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ONDA DE OTIMISMO

Cenário é favorável ao confinamento, que pode superar marcas históricas

Beth Melo

A pecuária extensiva tal qual conhecemos hoje está com os dias contados e um novo modelo de negócio focado na eficiência vem surgindo. O confinamento mostra força como uma ferramenta estratégica, apresentando vantagens como uniformidade na terminação dos animais e intensificação da produção. Analistas de mercado atribuem o sucesso da engorda intensiva ao planejamento, à boa conversão alimentar e ao uso de tecnologias modernas, o que inclui a utilização de máquinas eficientes para mistura e distribuição dos alimentos, além de técnicas de gestão e controle.

No entanto, o cenário atual é de baixa oferta de animais para abate, custo de reposição elevado e retração nas exportações de carne bovina, associado a um consumo interno baixo, em contraponto a uma remuneração da arroba em níveis satisfatórios. Em Goiás, que responde por 35% do total confinado no Brasil, há otimismo, mas existem dificuldades para encontrar boi magro. O Grupo Otávio Lage, que atua no estado há mais de 60 anos, tem capacidade estática de 20.000 cabeças e pretende confinar 25 mil animais em 2015. A estrutura da propriedade garante a comida no cocho e, para não ter sustos na reposição de animais, saiu às compras ainda no ano passado.

Gustavo Aguiar acredita que 2015 será um bom ano para o confinador

“Metade dos animais que abastece o projeto vem de outras propriedades do grupo, também localizadas em Goiás, onde acontece a cria e a recria. Uma terceira parte é adquirida de terceiros. Além disso, pequena parcela é fornecida por parceiros (no sistema de boitel ou de cobrança por arroba ganha)”, explica Fábio Maya, gerente de pecuária do Grupo que, além de fazer o ciclo completo da pecuária (cria, recria e engorda), produz genética Nelore e faz tricross com vacas meio-sangue inseminadas com touros Bonsmara, para a produção de Baby Beef.

A cria e recria de animais são feitas a pasto e a terminação, em confinamento, para atender alguns programas de qualidade de carne. Conforme Maya, depois de desmamados, os bezerros são recriados em pastagem e vão para a engorda intensiva com cerca de 18 meses, com peso por volta de 270 kg, por um ciclo de 110 dias. Ele informa que os lotes são separados por peso e frame (tamanho). “Esses dois critérios definem o tempo de confinamento”, resume.

Mercado em evolução

Pesquisa realizada pela Associação Nacional dos Confinadores (Assocon), prevê aumento de 7,65% na quantidade de animais confinados neste ano, para 4,47 milhões de cabeças, ante os 4,16 milhões da temporada anterior. A Agroconsult projeta crescimento de até 9%, para 5,01 milhões de cabeças, com base na estimativa da intenção anterior ao Rally da Pecuária de 2015.

“O cenário atual é favorável, com bom custo operacional do confinamento, entretanto, há dificuldade no boi magro, para quem precisa comprar animais. Tem havido maior procura por parcerias (como o boitel) e produção de animais próprios”, informa Bruno de Jesus Andrade, gerente-executivo da Assocon.

O zootecnista Rafael Ribeiro de Lima Filho, analista e consultor de mercado da Scot Consultoria, também aposta na evolução do número de animais confinados no País, para 4,5 milhões/5 milhões de cabeças. “Os preços do boi gordo no mercado futuro indicam que 2015 será um ano de receita positiva, porém, de margem apertada”, prevê e acredita que pequenas variações no valor da arroba podem ocasionar grande impacto na lucratividade, tanto para cima como para baixo.

Outro zootecnista e consultor da Scot, Gustavo Aguiar, igualmente acredita que o confinamento aumentará nos principais estados confinadores (MT, GO, MS, MG e SP), mas em uma taxa não muito alta. “Dentre estes, Mato Grosso é o que detém a melhor relação de troca entre o boi gordo e o magro. Além disso, a boa disponibilidade de grãos da safrinha é outro fator que beneficia o mato-grossense.” Para os demais estados, ele visualiza a expansão da atividade em patamares mais controlados, em função da maior dificuldade de aquisição e dos preços da reposição. “Para São Paulo, Mato Grosso, Minas Gerais e Goiás, as relações de troca estão mais apertadas, em consequência dos altos preços do boi magro em relação ao gordo”, analisa.

Gargalo

Ribeiro também concorda que o principal gargalo neste ano é o preço alto do boi magro. Em São Paulo, a referência está em R$ 2 mil por cabeça para o animal Nelore, segundo a Scot Consultoria. “As altas de preços dos animais de reposição superaram a valorização da arroba do boi gordo”, afirma.

Aguiar comenta que, em meados de junho, eram necessárias 13,5 arrobas de boi gordo para a aquisição de um boi magro (12 arrobas), em São Paulo, ou seja, 10,1% a mais em arrobas em relação ao mesmo período do ano passado (12,3 arrobas por boi magro). “Somente em seis meses do histórico mensal, desde abril de 1996, a relação de troca foi mais desfavorável do que a verificada em junho de 2015. A média, desde 1996, é de 12,1 arrobas por boi magro, e a pior relação do período foi de 14,3 arrobas por boi magro, registrada em outubro de 2009”, compara.

A reposição dos animais (boi magro), sem dúvida, é um grande entrave, concorda com a opinião de outros analistas o engenheiro-agrônomo Paulo Moraes Ozaki, analista de Bovinocultura de Corte do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea). “Apesar de o preço do boi gordo ter crescido 19,1% em um ano, o valor da reposição aumentou 27,1%”, frisa.

Outro ponto que merece atenção nesta entressafra, de acordo com Ribeiro, é a situação dos frigoríficos e as vendas de carne. “Embora o preço da arroba deva subir, a situação econômica limita o repasse imediato dessas altas para a carne, o que compromete a margem do frigorífico e, de certa forma, impõe um limite para a valorização do boi gordo”, explica e lembra que já são 19 os frigoríficos parados em 2015, plantas de pequeno a grande portes.

Oportunidades

No entanto, mesmo com algumas condições adversas, Ribeiro vislumbra boas oportunidades para o confinador. “Quem fez o planejamento correto, seja na compra de insumos ou de animais para engorda, terá resultado econômico positivo”, avalia. “Essa margem, porém, deve variar conforme as estratégias adotadas. Por exemplo, o pecuarista que tem o ciclo completo e não depende da compra de boi magro no mercado deve ter um resultado melhor”, explica.

A reposição de animais é, sem dúvida, um grande entrave ao confinador, aponta Ana Cláudia Ambiel

Ele destaca a importância da análise da atividade e dos fatores envolvidos, do acompanhamento diário do mercado e do uso de ferramentas de proteção de preços como o mercado futuro ou venda a termo.

Na opinião de Aguiar, os pecuaristas que têm acesso a dietas de baixo custo e não dependem da reposição (que utilizam o confinamento de forma estratégica) terão melhores resultados. “Para esses, principalmente no segundo caso, a arroba do boi gordo em patamares historicamente altos deve proporcionar um resultado interessante, embora a margem média do confinamento não esteja favorável este ano”, pondera.

Conforme Ozaki, do Imea, os preços futuros indicam alta remuneração para os meses de maior entrega de animais provenientes de confinamento (setembro, outubro e novembro), na casa dos R$ 153,00 a arroba (São Paulo). “Por outro lado, os custos também estão mais altos, ou seja, aqueles produtores que fizerem melhor controle dos seus gastos e tiverem maior eficiência nos processos conseguirão margens mais altas.”

Por sua vez, Ribeiro menciona outro fator positivo: os preços dos alimentos concentrados estão pesando menos no bolso. “O poder de compra do milho e farelo melhorou bastante frente a 2014, com quedas nos preços e valorização da arroba do boi”, comenta. No caso do milho, a relação é de 1,5 saca a mais adquirida com o valor de uma arroba de boi gordo, em um total de seis sacas de milho por arroba de boi gordo. Para o farelo de soja, a relação está próxima de sete arrobas por tonelada, aproximadamente 2,5 arrobas a menos que em junho de 2014.

Levantamento da Scot Consultoria, na região de Campinas/SP, revela que o milho estava custando R$ 24,50 por saca, para entrega imediata em junho deste ano, 6,4% menos que no ano passado. Já o farelo de soja estava cotado em R$ 1.015,00 por tonelada em São Paulo, 10,6% menor.

De acordo com Ribeiro, a disponibilidade interna de milho é grande e deve aumentar em curto e médio prazos, com o avanço da colheita da safrinha. “A pressão de baixa deve continuar, porém, com intensidade menor, já que em algumas regiões os preços se aproximam do valor mínimo”, prevê. Quanto à soja, ele diz que os estoques mundiais mais confortáveis diminuem a pressão sobre os preços. “O que tem mexido com as cotações no mercado brasileiro são as oscilações do dólar em relação ao real. Os olhares seguem atentos também ao clima nos Estados Unidos, onde as fortes chuvas prejudicaram as lavouras em algumas importantes regiões produtoras.”

O fato de a pecuária brasileira perder espaço para as lavouras e o rebanho brasileiro continuar diminuindo ano a ano também está favorecendo a atividade do confinamento. “Na verdade, essa tendência reflete a busca do produtor por uma maior rentabilidade do negócio. Cada vez mais, as fazendas investem em ambos, agricultura e pecuária, na tentativa de ter mais de duas safras por ano, fazendo com que a área da fazenda sempre produza algo, seja soja, milho, boi, algodão ou qualquer outro produto agropecuário”, explica.

O confinamento é uma atividade de rotina e o boi gosta disso

Ozaki, do Imea, informa que a área de pastagem em Mato Grosso representa 27% do total e a de agricultura, 9%. Dos 27%, grande parte tem algum grau de degradação e é utilizada de forma extensiva pela bovinocultura tradicional. A tendência, explica, é que a área de agricultura avance sobre as de pastagem, exercendo certa pressão sobre os pecuaristas que possuem terras próximas às lavouras, em relação ao aumento da produtividade e da rentabilidade.

Em 2014, o gado bovino confinado no Mato Grosso representou apenas 2,2% do rebanho total do estado (636,6 mil cabeças de 28,47 milhões). “Ainda há um grande espaço para crescer.” O primeiro levantamento das intenções de confinamento realizado pelo Imea, em abril, estimou o número de animais confinados em 789,66 mil cabeças em 2015, 24% acima da temporada anterior.

Modelo ideal

Na opinião do engenheiro agrônomo Daniel de Castro Rodrigues, supervisor de projetos da Coan Consultoria e da Agrovisão Consultoria, não existe um modelo único para o confinamento e sim características específicas de mercado, infraestrutura, logística, capacidade de investimento e, em alguns casos, condições climáticas que determinarão qual situação trará melhores resultados ao produtor.

Ele lembra que o confinamento de 2015 começou com o plantio da safra passada (grãos e volumosos). “Ou seja, as grandes empresas trabalham com operações estruturadas de mercado, com vendas antecipadas e travamentos de preços. São verdadeiras indústrias produtoras de carne”, descreve.

Rodrigues considera o confinamento estratégico uma ferramenta muito interessante para a maioria dos pecuaristas. “Permite retirar os animais do pasto em um período em que a oferta ambiental (água, luz e temperatura) não é favorável ao crescimento das gramíneas na maioria das regiões do País”, explica. Outro ponto a se observar, segundo ele, é a possibilidade de se transformar grãos em carne. “Em determinadas situações de mercado (como a atual), com grande valorização da arroba e certa estabilidade no preço dos grãos, essa pode ser uma excelente alternativa para aumento da rentabilidade”, avalia.

O consultor destaca diversas tecnologias disponíveis para quem optar pelo confinamento estratégico, como dietas sem uso de volumoso, confinamento a pasto e semiconfinamento. “Cabe ao produtor, juntamente com o profissional da área, estudar a melhor alternativa para a propriedade, o nível de investimento necessário, o tipo de animal ideal e as necessidades de insumos e equipamentos.”

O confinamento é uma atividade de rotina e o boi gosta disso

Gado

“Independentemente da raça ou do cruzamento, o importante é ter animais que correspondam ao sistema do confinamento, ou seja, que apresentem bom desempenho de ganho de peso em período de tempo adequado”, salienta Ozaki, do Imea.

Na visão de Rodrigues, animais de genética superior, selecionados para ganho de peso e precocidade, além de cruzamentos entre raças taurinas e zebuínas, apresentam desempenho superior e melhor qualidade de carne produzida. “O melhor animal é aquele que traz mais lucro, seja Nelore, Angus, cruzados ou puros, portanto, devemos analisar as oportunidades de compra de gado comercial, buscando identificar características favoráveis para ganho de peso”, analisa.

Para Rodrigues, no caso da recria dos animais a pasto, o ideal é que o bezerro desmamado tenha peso superior a 300 kg (10 arrobas) para entrar na engorda intensiva. “Com o uso de corretivos e fertilizantes, suplementos alimentares, aditivos e outras tecnologias é possível um animal desmamado de 180 kg (6 arrobas) superar 300 kg em seis a sete meses de recria”, exemplifica.

O analista da Coan afirma que quanto maior o lote de gado dentro do curral, maior a heterogeneidade e a formação de um processo hierárquico. “Os animais dominantes acessam primeiro os cochos e permanecem mais tempo se alimentando, enquanto os dominados acabam por se alimentarem menos e são perseguidos dentro do curral”, informa. Nesse sentido, ele sugere a formação de grupos de 60 a 120 animais, apartados com base em características como sexo, idade, peso inicial, raça e precocidade. “Jamais, misturar machos com fêmeas, gado leve com pesado, idades discrepantes, além de evitar a inclusão de novos animais no grupo”, avisa e continua: “não se deve ‘descascar’ os bois dominantes, pois isso só trará mais confusão e brigas”, ensina.

De acordo com Rodrigues, a formação de lotes menores e homogêneos reduz a sodomia. “Vale lembrar que os animais sodomizados sofrem com perda de peso, lesões nos cascos, na pele e até mesmo quebradura de membros”, diz. “A castração minimiza, mas não soluciona por completo o problema. Em muitos casos, é necessário retirá-los do curral e formar um lote extra.”

Estrutura

“Cada projeto tem particularidades, como dimensão, material, localização e construção dos currais, cochos, barracões, corredores, estrutura hidráulica, maquinário, tratamento dos dejetos, etc.”, enumera o gerente-executivo da Assocon.

“O confinamento é uma atividade de rotina e o boi gosta disso, assim, se vamos confinar 100 ou 1.000 animais, precisamos nos preparar para alimentá- los na hora correta e assegurar que o manejo não cause perturbações desnecessárias”, acrescenta Rodrigues. Com a tecnologia disponível e o correto acompanhamento nutricional, ele garante que é possível engordar bois sem o uso de volumosos, com dietas bem adensadas, o que reduz bastante a necessidade de estruturas como fábricas de rações, grandes armazéns e pátios de silagem. No entanto, em regiões com boa oferta de grãos ou quando se consegue ser eficiente na produção agrícola e nos processos de integração lavoura-pecuária, ele diz que é importante investir em estruturas de armazenagem e fábricas de ração. “Estamos conseguindo reduções de até 30% nos custos com alimentação devido à integração lavoura-pecuária e nutrição aplicada”, ilustra.

Para evitar o acúmulo de barro e diminuir a formação de buracos perto dos cochos, que dificultam a alimentação dos animais, Rodrigues sugere a concretagem do piso com 1,80 a 2 metros de largura, acompanhando a linha de cocho, e o uso de cascalho no restante do curral, além de estabelecer um desnível no piso para facilitar o escoamento da água de chuva. Também indica um plano de contenção, além de respeitar a área disponível para alocação dos bovinos, não colocando mais animais do que o previsto.

Normalmente, segundo o analista da Coan, os corredores variam de 8 a 12 metros de largura e devem permitir acesso a todos os currais para facilitar operações de manejo, saída e recondução do gado à origem. Mas, primeiro, explica, deve-se estudar a topografia do terreno para estabelecer a direção dos corredores, evitando problemas de erosão e manutenções constantes.

O formato dos piquetes deve levar em conta a área de cocho disponível e o perímetro mínimo de piquete por animal. De maneira geral, Rodrigues calcula que 30 cm a 40 cm de cocho por bovino confinado são suficientes. Entretanto, no caso de se confinar animais mais pesados, ele alerta para o fornecimento de ração, para não haver disputa no cocho. “Já o espaço pode variar de 8 m2 a 20 m2 por bovino, dependendo das condições climáticas da região e dos custos envolvidos nas instalações”, calcula.

Rodrigues considera imprescindível a aquisição de maquinário para servir a ração, “a não ser que o confinador apenas utilize dietas sem volumoso, o que, em determinadas situações de mercado, não é interessante”. Em razão da carência de mão de obra no campo, ele diz que e a nutrição não pode ficar apoiada somente no trabalho braçal. “O mínimo necessário seria um trator e um vagão forrageiro ou misturador”, dimensiona.

Dieta

“A chave para conseguir bons resultados no confinamento de bovinos de corte está relacionada ao bom manejo de cocho. Saber o consumo de cada baia é fundamental para evitar desperdícios”, afirma a professora Ana Cláudia Ambiel, coordenadora do curso pós-graduação em Nutrição de Bovinos de Corte em Confinamento da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste). “É preciso planejar a dieta com antecedência e realizar as compras de insumos em épocas favoráveis, tentando reduzir ao máximo o custo”, orienta.

Ana lembra que as exigências nutricionais dos animais são muito variáveis, dependendo da raça, sexo, peso, entre outros fatores, e não existe receita mágica quando se trata de formulação de dietas. “Cada dieta deve se basear nas necessidades do confinamento, na disponibilidade de insumos, sempre procurando usar ingredientes próximos à região para diminuir os custos com frete, e, se possível, utilizar fontes alternativas de alimentos”, pondera.

Ela ressalta os benefícios do uso de aditivos alimentares na engorda intensiva. “Praticamente todos os confinamentos brasileiros acrescentam algum aditivo alimentar à dieta e a grande maioria (93,9%) utiliza os ionóforos como primeira alternativa”, revela. Ela destaca a monensina sódica, “que regula o consumo de massa seca, mantendo ou melhorando o ganho de peso, e contribui para o aumento de 6,4% na eficiência alimentar e outros de 2,5% no ganho de peso diário”.

A professora também acha necessária a suplementação com sal mineral e vitaminas e destaca a importância das fibras na ruminação, uma vez que elas estimulam o epitélio ruminal a fazer os movimentos peristálticos e, assim, retornar para a boca do animal, para serem novamente mastigadas. “Com o aumento desse processo, ocorre maior produção de saliva, que, por sua vez, possui bicarbonato e fosfato, responsáveis por manter o rúmen em uma faixa ideal de pH, contribuindo para o desenvolvimento dos microrganismos ali presentes”, comenta.

A professora alerta quanto ao risco das doenças causadas pelo balanceamento errado da dieta. Para ela, o principal problema é a acidose, que pode causar timpanismo e laminite. “A acidose ruminal resulta de falhas de manejo, como mistura inadequada, variação no fornecimento e na frequência de alimentação e cálculo errado do período de adaptação”, enumera.

O melhor animal é aquele que traz mais lucro para seu confinador, seja Nelore, Angus, cruzados ou puros

Manejo sanitário

No caso de animais recém-adquiridos, a sugestão de Rodrigues é utilizar um vermífugo de qualidade, respeitando o período de carência e a indicação do produto (ml por kg de peso vivo), além de obedecer o protocolo de vacinação seguido na região (aftosa, raiva, clostridioses...) “Realizar esse manejo de forma calma, evitando o surgimento de lesões na carne”, sugere.

Na opinião de Rodrigues, é importante minimizar o estresse dos bovinos no início do confinamento, o que ajuda na prevenção de doenças, inclusive as respiratórias, causadas pela poeira. “Ações como adaptação gradual à dieta, manejo racional dos animais e separação em lotes uniformes são medidas importantes para que o gado se adapte e comece a ganhar peso, além de reduzir a possibilidade de os animais ficarem debilitados e sujeitos a doenças”, enfatiza. “Temos implantado sistemas de aspersão de água para redução de poeira e conforto térmico dos animais, medidas que colaboram para reduzir a incidência de doenças respiratórias”, complementa.

Gestão

Andrade recomenda o treinamento da mão de obra com foco no controle dos processos. Os colaboradores devem entender a rotina do confinamento para executar os procedimentos operacionais conforme as especificações técnicas. Confinamento é rotina e, como tal, deve ter processos bem definidos”, enfatiza. Quando a tarefa é bem realizada, os animais saem melhor acabados e menos estressados, o que melhora a qualidade da carne. Cursos de capacitação como os da Assocon podem ajudar a entender essa “rotina”.

Segundo o economista Francisco Vila, diretor da SRB, no Brasil há 1,2 milhão de produtores de gado de corte e apenas uma pequena parcela confina. “Precisa ter máquinas, pessoal treinado, alimentação adequada e deve ser gerenciado como uma indústria, observando o custo fixo e variável que hoje está em torno de R$ 7,00/dia/boi. Cada dia além da conta representa perdas significativas”, adverte.

Considerando que a compra do animal equivale a mais de 70% dos custos totais de produção, além dos gastos com alimentação, que também são altos, Vila sugere planejamento na ocupação, de preferência em dois turnos por ano (duas temporadas de confinamento). Além da utilização de máquinas adequadas, ele recomenda a calibração das dietas, combinando insumos disponíveis na região, perfil e composição dos lotes. “Deve-se realizar o planejamento minucioso dos processos, para reduzir perdas, além de fazer o controle diário do consumo de alimentos, que varia na entrada do confinamento conforme o clima, a composição racial e o peso dos diversos lotes, assim como a divisão da alimentação em duas a três vezes por dia”, indica.

“Vale lembrar a diferença entre o confinamento profissional (boitel) e o estratégico (para acabamento de carcaça). O boitel é como você levar seu filho para uma creche, já o estratégico, é como se você chamasse a avó para cuidar. Ou seja, o primeiro é mais caro, pois oferece serviço completo e feito por profissionais”, exemplifica.

De acordo com o diretor, softwares específicos ajudam nessa tarefa e no acompanhamento da curva de crescimento dos animais. “Um confinamento sem computador é como um agricultor sem trator”, brinca. Em um futuro próximo, cada animal receberá um chip, provavelmente interativo, para emitir informações contínuas ao computador que assim conseguirá formar lotes mais homogêneos e dosar o manejo e a alimentação de forma inteligente. “Mais adiante, serão robôs que fornecerão a comida sob encomenda, como já ocorre em algumas propriedades leiteiras no exterior”, vislumbra.

Ele também recomenda a proteção do negócio por meio de hedge na Bolsa de Mercadorias & Futuros, mercado a termo ou opções. Na visão do consultor, a gestão de risco é fundamental, devido ao alto custo da operação, daí a importância de travar o preço na bolsa, o que vale não apenas para os boitéis, mas também para o confinamento estratégico. “A blindagem na bolsa evoluiu muito com a introdução da opção. Essa solução, mesmo sendo um pouco mais cara, evita a reserva de caixa necessária para assegurar o ‘ajuste diário’ da blindagem tradicional. Além disso, a opção preserva a possibilidade de ganhar mais quando o preço real ultrapassa o preço futuro travado”, justifica.


Uso da água no confinamento exige planejamento técnico

Tiago Fernandes, diretor técnico da Irrigaboi Consultoria e Projetos, afirma que até pouco tempo pouca atenção era dada às instalações hidráulicas quando se pretendia implantar um confinamento no Brasil.

Para garantir o fornecimento contínuo de água aos bebedouros, ele recomenda, primeiro, conhecer a capacidade estática final que poderá ser atingida e, a partir daí, calcular o volume diário necessário de água para consumo animal, o controle da poeira e as atividades afins do projeto.

“Com o cálculo do volume de água total consumido por dia de operação, pode-se verificar se a fonte é capaz de atender ou não a demanda”, comenta. Para o abastecimento do gado, alerta ser necessário calcular o pico de consumo, pois, devido a fatores ambientais e zootécnicos, exige uma grande vazão das tubulações em determinados horários do dia, o que pode ser mostrado no levantamento planialtimétrico da área do confinamento.

Questão de bem-estar

A poeira gera um risco permanente de doenças respiratórias, por esse motivo o controle deve ocorrer em caráter preventivo, demandando uma boa parte da água do reservatório.

O mais indicado é a instalação de aspersores, pela facilidade na instalação, o fato de ser menos exigente em manutenção e promover maior conforto térmico aos animais.

“Em geral, são gastos, por animal, de 28 litros a 36 litros, por dia de irrigação, ambos com área de cobertura superior a 75% dos currais”, calcula Fernandes. Ele também sugere o uso de automação para o controle da poeira, pois confere maior eficácia nas operações diárias, evitando-se desperdícios de água, cumprindo tarefas no menor tempo possível.

Programar o reabastecimento do reservatório de água à noite pode gerar economia de até 70% na conta de energia elétrica.


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