Leite

 

MANDIOCA

Subprodutos do beneficiamento são alternativas na alimentação de bovinos leiteiros

Adriano Henrique do N. Rangel*, Emerson Moreira Aguiar* e Stela Antas Urbano**

A necessidade de atender uma demanda crescente de produtos de origem animal de qualidade impõe um maior dinamismo ao setor pecuário. Em um sistema de produção de leite, a alimentação é, inquestionavelmente, um dos fatores de maior preponderância quando se trata do sucesso e da viabilidade do mesmo, merecendo destaque os níveis de energia da dieta. O milho é o ingrediente energético mais tradicional, chegando a participar entre 60 e 70% das fórmulas dos concentrados destinados à alimentação de bovinos leiteiros. Todavia, por constituir uma commodity agrícola, os preços do milho são taxados pelo mercado global, o que o torna caro, muito embora o Brasil seja um dos maiores produtores mundiais desse cereal. Dentro desse contexto, estudos têm sido conduzidos com a finalidade de investigar fontes energéticas alternativas aos concentrados energéticos tradicionais, visando redução dos custos dos sistemas de produção de leite e, dessa forma, conferindo maior competitividade e sustentabilidade ao setor.

Cultivada em todo o território nacional, exceto nas áreas mais frias do País, a mandioca (Manihot esculenta, Crantz) demonstra ter capacidade adaptativa a diferentes climas, solos e manejos, desempenhando importante papel social junto às populações de baixa renda. Segundo o IBGE (2014), a produção brasileira de mandioca no ano de 2013 foi de 21,5 milhões de toneladas, com destaque para a participação da região Nordeste na produção nacional, que respondeu por aproximadamente 22,5% da safra anual.

A raiz da mandioca caracteriza- -se pelo elevado teor de carboidratos não estruturais, com predominância do amido, fundamental para a exploração de animais de alta produção. Ainda é merecido destacar que o amido oriundo da mandioca apresenta degradabilidade efetiva superior ao milho, favorecendo a fermentação ruminal e o fluxo de proteína microbiana para o intestino delgado, pontos- chave na nutrição de ruminantes. A superioridade na degradabilidade deve-se à inexistência de pericarpo, endosperma córneo e periférico e matriz proteica e, possivelmente, por sua menor proporção de amilose, quando comparada ao amido de milho e sorgo. Contudo, deve-se salientar que a utilização excessiva de fontes de amido de rápida degradação ruminal pode implicar em redução acentuada do pH ruminal, afetando a digestibilidade da fibra e podendo evoluir para um quadro de acidose ruminal.

Para uso da raiz, é preciso picá-la e secá-la ao sol para que não seja tóxica

Além da raiz, vários subprodutos são originados durante o processamento e beneficiamento da mandioca – que visa à obtenção da farinha e à extração da fécula – sendo os principais: casca de mandioca, entrecasca, descartes, massa úmida, farinha de varredura, farelo e manipueira. A composição química dos resíduos da industrialização assemelha-se à das raízes, com teores consideráveis de carboidratos não estruturais, sendo possível que os mesmos sejam incluídos na dieta de ruminantes como ingredientes energéticos alternativos.

Normalmente, a colheita das raízes para utilização na alimentação animal é efetuada próximo aos 18 meses pós-plantio. Contudo, dependendo da variedade e das condições de alimentação, essas são inadequadas para o consumo animal imediatamente após a colheita por possuírem elevados teores de glicosídeos cianogênicos, que apresentam efeito tóxico quando consumidos em grandes quantidades. Esse problema, quando existente, pode ser eliminado através da picagem ou trituração das raízes e posterior secagem ao sol, transformando- se em raspas, as quais podem ser devidamente armazenadas sem problemas.

A parte aérea da planta da mandioca também pode ser utilizada, justificando-se pelo elevado teor proteico, boa produção de forragem e necessidade de aproveitar subprodutos agrícolas não utilizados na alimentação humana. Para aproveitamento da parte aérea, é comum a prática de dois cortes entre o plantio e a colheita, sendo os dois terços finais ou superiores da planta considerados como um material adequado para o fornecimento aos animais. A parte aérea fresca da mandioca é a forma mais simples para se fornecer ao gado, sendo recomendado picar partículas de tamanho entre 3 e 5 cm. No caso de variedades mansas, podem ser fornecidas aos animais imediatamente, já as variedades bravas (elevados teores de glicosídeos cianogênicos) devem sofrer um processo de murcha de, no mínimo, 24 horas, para promover redução do teor de ácido cianídrico (HCN) a níveis não tóxicos aos animais.

É indicado o uso na forma de feno ou silagem para maior período de utilização e evitar problemas. Para a confecção de feno de elevado teor proteico, deve-se dar preferência ao terço superior da planta, fazendo-se os cortes em 12 e 16 meses após o plantio. O material deve ser picado em partículas de aproximadamente 2 cm e disposto sobre lona ou área cimentada para o processo de secagem, revirando periodicamente até que alcance o ponto de feno, com umidade próxima a 12%. Quanto à silagem, é merecido pontuar que a mesma apresenta fermentação láctica e acética dentro de padrões desejáveis, o que confere uma boa qualidade ao material ensilado. Considerando um cultivo de dois ciclos, pode-se trabalhar com o terço superior da parte aérea no primeiro corte (feno ou silagem) e ensilar a parte aérea total (10 a 30 cm do solo) por ocasião da colheita.

A composição nutricional das raspas e dos resíduos do processamento da raiz da mandioca muda conforme a variedade da mandioca, a idade da planta e a época do ano, além do processo de fabricação de seus produtos. Observa-se, na tabela 1, uma compilação de dados da composição químico-bromatológica dos resíduos da mandioca.

Embora a mandioca e seus subprodutos sejam vastamente utilizados na alimentação de bovinos leiteiros, a literatura sobre a utilização desses alimentos ainda é escassa. Alguns trabalhos de grande importância para a evolução do tema merecem ser aqui pontuados.

Adriano Henrique informa que mandioca é alimento bom e de baixo custo

Jorge et al. (2002) avaliaram o efeito da substituição do milho pela farinha de varredura na alimentação de bezerros desmamados (80 dias de idade). Os autores concluíram que o milho pode ser substituído pela farinha de varredura para bezerros holandeses, proporcionando ganhos de peso da ordem de 0,86 kg/dia, o que é considerado satisfatório. Sobre a farinha de varredura, é importante destacar que alguns cuidados devem ser tomados quando a mesma é utilizada na alimentação, pois, por ser muito pulverulenta, quando em contato com a saliva dos animais, forma-se uma substância pastosa que adere à boca, dificultando o consumo. A oferta de alimentos na forma de mistura completa pode minimizar esse problema e evitar a redução no consumo.

Modesto et al. (2003), substituindo a silagem de milho pela silagem do terço superior da rama da mandioca (0, 20, 40 e 60%), não encontraram diferença para a produção de leite, corrigida ou não para gordura. A composição do leite também não foi influenciada pela substituição. Os autores concluíram que a silagem do terço final da rama de mandioca pode substituir a silagem de milho sem prejuízo para a produção e composição do leite. Mais tarde, o mesmo ingrediente foi avaliado na alimentação de vacas leiteiras gestantes, sendo concluído por Modesto et al. (2008) que a substituição do milho pela silagem da rama pode ser feita nos níveis de 20, 40 e 60% sem modificar o consumo, a digestibilidade dos nutrientes e os parâmetros ruminais.

Estudando a inclusão de bagaço de mandioca na alimentação de vacas mestiças Holandês x Zebu em lactação, Lima et al. (2008) recomendaram a utilização do ingrediente alternativo até o nível de 15% de inclusão na dieta total.

Por fim, é possível afirmar que a mandioca e seus subprodutos constituem fontes energéticas alternativas importantes para a alimentação de ruminantes, sobretudo de bovinos leiteiros. Todavia, a tomada de decisão quanto à utilização de tais ingredientes deve estar fundamentada na análise criteriosa da disponibilidade do mercado local e, principalmente, do custo do quilograma da matéria seca que chega à propriedade.

*Adriano Henrique e Emerson Moreira são professores Associados da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) – Unidade Acadêmica Especializada em Ciência Agrárias

**Stela Urbano é zootecnista, DSc., Bolsista do Programa Nacional de Pós- Doutorado/UFRN – Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias


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