Mercado

 

À prova de crise

O momento econômico vivido pelo País é difícil e demanda muitos desafios. Colocar a economia novamente nos trilhos será tarefa complicada para o Governo. Os ajustes fiscais têm dado o que falar, mas de acordo com a presidência os cortes são necessários para equilibrar as contas públicas do País. Entretanto, a falta de previsibilidade econômica nos deixa às cegas.

Caminhamos para o segundo semestre do ano e as perspectivas ainda não são as melhores; pelo visto, a solução não virá no curto prazo, e a maioria dos economistas aponta para uma recuperação lenta somente em 2016. Então, nos perguntamos: como fica o setor pecuário diante da crise econômica enfrentada pelo Brasil?

O que podemos dizer é que, por enquanto, a remuneração da arroba tem permitido ao produtor manter margens de lucro e que a baixa oferta de animais no mercado tem colaborado com o fortalecimento do setor. Isso não quer dizer, no entanto, que a pecuária esteja navegando em águas tranquilas, pois diante de um cenário econômico enfraquecido, os desafios ainda são grandes. Um dos pontos favoráveis ao setor é o aumento global pela demanda de proteína animal, atrelado à valorização cambial que favorece as exportações.

A pecuária nacional é competitiva, mas o setor precisa avançar em produtividade e isso só é possível através da aplicação de tecnologias no campo. Não há mais espaço para a pecuária tradicional, que oferece baixa produtividade e maiores custos. O produtor precisa estar atento aos benefícios trazidos pelo advento da tecnologia, que une sustentabilidade à rentabilidade. Embora o cenário atual seja de grandes dificuldades para alguns seguimentos, como para indústria, por exemplo, a pecuária segue em uma condição mais “confortável”; porém, o momento ainda requer prudência, e é fundamental saber identificar oportunidades, equilibrar gastos e gerir corretamente a atividade.

O consumo de carne bovina no mercado interno está fraco. O consumidor está com menor poder aquisitivo e, com o preço da carne mais alta, tem optado por fontes de proteínas mais baratas, como o frango e o suíno, por exemplo. Com isso, as expectativas de remuneração recaem sobre as exportações que, apesar da queda no volume exportado, têm segurado a receita devido à alta do dólar. No mercado interno, a arroba tem sido negociada, em média, a R$ 147 (à vista, referência para o Estado de São Paulo).

O quadro “Boi Gordo no Mundo” apresenta o valor médio da arroba do boi gordo no período compreendido entre os dias 14 de maio e 15 de junho de 2015, para os principais países produtores: Brasil, Argentina, Austrália e Estados Unidos. Entre os países citados acima, o preço da arroba valorizou apenas na Austrália, registrando crescimento de 7,78% para o período analisado em relação ao período anterior (meados de abril a maio de 2015).

Apesar do recuo nas exportações brasileiras observadas recentemente, espera-se que, com a abertura de novos mercados, o País venha a se recuperar. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) assinou no dia 10 de junho de 2015 um acordo comercial com autoridades sanitárias da China. O acordo prevê a cooperação na troca de informações e contribuirá para a ampliação do comércio entre os dois países. A China é um mercado muito importante para os exportadores brasileiros; no entanto, desde dezembro de 2012, a carne bovina brasileira sofria embargo da China após um caso atípico de BSE registrado no estado do Paraná. Durante a visita do presidente chinês ao Brasil, que aconteceu no ano passado, foi anunciado o fim deste embargo. No entanto, ficou pendente a regularização no campo técnico, o que também foi resolvido com a vinda do primeiro-ministro da China Li Keqiang ao Brasil. Dessa visita resultou a reabertura do mercado chinês à carne bovina brasileira.

Quanto à abertura das exportações da carne in natura para o mercado americano, a expectativa é que aconteça após a visita da presidente Dilma Rousseff aos EUA, ocorrida em 30 de junho. A abertura dos EUA à carne brasileira está sendo muito esperada pelo Brasil, pois o sistema sanitário norte-americano é referência mundial; dessa forma, contribuiria para acelerar as negociações com outros países, como o Japão, por exemplo.

A Arábia Saudita também está avaliando a reabertura do mercado à carne bovina in natura brasileira. Neste mês, técnicos sauditas estiveram no país para visitar frigoríficos e fazendas e avaliar a atual condição dos estabelecimentos de carne bovina.

A figura 1 analisa a evolução da arroba do boi gordo em alguns estados brasileiros. O preço oscilou em alguns deles, como São Paulo, por exemplo, cujo valor negociado caiu de R$ 149 (valor médio negociado no início de maio) para R$ 148, média negociada na primeira quinzena de junho. Já em Minas Gerais, o preço médio da arroba segue firme, registrando negociações a R$ 138 (à vista). Analisando o deságio do preço do boi gordo por UF, no período de 14/05 e 15/06/2015, observa-se que a média do deságio pago aos pecuaristas entre o preço à vista e o preço a prazo (30 dias) foi de 1,28%.

O preço do bezerro continua em alta, sendo que, das oito praças pesquisadas no período de 14/05 a 15/06/2015, apenas o PR e o RS registraram queda, com preço do bezerro caindo para R$ 1.271,90/cab e R$ 1.080,38/cab, respectivamente. Em GO, o preço do bezerro manteve-se estável, a R$ 1.250,00/cab. No estado de SP, o valor médio passou a ser negociado a R$ 1.305,24/cab; em MG, su- Antony Sewell e Rita Marquete Boviplan Consultoria biu para R$ 1.078,57/cab; no MS, para R$ 1.310,48/cab; e no MT, avançou para R$ 1.175,24/cab.

O mercado do boi magro continua aquecido, registrando alta para as principais praças pesquisadas no período de 14/05 a 15/06/2015. A média da categoria foi negociada em SP a R$ 1.997,62/cab; em MG, a R$ 1.723,81/ cab; em GO, a R$ 1.987,14/cab; no MS, a R$ 1.990,95/cab; no MT, a R$ 1.779,05/cab; no PA, foi cotado a R$ 1.583,81/cab; no PR, passou a valer R$ 1.928,57/cab; e no RS, R$ 1.797,62,00/ cab.

Percebemos a forte valorização do bezerro e do boi magro; assim, o produtor tem pago preços mais altos na reposição do rebanho. No entanto, é incerto se ele conseguirá vender esses animais a preços atrativos, recuperando o que investiu.

Os índices médios de relação de troca (figura 2) entre as categorias de reposição e boi gordo ficaram em 1,91. Para boi magro/boi gordo, ficou em 1,24, não sofrendo alterações significativas.

Enfim, apesar do delicado momento econômico pelo qual atravessa o país, o cenário para a pecuária de corte ainda é positivo. A valorização do dólar e a abertura de novos mercados são fatores otimistas para melhorar as exportações no segundo semestre. Contudo, para o país continuar a se firmar como grande produtor de carne, é preciso avançar em produtividade. Para tanto, é necessário investimento em tecnologia, ter atenção ao controle sanitário e ao manejo adequado do rebanho.

Antony Sewell e Rita Marquete Boviplan Consultoria


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