Leite

 

DUPLA APTIDÃO em benefício dos rebanhos leiteiros

Rodrigo Coutinho Madruga

O modelo do sistema de dupla aptidão apresenta a característica de se adequar aos momentos menos favoráveis da economia para a carne ou para o leite. O produtor pode direcionar para qual mercado produzirá, desde que trabalhe com animais com tais características funcionais de produção.

O pecuarista, hoje, deve produzir bem e com qualidade, buscando o lucro, o bem-estar animal e, principalmente, o respeito ao meio ambiente e não apenas maximizar a produção. Nesse contexto, também se enquadram os animais de dupla aptidão e seus cruzamentos com raças especializadas, que além de gerar vantagens econômicas, apresentam rusticidade e adaptabilidade.

As condições climáticas brasileiras contribuem para diversidade genética empregada nos mais diversos sistemas de produção de leite, resultando em diferentes produtividades dos rebanhos, diferença essa ligada diretamente com a interação genótipo- ambiente, tendo sido o principal motivo para o uso de mestiços bos taurus x bos indicus na pecuária leiteira nacional.

No Brasil, uma boa parcela dos produtores utiliza animais zebuínos e/ou seus mestiços para a produção de leite, sendo que machos e fêmeas excedentes e vacas de descarte são comercializados em frigoríficos.

O cruzamento das raças zebuínas com raças leiteiras de origem europeia vem sendo bastante utilizado, devido aos sérios problemas de adaptação dos animais puros de raças especializadas sob condições tropicais (sofrem com estresse térmico, baixa qualidade dos alimentos, manejo inadequado, parasitas, etc.), que, em muitos casos, inviabilizam a produção.

O uso de animais cruzados não garante o sucesso econômico do produtor sem o prévio conhecimento de suas potencialidades e limitações, podendo ocorrer erros de manejo na utilização de tecnologias inapropriadas ao grupo genético.

Sindi vem ganhando espaço entre as raças duplo propósito

A seleção simultânea para produção de carne e leite e o desenvolvimento de programas de melhoramento que satisfaçam ambos os objetivos podem ser importantes para o melhoramento dessas raças e para considerável parte dos criadores em nosso País.

Na maioria das propriedades rurais, tanto a venda de animais para o corte, quanto a produção de leite representam parte economicamente significativa nas fazendas leiteiras. Percebe-se, então, que, maiores conhecimentos sobre os sistemas de produção de duplo propósito ainda são necessários, principalmente para auxiliar na definição de objetivos e índices econômicos de produção.

Países latino-americanos e de clima tropical utilizam bem o sistema de duplo propósito. O uso de genética zebuína x raças leiteiras europeias especializadas tem boa aplicação no México, na Colômbia, na Costa Rica e na Venezuela, entre outros países.

A importância dos bezerros de corte na renda dos sistemas leiteiros foi observada em sistemas de sucesso na Colômbia e na Nova Zelândia, que têm como base o comércio de fêmeas F1.

No México, o sistema de dupla aptidão é predominante na região tropical úmida, contando com 2,4 milhões de vacas, sendo 60% dedicados à produção de leite. Esse sistema representa 19,5% do leite e 40% da produção de carne. Utiliza-se um sistema rotacionado de cruzamento de duas raças, alternando-se duas gerações de touros de raças especializadas e uma de touro de raças zebuínas.

Na Colômbia, 83% do território estão no baixo tropical. Também é onde a maior parte do sistema de produção com bovinos de dupla produção (SPBDP) está localizada. Relatos confirmam que o SPBDP corresponde a 93% do rebanho da Colômbia e a 50% da produção leiteira. Utilizam, principalmente, cruzamentos bos indicus (geralmente entre animais com elevada proporção de Brahman, Gir ou Guzerá) e bos taurus, especialmente Holandês Vermelho e Pardo-Suíço

Rodrigo Madruga acredita no potencial das raças de dupla aptidão na atividade leiteira

Estamos observando que uma boa parcela de países latino-americanos vem utilizando a genética zebuína em cruzamentos com raças europeias especializadas e podemos afirmar que a grande maioria dessa genética zebuína é originada do Brasil. Pecuaristas brasileiros foram audazes em buscar bovinos rústicos e produtivos na Índia, no final do século XIX, e ao longo de todo século XX aprimorou agenética.

Estamos falando das raças zebuínas, das quais, nesses anos todos, podemos citar o Nelore (corte), o Gir (leite) e duas de dupla aptidão, sendo uma totalmente provada, com dados de produção de carne (peso) e leite no banco de dados do PMGZ da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), que é o Guzerá, e outra que começa a despertar interesse: o Sindi, que também participa do PMGZ/ABCZ, demostrando muita precocidade de acabamento nas provas de ganho em peso.

Esses são os bovinos que vieram da Índia e aqui se desenvolveram e formaram outras raças como o Tabapuã e o Indubrasil. Dentro do Guzerá, além dos rebanhos de dupla aptidão, existem os especializados na produção de carne e outros na de leite, não havendo diferenças de “tipo racial” entre as distintas “correntes de seleção funcional”. As diferenças de objetivos econômicos regionais e mercadológicos de cada vertente são respeitadas.

Os programas de melhoramento do Guzerá foram delineados de forma a atender a todos os perfis, sem dividir a raça em subgrupos. Os perfis são conectados geneticamente e permitem participação diferenciada apenas nas avaliações para leite ou carne, mas também pode ocorrer a avaliação em ambas simultaneamente. Assim, apesar da existência de rebanhos especializados na produção de carne ou de leite, o Guzerá, como um todo, é uma raça de dupla aptidão, conforme os modernos conceitos genéticos.

No Brasil, desde a sua introdução, o Guzerá vem sendo utilizado para a produção de carne e leite, embora o trabalho de seleção leiteira tenha se intensificado apenas no início da década de 1990. Em 1994, foi iniciado o teste de progênie para leite na raça, assim como um esquema do núcleo Moet (Multiple Ovulation and Embryo Transfer) aberto de seleção para dupla aptidão.

Já o Sindi vem apresentando características econômicas e produtivas como precocidade de crescimento e sexual, habilidade materna, com uma desmama lucrativa; produção de leite para as crias e venda, viabilizando que pequenas e médias propriedades entrem na atividade comercial com rentabilidade, além de permitir excelentes resultados no confinamento. Apresenta precocidade de terminação de carcaça e bons ganhos em rendimento de carcaça, como já foi demonstrado em alguns abates com acompanhamento técnico.

O Indubrasil, formado a partir dos cruzamentos entre o Gir, Guzerá e Nelore, foi desenvolvido para ser uma grande opção para a pecuária tropical. As vantagens econômicas e produtivas na utilização da raça fizeram com que muitos países como México, EUA, Austrália e Tailândia - a maioria de clima tropical e subtropical - venham a apostar nele, na produção de mestiços mais produtivos e muito apreciados nos confinamentos.

Na pecuária leiteira, as fêmeas mestiças são muito desejadas devido à adaptação a todos os climas, ao regime alimentar, ao manejo e ao bom desempenho a pasto. E por se adaptarem aos sistemas semi-intensivo e intensivo, os machos são um bom produto para o corte.

O uso de raças zebuínas para duplo propósito que participam de programas de melhoramento genético credencia a utilização dessa genética nos mais diversificados sistemas de produção de nosso país. Até mesmo nos menos especializados, com pouco ou nulo acesso à tecnologia.

A pesquisa está atenta para essa parcela de pequenos e microprodutores, que é bastante significativa. Sugiro, e vale conhecer, o trabalho de pesquisadores da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado de Minas Gerais (Epamig), em Felixlândia. Eles estão estudando e já têm resultados que comprovam que a genética de raças de dupla aptidão gera produção satisfatória de leite por animal, além do mesmo conter teores satisfatórios de sólidos totais, gordura, proteína e lactose. E tanto machos como fêmeas apresentam uma boa conformação corporal para peso.

Atualmente, a produção não se baseia em um único modelo. Existe um número muito maior e variado de sistemas de produção, desde os especializados e intensivos aos não especializados e “orgânicos”. Todos eles devidamente analisados pela pesquisa.

Com base nas afirmações de muitos pesquisadores e na existência de entidades oficiais de pesquisa envolvidas na busca de respostas sobre o retorno gerado pelos animais de dupla aptidão, é possível avaliar positivamente seus benefícios, principalmente em regiões de clima adverso como o semiárido nordestino.

O Brasil é um país continental, a sua diversidade cultural de produção e climática permite o uso dessa genética, principalmente daquelas raças que participam de programas de melhoramento genético.

Rodrigo Madruga é engenheiroagrônomo e técnico da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu em Natal/RN