Caindo na Braquiária

Boi grande e vaca pequena. Como pode?

Quando cheguei ao aeroporto de Ribeirão Preto/SP, o relógio ainda não marcava 5h da manhã. Como toda segunda-feira, ali se iniciava mais uma semana de aprendizado no campo e questionamentos que fazem sentido a respeito da cria.

Não é tarefa fácil para um profissional que vive de genética a decisão de indicar o correto acasalamento, prevendo o fornecimento da carcaça desejada pelo mercado. No gado puro, temos de buscar reprodutores provados que atendam os objetivos na produção de touros ou reposição de vacas de qualidade. Por sua vez, sobre matrizes comerciais, o risco multiplica-se, pois, além de atender os objetivos momentâneos dos criadores, precisamos exortar os criadores a projetarem-se no futuro, pensando como serão suas fazendas daqui a quatro anos, sendo esse o futuro mais próximo para o fazendeiro que faz cria-recria-engorda.

Hoje, é muito simples para qualquer técnico minimamente informado brandir que o Angus é a raça ideal para se cruzar com a vaca Nelore, a fim de se produzir um boi de 20@ que o mercado procura, preconizando ainda aos criadores mais conscientes o uso das fêmeas F1 Angus, aproveitando a precocidade sexual. Tal novilha gera seu primeiro bezerro 12 meses antes que a zebuína.

Como um primeiro passo na direção da eficiência, o uso de uma raça britânica aumenta o caixa da fazenda pela aceleração do ganho em peso dos produtos, o que, por si só, já é uma evolução no tocante ao aproveitamento dos atributos de cada raça, atendendo, assim, a demanda para uma carcaça pesada e carne macia.

A métrica para se avaliar a eficiência da fêmea F1 como matriz é bem conhecida; a maioria dos criadores vem utilizando essa vaca até que a mesma desmame bezerros pesando menos de 45% de seu peso adulto.

Quando decidimos pelo uso de uma terceira raça no nosso modelo, denominamos de cruzamento terminal com três raças. Nesse sistema, todos os machos e fêmeas, filhos das vacas F1, serão comercializados.

Com a necessidade do aumento do rebanho matrizeiro e o reconhecimento pelos produtores dos benefícios das vacas cruzadas, surge o momento de estudarmos com eles a possibilidade da adoção do sistema rotacional, que nada mais é do que o uso dirigido de raças maternas a fim de sempre fazer a reposição das vacas com novilhas cruzadas. Além do zebu, raças que podem ser usadas são as britânicas e as taurinas adaptadas.

Dessa forma, teremos vacas de tamanho moderado que desmamam bezerros com 45% de seu peso.

Muito bem, agora vem a pergunta natural para quem faz boi pesado, mas, no entanto, sabe que as vacas grandes são menos eficientes na fazenda: – Como podemos produzir uma vaca pequena e o irmão dela ser pesado para o abate?

Essa dúvida tem aturdido os geneticistas, já que o mercado ainda não disponibiliza sêmen sexado a preços comerciais e que andem bem na IATF (Inseminação Artificial por Tempo Fixo). Se esse recurso nos fosse apresentado, poderíamos programar a inseminação das novilhas e das melhores vacas do rebanho com sêmen sexado de fêmea das raças maternas que continuassem a gerar novilhas adaptadas, precoces e com habilidade materna ímpar para serem as futuras mães de nosso rebanho. Na outra parte das matrizes, inseminaríamos com sêmen sexado de macho de raças que atendessem os objetivos de engorda do criador, podendo ser raças de grande porte, com maior metabolismo, no qual a preocupação com adaptabilidade diminuiria conforme o sistema de engorda.

Já que não temos o sêmen sexado em nível comercial para o gado de corte, o mais recomendável para quem precisa aumentar rebanho de fêmeas rapidamente sem perder o foco da engorda é lançar mão do sistema de Cruzamento Terminal-Rotacional, no qual usamos sêmen de raças maternas nas 50% melhores matrizes e, nas piores vacas, inseminamos com raças terminais de grande porte.

Pode parecer elucubração de um zootecnista fissurado por genética, mas afirmo para vocês que já fiz e que dá certo, onde a salada de fruta de tipos raciais assusta o criador acostumado a ver vacas de uma mesma cor na fazenda. No entanto, com a facilidade da numeração com brincos auriculares e dos programas de controle de rebanho disponíveis, podemos perfeitamente fazê-lo e aumentar muito a eficiência da fazenda de cria.

Um exemplo viável desse cruzamento é usar no rotacional da seguinte maneira: uso de sêmen Angus ou Hereford nas vacas Nelore, entrando com Senepol nas F1 britânicas. Sobre as novilhas tricross Senepol, use Caracu para parirem pela primeira vez. Quando as tricross Senepol tornarem-se multíparas, use um zebuíno sobre elas (essa escolha do uso de raças zebuínas somente da segunda cria em diante sobre as novilhas cruzadas é no sentido de minimizar a chance de distocias). Sobre as filhas das zebuínas, usaremos Bonsmara ou Braford ou Brangus com o intuito de novamente produzir fêmeas adaptadas ao calor. E assim por diante, alternando um adaptado, um zebuíno e um bimestiço.

Nas 50% piores vacas do rebanho, faremos o cruzamento terminal, com raças de grande porte para se explorar o máximo que a genética nos permite, produzindo a melhor carne do mundo, com as matrizes mais eficientes possíveis.

Alexandre Zadra - Zootecnista zadra@crigenetica.com.br


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