Brasil de A a Z

Paradigmas para a seleção do Nelore

Da semente à base de rebanho (parte final)

William Koury Filho é zootecnista, mestre e doutor em Produção Animal, jurado de pista de Angus a Zebu e proprietário da Brasil com Z® – Zootecnia Tropical

Amigos agropecuaristas, já é julho, estamos no segundo semestre, temporada forte de venda de touros e mês que antecede a ExpoGenética, modelo de exposição que vem ganhando cada vez mais importância e interesse do criador.

O atual momento da seleção do Nelore na pista e em programas de melhoramento exige que informações e posicionamentos devam ser apresentados e discutidos em alto nível, sem preconceitos e com a motivação maior de buscar enxergar o que é necessário para o bem da pecuária – referência à pecuária que produz alimento para a população brasileira e gerou cerca de 8 bilhões de dólares em exportação em 2014.

Nelore é a raça de maior representatividade na pecuária de corte do País e tem o desafio de continuar forte na adaptação ao meio ambiente, fertilidade e capacidade de criar um bezerro vigoroso ao nascer e pesado ao desmame, características que a tornaram a base do rebanho brasileiro. Assim, essa vaca pode criar um bezerro cruzado ou Nelore com eficiência produtiva.

Na pista, o desafio será ter coragem, criatividade e alicerce técnico para propor mudanças nos critérios de julgamento, com definições mais claras do modelo animal a ser perseguido – acredito que desde 2003, ano em que comecei a julgar pistas de zebuínos, nunca assisti a um momento tão favorável para se propor um modelo animal com maior assertividade.

Outra abordagem que gostaria de colocar é sobre outras possibilidades ou dinâmicas de julgamento. No ano passado, pude julgar a primeira Expo- Brahman a campo e mês passado participei do julgamento de rústicos na nacional do Braford em Alegrete/RS. Experiência fantástica em que trios são julgados soltos e divididos por sexo e idade em uma dinâmica parecida com as apartações que realizamos nos currais de fazendas em nosso dia a dia como técnico de campo.

No julgamento de rústicos, dispúnhamos de estimativas de valores genéticos dos animais, mas a decisão fenotípica falava mais forte. Sobre esse polêmico assunto, devemos ter cautela, estudos e ponderações sobre possíveis implicações.

Agora, puxando a prosa para os programas de melhoramento, o cuidado deve ser na interpretação das informações. Por exemplo: a habilidade materna é uma das características de grande destaque nos programas e nos resultados comerciais. Porém, o limite em selecionar mais leite em rebanhos para corte existe e deve ser definido pelo sistema de criação, já que uma matriz não pode se doar tanto para o bezerro a ponto de perder performance reprodutiva em função da queda de escore corporal, pois a longevidade ou “capacidade de permanência no rebanho”, parindo um bezerro ao ano, a conhecida stayability, é considerada uma das características de maior impacto econômico na atividade. Assim, para uma matriz ser considerada eficiente, tem de ter capacidade de desmamar um bezerro pesado, mantendo boa condição corporal na estação reprodutiva, para que permaneça no rebanho.

Nesse contexto, é intrigante a complexidade e a diversidade da pecuária de corte no País, em que a raça Nelore representa cerca de 80% da população de corte ativa. Em condição de trabalhar com o que existe de mais atual em melhoramento genético animal, a atividade convive com diferenças extremas. Uma analogia com a agricultura, que vive a era da precisão, utilizando análise de solo e pluviosidade (ambiente) e adubação (nutrição) de acordo com as necessidades das regiões com área plantada e em sintonia com o cultivar (genética) utilizado, ainda temos pecuaristas com visão extrativista quanto ao ambiente de pasto, utilizando semente de paiol (genética sem qualquer procedência ou estimativa de valor genético).

Pode até ser frustrante, mas a conclusão é que não existe uma solução única para todas as condições de ambiente e objetivos de seleção, e é fundamental que o contexto Genética x Sistemas de Produção seja bem equacionado para que se tenha sucesso.

Espera-se que cada vez mais a pecuária se profissionalize, que valores socioambientais e de sustentabilidade sejam atendidos e que a capacidade de interpretar informações quanto à qualidade dos animais com a percepção da aptidão da fazenda conduzam à melhora da eficiência produtiva.

Como em qualquer outro grande negócio no cenário da economia atual, a raça Nelore passa pela fase em que informação vale capital - e muito -, assim como o material humano capacitado para interpretar as informações disponíveis e tomar as decisões acertadas que devem unir a sabedoria dos antigos com as tecnologias do presente.


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