, principalmente, em condições inadequadas de manejo e próprias para a proliferação. Em 2011, nos dados do IBGE, esses parasitas ficaram somente atrás do carrapato-do-boi, Rhipicephalus (Boophilus) microplus, em números significativos de perda de rentabilidade para os bovinocultores de leite e corte do País. São mais de US$ 3,60 bilhões de dólares em impactos negativos no bem-estar animal e na produtividade e economia brasileira.

Nos últimos anos, com os incentivos federais para a expansão do setor sucroalcooleiro no Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, São Paulo e Minas Gerais, a mosca-dos-estábulos (Stomoxys calcitrans), antes ectoparasita presente e de pouca relevância, passou a praga temida e perseguida pelos pecuaristas vizinhos às usinas de cana-de-açúcar. A situação piora quando se observa o Brasil como 1º produtor mundial de açúcar, fortalecendo o setor energético e consolidando a vizinhança indigesta.

A mosca-dos-chifres (Haematobia irritans), por sua vez, com o passar dos anos, desenvolveu populações resistentes a alguns pesticidas, causando um déficit nos programas de controle sanitários. As duas espécies de mosca e o carrapato- do-boi foram assuntos de um dos últimos roteiros tecnológicos da Dinâmica Agropecuária – Dinapec, em Campo Grande/MS, e atraiu grande número de produtores, estudantes e técnicos para a vitrine tecnológica da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), dada a importância dos temas para o setor agropecuário.

Fazenda e usina

A convivência do produtor com a nova vizinha o faz reconhecê-la sem lupa. A mosca-dos-estábulos é encontrada próxima a esses locais e confinamentos, apesar de semelhante à doméstica, diferencia-se por seu aparelho bucal e sua marca registrada é a picada forte que incomoda o animal, causando desinteresse pelo alimento, perda de peso e morte.

“Tínhamos uma situação X, na qual o pecuarista convivia com uma pequena quantidade de moscas dentro de sua propriedade, que se alimentava de matéria vegetal em decomposição. Então, chegou a usina. A palha não pode ser mais queimada por lei. A vinhaça não tem onde ser jogada e ainda há a torta de filtro. A mosca, que antes não tinha espaço, agora tem uma grande área para se reproduzir e alimentar e aí o cenário muda”, explica Paulo Henrique Duarte Cançado, pesquisador da Embrapa.

De acordo com Cançado, a nova situação por hora não tem solução mágica, as pesquisas estão em andamento e, enquanto isso, pecuaristas e usineiros devem adotar medidas simples e rotineiras, além de bom senso. “Temos um longo caminho a trilhar tanto de desenvolvimento de soluções quanto de treinamento e conscientização. É um trabalho em conjunto e a participação dos dois lados é importante. Nos municípios em conflitos, com uma parte culpando a outra, a situação só piorou. Entretanto, naqueles onde caminharam juntos, cada um tentando fazer a sua parte, se ajudando, os problemas não foram 100% resolvidos, mas amenizaram”.

Entre as medidas para a propriedade, cita o médico-veterinário, estão a higiene das instalações, a remoção e o destino adequado dos resíduos alimentares, dejetos e matéria orgânica, a drenagem da água da chuva e revolver o material de compostagem. Para a usina, há critérios - quantidade, loção e período - para se jogar corretamente a vinhaça, subproduto da cana-de-açúcar, sobre a palha, e um manejo adequado da torta de filtro, outro produto secundário e produzido em toneladas diárias para acelerar seu processo de reciclagem.

Rápida e inquieta

Acelerado é seu ciclo de vida. No verão, por exemplo, facilmente se tem duas gerações; e irritante seu comportamento, essa é a mosca-dos-chifres. Enquanto a mosca-do-bagaço se alimenta e não volta, a do chifres permanece 24 horas sobre o hospedeiro, picando entre 25 e 40 vezes ao dia (macho ou fêmea), por três a quatro minutos, fazendo-se lembrada, mesmo com metade do tamanho.

Segundo o entomologista Antonio Thadeu Medeiros de Barros, o controle pode ser biológico, por meio de competidores, como o besouro rola-bosta; de parasitoides, como a vespa; e de predadores, as formigas. Há também o controle cultural, com armadilha, no qual 50% da infestação é reduzida, porém não serve para gado de corte, pois a adoção é diária; e com a redução de massa fecal, que para grandes rebanhos é impraticável; e ainda há o integrado e o químico, “mais fácil, simples e de alta eficácia”, sublinha Thadeu.

Pulverização com bombas costais manuais é o método químico mais barato e “onde mais se erra, porque não foi pensado para tratar 100-200 mil cabeças. Ao final, o técnico está ‘benzendo’ o gado, não protegendo. A aplicação de volumes bem menores que o recomendado (4 a 5 litros/animal) reduz o período de eficácia do produto e compromete a eficiência do tratamento”, alerta o pesquisador. Para ele, o aconselhável é o uso do brinco inseticida, que, respeitando o prazo de validade (90 e 150 dias), as chances de erros são menores e a eficácia, maior.

Os tratamentos, por sua vez, são táticos e estratégicos. “Os táticos são de ação imediata, em função de uma alta infestação no rebanho. Podem ser realizados em qualquer época do ano, normalmente, no período chuvoso. O importante é ser realizado quando for efetivamente necessário, do contrário, causa mais prejuízo que benefício”, adverte. Um critério para a tomada de decisão é o comportamento animal, como o aumento na freqüência de movimentos, entre eles, a cabeçada. Já os estratégicos, segue Thadeu, são estudos ecológicos sobre a dinâmica populacional da mosca, seus picos de infestação. “É possível colocar o planejamento estratégico no calendário sanitário da propriedade. Mais que escolher o método, é usá-lo adequadamente”.

Dinapec

Com uma herança familiar e vindo de Aquidauana/MS, o produtor Nilton de Carvalho Filho participou durante os três dias da 10ª Dinapec, acompanhando até o final os roteiros de manejo de pastagem, melhoramento animal, sanidade, dentre outros. Advogado por formação, diz que o evento “foi um aprendizado intensivo, com novos conceitos a serem incorporados. Nos roteiros, notamos que fazemos algumas coisas erradas na propriedade e na volta ajustaremos”.

A Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer/ MS) organizou-se com os escritórios do interior e levou ao evento, aproximadamente, 360 pessoas, entre pequenos produtores e técnicos do Estado. O envolvimento maior da instituição, com mais de 30 funcionários colaborando, permitiu, para o pesquisador Vitor Corrêa de Oliveira, que os produtores levassem um aprendizado consistente, pois “além de despertarem nas palestras, as oficinas práticas demonstravam que era possível melhorar a atividade. Isso fortalece a confiança na extensão rural”, afirma.


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