Feno e Silagem

  

Planejando a ENSILAGEM

Quanto menor for o tempo para colher, picar, transportar, descarregar, compactar e vedar o silo, mais eficiente será e maior qualidade terá

Antony Hilgrove Monti Sewell

Ao longo do período chuvoso, quando as pastagens atingem o máximo do seu potencial produtivo e qualidade nutricional, os animais são prioritariamente mantidos em regime de pasto, pois o seu desenvolvimento nessas condições é muito mais econômico. Na época da seca, no entanto, as forragens apresentam uma forte queda na sua produtividade e qualidade, a ponto de comprometer, de maneira rigorosa, o desempenho dos animais, causando problemas bastante conhecidos, como perda de peso, falta de cio, queda de produção de leite, retardamento na idade de abate, etc. Felizmente, existem alternativas para que os problemas advindos da escassez de alimentos na seca sejam evitados.

Uma dessas alternativas é a suplementação volumosa, tanto a pasto como em confinamento, sendo que as formas mais comuns de fornecimento desse volumoso são as capineiras, a cana-de-açúcar picada e as forragens conservadas.

Cada uma das alternativas citadas anteriormente deve ser utilizada de acordo com o tipo do sistema de produção existente (seja cria, recria, engorda ou ciclo completo), infraestrutura disponível, condições edafoclimáticas da região, tamanho da atividade, lotação das pastagens, preços de insumos regionais, etc. No entanto, quando se fala em intensificação da atividade pecuária, na qual são esperados grandes aumentos na lotação das pastagens ou na produção de leite, a solução mais econômica ainda é a ensilagem.

Trata-se de uma técnica relativamente simples, de fácil assimilação por parte dos pecuaristas. No entanto, o planejamento para a sua elaboração deve ser feito com muita antecedência e cuidado. Todos os detalhes devem ser examinados exaustivamente, pois qualquer falha na condução do processo certamente levará a resultados insatisfatórios, tanto do ponto de vista técnico como financeiro.

Existe uma diferença de 10% na média de produção de matéria seca entre o milho e o sorgo

A primeira pergunta que o pecuarista precisa fazer é a seguinte: eu tenho de fornecer volumoso ao meu rebanho? Respondida essa questão e estabelecidos os objetivos para sua produção, entramos na fase mais importante de toda e qualquer atividade: o seu planejamento, que se inicia pela escolha da forragem a ser implantada.

Para tanto, é necessário que o produtor esteja consciente das condições edafoclimáticas disponíveis em sua propriedade. Da mesma forma, deve primeiro definir a demanda por volumoso, tanto qualitativa como quantitativamente, antes de escolher o local para o plantio. Para que isso ocorra, é fundamental que o produtor tenha em mente respostas para outros questionamentos:

  • Qual o objetivo do fornecimento do volumoso: manutenção, recria, engorda e terminação, produção de leite ou outros?
  • Qual a categoria animal e por quanto tempo a mesma será suplementada e qual o nível de inclusão do volumoso na dieta total?
  • Qual a infraestrutura necessária para cada tipo de forrageira?
  • Quais serão as consequências da escolha sobre os demais setores da propriedade?

A escolha do volumoso a ser ensilado pode ser determinada pelo objetivo da suplementação, dependendo da exigência qualitativa do sistema de produção. Em sistemas em que o objetivo é o alto desempenho individual, ou seja, ganhos de peso elevados ou alta produção de leite por vaca, exige-se volumoso de alta qualidade nutricional, como a silagem de milho ou de sorgo. Portanto, nesses casos, define-se o volumoso pelo valor nutricional.

Em confinamentos de engorda e terminação, a utilização de silagens de milho e sorgo podem se tornar inviáveis economicamente. Para esses casos cana- -de-açúcar ou de capim são normalmente mais vantajosas, assim como para a suplementação a pasto de categorias de menor exigência nutricional.

O prévio conhecimento do peso vivo médio dos animais que serão arraçoados em confinamento, bem como o peso de abate estabelecido para os mesmos ou a produtividade em quilos de leite por vaca, define a quantidade de volumoso que deverá ser conservada para atender o sistema proposto. A partir do volume total a ser produzido determina-se o tamanho da área necessária, de acordo com as características agronômicas da variedade escolhida. Cada cultura forrageira possui um potencial diferente de produtividade por área, o que significa que a escolha por uma forragem de menor potencial produtivo poderá vir a exigir uma área muito maior do que uma cultura com maior potencial de produção.

Devido à diferença de produtividade entre a silagem de milho (35 a 40 t de matéria verde por hectare) e a cana- -de-açúcar (média de 100 t de matéria verde por hectare em cinco cortes), por exemplo, percebe-se que a exigência em área para o plantio de milho é muito maior para atender a mesma quantidade de forragem produzida. Outro fator a ser levado em consideração é a perenização da produção: as variedades de capins para ensilagem não precisam de reformas, enquanto o milho e o sorgo devem ser plantados todos os anos e a cana-de-açúcar depende de reformas periódicas (a cada cinco ou seis anos).

A opção entre a silagem de milho e a de sorgo depende da aptidão do material às condições da propriedade. Ambos são plantados em linha, por sementes, com o mesmo tipo de plantadora, de preferência em plantio direto. A vantagem do sorgo está na produtividade, pois essa cultura permite uma rebrota produtiva, que pode aumentar a produção total em até 40%; com isso, a produção do sorgo pode chegar a 50 t de matéria verde por hectare, contra as 40 t do milho mencionadas anteriormente.

Quanto ao valor nutricional, considera- -se que o sorgo seja 10% inferior ao milho; assim, admite-se um valor por tonelada produzida de sorgo 10% abaixo da do milho. Até esse limite, e em condições de igualdade de condução da lavoura em função das características da propriedade, é vantajoso o plantio do sorgo para ensilagem.

A opção mais produtiva é, sem dúvida alguma, o capim-elefante. Em condições de sequeiro essa espécie chega a produzir 160 t de matéria verde por hectare. É perene; no entanto, é uma cultura de difícil condução. Devido ao seu perfilhamento, com o passar dos anos pode ocorrer o entouceiramento das plantas, dificultando a colheita. Nesses casos, há a necessidade do replantio da área. O plantio do capim-elefante é semelhante à cana-de-açúcar e é feito de forma manual, o que torna mais demorada e onerosa essa operação.

A opção pela silagem de capins tropicais é interessante para o pecuarista, que já tem afinidade com essas espécies. Evidentemente, o manejo será diferente dos capins destinados ao pastejo, mas o comportamento das lavouras é semelhante. Variedades de Pannicum, como mombaça e tanzânia, por exemplo, chegam a produzir 90 t de matéria verde por hectare em condições de sequeiro, em três cortes anuais. Em condições de irrigação, essa produção pode chegar a 150 t por hectare, em cinco cortes. Vale dizer que a irrigação aumenta a produtividade de todas as opções citadas anteriormente. Para definir se vale a pena ou não irrigar, um estudo de viabilidade bastante criterioso deve ser elaborado.

Trincheira é a forma mais comum de armazenamento da silagem

Outras opções, como silagem de girassol, silagem de grãos úmidos, silagem de resíduos de culturas anuais, tratamento de resíduos da agroindústria, etc., devem ser estudadas, pois em determinadas condições podem ser mais vantajosas que as opções tradicionais, em função da localização da propriedade, mercado, clima e outras.

Cada volumoso demanda um tipo e uma quantidade diferente de máquinas e equipamentos para o plantio, a condução da lavoura, o corte, o transporte e a ensilagem. Assim, a necessidade do maquinário vai variar conforme o material escolhido. Como parte do planejamento para a introdução da forragem para a conservação, deve se definir o equipamento necessário (colhedoras, tratores, veículos de transbordo, etc.), a fim de verificar a viabilidade do investimento. Nesse planejamento, não pode faltar um levantamento cuidadoso do orçamento de aquisição das máquinas, pois variam muito quanto ao valor de compra, conforme cada tipo de volumoso. Os equipamentos que serão adquiridos devem ser compatíveis com os demais processos mecanizados e máquinas já existentes na propriedade, na medida do possível, para permitir a diluição dos custos de investimento.

Muita cautela na compactação, pois a entrada de ar acelera o processo de fermentação e reduz a qualidade da silagem

Cada tipo de forragem para ensilagem possui sua época própria para o plantio, os tratos culturais e a colheita. No momento da escolha do volumoso, essas informações precisam ser do conhecimento de todos, de forma a evitar um confronto de datas com as demais operações mecanizadas já da rotina da propriedade. Da mesma forma, é necessário um planejamento bastante rigoroso para a aquisição dos insumos que serão utilizados no processo, como sementes ou mudas, corretores de solo, fertilizantes, defensivos agrícolas, combustíveis, peças de reposição para as máquinas e equipamentos, inoculantes e lonas para a cobertura dos silos. Assim, um cronograma físico das atividades ao longo do ano carece ser elaborado e fixado em local de fácil acesso e visibilidade; os responsáveis pela condução de todo o processo devem estar atentos à disponibilidade dos recursos operacionais necessários a cada momento na propriedade.

Em propriedades em que o sistema de produção baseia-se na integração lavoura e pecuária (ILP), a introdução do volumoso pode vir a colaborar em vários aspectos: controle de pragas, rotação de culturas, formação de áreas para pastejo de inverno (época seca) e produção de palha para o plantio direto.

Enfim, a escolha da forrageira a ser processada deve ser planejada de forma a integrar o sistema de produção da propriedade de maneira sinérgica, bem como ser definida de acordo com o tipo de demanda, não só quantitativa, mas também qualitativa.

A área de corte onde a forrageira será estabelecida deve estar localizada o mais próximo possível dos silos de armazenamento e das áreas onde será feita a distribuição da ração ou da suplementação a pasto. Assim, os custos com o transporte da forragem picada e a necessidade de carretas ou caminhões de transbordo serão menores. Em alguns casos os silos podem estar localizados na própria área de corte. No entanto, esse procedimento complicará a rotina de trato dos animais, bem como aumentará o desgaste e o risco de quebra do vagão distribuidor de rações, devido à maior distância a ser percorrida.

Áreas de boa fertilidade, planas e sem recortes, são mais recomendáveis, pois reduzem a necessidade de adubação e de manobras excessivas, tanto no plantio como nas operações de cultivo, aplicação de defensivos e na colheita. Talhões que apresentam maior fertilidade aumentam as chances de melhores resultados em produtividade, bem como necessitam de menor investimento inicial na correção do solo. O investimento em fertilidade é necessário, mas é oneroso; no entanto, sem ele não se consegue atingir resultados positivos que, muitas vezes, podem levar anos até que se consiga.

Outra preocupação é a questão das vias de acesso ao local, uma vez que a colheita normalmente é feita em épocas de chuva e as estradas precisam apresentar boas condições de trânsito. Quanto maior for a distância entre a área de corte e os silos, maior será a metragem de estradas a serem mantidas, elevando o custo e o tempo dessa manutenção.

Segundo Antony Sewell, é essencial conhecer as particularidades de cada cultivo para garantir qualidade na ensilagem

A velocidade do processo de ensilagem é fundamental para a perfeita conservação do material ensilado. Infelizmente, não é possível conservar a forragem com níveis de qualidade idênticos aos quais ela se encontra no campo, no momento da colheita. Dessa forma, quanto menor for o tempo para se colher, picar, transportar, descarregar, compactar e vedar o silo, mais eficiente será o processo de ensilagem e, por conseguinte, melhor será a qualidade final do produto ensilado.

Seja qual for o modelo a ser adotado, é fundamental que a equipe de gestão do projeto esteja afinada. O treinamento da mão de obra é importante, pois muitas vezes a prática de ensilagem é uma novidade na propriedade. Só uma visão global da empresa, da região onde ela está inserida, e o planejamento bem detalhado de toda a atividade, desde a escolha do material a ser ensilado até o desensilo do mesmo, é que irão propiciar vantagens competitivas para o produtor que pretende entrar no processo de intensificação da produção pecuária, através do fornecimento, no período seco do ano, de volumoso oriundo da ensilagem de forrageiras.

O sistema de ensilagem exige um planejamento muito eficiente antes de se tomar a decisão de empreendê-lo. A falta de planejamento ou a negligência na elaboração do mesmo certamente levará todo o projeto ao insucesso.

Antony Sewell é engenheiroagrônomo, mestre em Agronomia, MBA em Agronegócios e consultor da Boviplan


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