Do Pasto ao Prato

 

TERNEIROS: NÚMEROS E CONSIDERAÇÕES

Fernando Velloso é médico-veterinário e sócio-proprietário da Assessoria Agropecuária FF Velloso & Dimas Rocha – www.assessoriaagropecuaria.com.br –

Terneiro é tema do momento nesta época do ano (março, abril e maio), pois estamos encerrando a temporada de outono da venda dessa categoria, especialmente nas feiras de terneiros. Tive a oportunidade de me envolver, em 2015, mais com essas feiras, seja assistindo algumas pela Internet, pessoalmente ou realizando algumas palestras no RS e em SC. Em função da revisão que fiz do assunto e de contribuições de produtores e colegas técnicos da área, proponho-me a trazer algumas informações e reflexões sobre a comercialização de terneiros. Os últimos anos foram bem positivos para os pecuaristas dedicados à cria e as tendências são bastante otimistas no curto e médio prazos. Nos itens que seguem, vamos analisar os principais aspectos relacionados a esse setor:

Preço do terneiro

Os dados do Cepea mostram que nos últimos 15 anos houve um incremento importante no valor do produto “bezerro”, partindo no ano 2000 de um valor perto de R$ 300,00 para atuais R$ 1.400,00, em 2015. Em dólares, o valor iniciou em aproximadamente US$ 180,00 em 2000 para alcançar atuais US$ 400,00, demonstrando que houve valorização real do produto. Os dados referem-se ao Mato Grosso do Sul (MS), um dos estados mais representativos na produção de bezerros no Brasil. Ainda no MS, o Imea aponta que, em abril/2015, a aquisição de animais representou 62% dos custos da operação engorda, sendo assim, item de primeira importância. A alta representatividade no custo da compra de animais pode ser vista como negativa ou como fator positivo para a maior demanda de lotes de qualidade. Se é para comprar e está caro, que sejam bons... Em alguns leilões do PR, SC e RS, alguns lotes muito especiais chegaram à casa impensável de R$ 2.000,00 para animais de 250 a 280 kg.

Terneiro X boi gordo

Um levantamento realizado pelo Sindiler no RS, de 2011 a 2014, mostra que o terneiro vendido nas feiras alcançou preço superior de 22 a 31% em relação ao boi gordo.

Esses percentuais de sobrepreço são bem aceitos pelos compradores em períodos de mercado “forte” e estão literalmente na boca do produtor, mas é importante observar que na média de 20 a 30% de ágio ocorrem grandes variações e não é incomum a comercialização de terneiros por 35, 40, 45% a mais que o preço corrente do boi, indicando possíveis diferenciais de qualidade no lote de animais e confiança dos terminadores no futuro do mercado. Esses percentuais considerados muito altos por alguns pecuaristas já ocorreu no passado, assim como em períodos muito ruins de mercado, quando havia deságios do preço do terneiro em relação ao boi. Esperamos que esses períodos não retornem, pois representam o enfraquecimento de todo nosso negócio carne.

Relação de troca boi gordo/terneiros

Feiras de terneiros, como a de Caçapava do Sul/RS mostram aquecimento do mercado

O número de bezerros que um boi gordo pode comprar é também um número muito usado por compradores e vendedores. Os dados a seguir, da Agroconsult, mostram que houve redução do poder de compra do terminador (tabela 2).

Somado ao incremento do valor relativo dos terneiros, um fato que tem se observado mais recentemente é que mesmo animais pesados vêm alcançando cotações altas, diferentemente do usual até o momento, quando animais leves obtinham altas cotações e os pesados menor valor por quilo. Essa mudança é uma demonstração da maior tecnificação dos sistemas de engorda e maior nível de exigência dos compradores. Cesta de três pontos para uma pecuária mais eficiente.

Diferenciação do produto

Estudos já com dez anos na UFRGS, no RS, apontam que é possível sim diferenciar o produto terneiro e que o mercado responde positivamente a lotes considerados “superiores”. Entre 2004 e 2006, a pesquisa observou variações de 18 a 29%, entres valores mínimos e máximos pagos para terneiros. No período, a superioridade dos lotes mais caros foi relacionada à uniformidade, destaques de manejo, sanidade e genética. Dessa forma, foi possível concluir claramente que produtos estavam mais ou menos orientados para o mercado.

Nos EUA, o trabalho por diferenciação de animais de reposição (especialmente bezerros) é bastante antigo e pode nos servir de referência. Os programas de diferenciação e certificação passam por raças (Angus Source, Certified Red Angus, etc.), pela sanidade (com diferentes protocolos vacinais), sistema de produção (para animais não tratados com hormônios – NHT, orgânicos, etc.), e garantia de superioridade genética, com a certificação de uso de reprodutores avaliados geneticamente.

No Brasil, a certificação de terneiros já tem programas das raças Angus e Hereford, e apesar de acanhados em investimentos e bastante simples em sua certificação, já são iniciativas que ocorrem na prática.

As informações trazidas aqui são bastante simples e não têm a pretensão de uma análise profunda do tema. Para tanto, temos muitos profissionais e empresas dedicadas exclusivamente a esse fim. Não pretendo também trazer uma visão pessimista de que os terneiros estão caros e complicando a vida do terminador, mas sim de que nossa atividade está fortalecida e com espaço e oportunidade para os criadores ofertarem produtos melhores, com reconhecimento real do mercado. Se a compra de animais para engorda ficou mais pesada, é momento para sermos mais exigentes e criteriosos nas escolhas de fornecedores e lotes. Todos os dados apresentados aqui me levam a acreditar em um ciclo virtuoso para a cria e para a nossa pecuária.

No fim de maio, assisti na televisão a um leilão de gado de reposição denominado “Progênies de IATF” e fiquei animado em ver que estamos no rumo certo.


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