Clima

 

Menos malefícios

Estudo da Embrapa vai comprovar mitigação de gases de efeito estufa pela ILPF

Gabriel Faria

Resultados preliminares de pesquisa desenvolvida na Embrapa Agrossilvipastoril (MT) demonstraram, após um ano de análise, que em um sistema silviagrícola o componente florestal torna positivo o balanço de emissões de gases de efeito estufa (GEE) do sistema.

A pesquisa mostra que, em área de lavoura convencional, há um fluxo maior de emissões de N2O durante a safra, com a identificação de picos intensos logo após a adubação. Entretanto, quando se analisa uma área com integração entre agricultura e floresta, observa-se que as emissões de óxido nitroso tendem a ficar em equilíbrio. “A Integração Lavoura- -Pecuária-Floresta, por possuir grande área de floresta dentro da parcela, mantém as emissões do sistema em nível muito baixo, próximo de zero. Temos variações provocadas pela adubação da lavoura, mas na média do sistema as emissões são baixas”, explica o pesquisador da Embrapa Renato Rodrigues.

A pesquisa iniciada no fim de 2013 avaliou as emissões de gases de efeito estufa pelo solo durante um ano em um sistema de ILPF com renques triplos de eucalipto, com lavoura de soja, seguida de milho consorciado com braquiária na safrinha. Para isso, foram coletadas semanalmente amostras de gases por meio de câmaras estáticas de uso manual. As milhares de amostras estão sendo analisadas em laboratório por um equipamento chamado cromatógrafo gasoso.

As primeiras análises dos dados comprovam que a chuva é o fator meteorológico que mais influencia as emissões de gases causadores de efeito estufa, como o óxido nitroso (N2O), metano (CH4) e gás carbônico (CO2).

Em uma área de floresta plantada, há maior emissão de óxido nitroso, por exemplo, durante o período chuvoso, de novembro a maio. Durante a seca, o sistema passa a retirar o gás da atmosfera, assimilando-o ao solo. No caso do metano, há maior emissão durante os meses de janeiro e fevereiro, quando o solo fica mais encharcado na região norte de Mato Grosso.

Além de comprovar o efeito mitigador dos sistemas integrados, as pesquisas demonstram que plantações somente de florestas também possuem essa característica. As análises processadas mostram grande potencial de assimilação de metano, uma vez que, na maior parte do ano, o balanço das emissões é negativo, ou seja, a plantação absorve mais do que emite GEE

“Está sendo comprovado que a ILPF tem grande potencial de mitigação. Queremos chegar a um fator de emissão, que vai ser um valor usado como referência no monitoramento do Plano ABC (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono)”, explica o pesquisador Renato Rodrigues, referindo-se ao plano governamental que estimula a adoção de tecnologias de baixo carbono como forma de reduzir as emissões da agricultura brasileira

Câmaras automáticas de coleta de gases de efeito estufa, instaladas no experimento de ILPF

Para se chegar a um fator de emissão para a ILPF, a pesquisa ainda fará neste ano a correlação das emissões de GEE pelo solo com informações sobre química e física do solo, biomassa, características de clima e, quando a pecuária fizer parte do sistema, emissões dos bovinos por fermentação entérica.

Política nacional
Devido ao grande volume de dados coletados pela pesquisa, a maior parte das informações ainda está sendo processada. Ao se acrescentar os dados que serão coletados na safra 2014/2015, pesquisadores da Embrapa e estudantes de pós-graduação ligados ao trabalho iniciarão a publicação das informações em revistas científicas.

Após isso, as informações geradas sobre fatores de emissão em sistema ILPF passarão a nortear o desenvolvimento de políticas do governo federal, visando à mitigação das emissões de GEE no setor agropecuário.

Trailer que acomoda o sistema automático de coleta e análise de GEE, instalado no experimento de integração Lavoura-Pecuária-Floresta

“Estamos trabalhando de maneira bastante alinhada com o laboratório de monitoramento do Plano ABC e com os tomadores de decisão. A ideia é que a ciência forneça informações para subsidiar políticas públicas”, afirma Renato Rodrigues.

O Plano ABC foi criado pelo governo brasileiro como forma de estimular a adoção de tecnologias de baixa emissão de carbono no campo, como a ILPF, as florestas plantadas, a reforma de pastagem, o plantio direto na palha, a fixação biológica de nitrogênio e o tratamento de dejetos. Esse plano é uma das ações para cumprir o compromisso voluntário assumido pelo País na Conferência do Clima de Copenhagen em 2009 (COP 15). Naquela ocasião, o Brasil comprometeu-se a reduzir de 36,1% a 38,9% de suas emissões de GEE até 2020. De acordo com o pesquisador Renato Rodrigues, devido à inexistência de fatores de emissão validados nas condições de clima e solo brasileiros, na elaboração do Plano ABC foram utilizados dados obtidos por meio das poucas publicações existentes na época, gerando números genéricos sobre as emissões do País. Por isso, com a adoção dos fatores locais, é possível que o Plano seja reajustado, aumentando ou reduzindo a meta de expansão da área com ILPF. Na versão inicial, o objetivo é levar os sistemas integrados para mais quatro milhões de hectares.

“Pode ser que o potencial de mitigação da ILPF seja bem maior do que estava previsto no ABC. Se o valor do Plano estiver menor do que a realidade, talvez com uma área menor o País já consiga cumprir o valor que deseja mitigar”, explica.

Segundo o compromisso assumido, o Brasil tem até 2020 para comprovar a redução nas emissões de GEE. Dessa forma, as pesquisas desenvolvidas pela Embrapa terão papel fundamental para embasar a elaboração do inventário nacional sobre o setor agropecuário.

Política internacional
Além de dar subsídios para a política nacional de redução das emissões, os resultados dessa pesquisa serão enviados ao Painel Intergovernamental de Mudança do Clima (IPCC) para que façam parte do banco de dados da instituição. Além de valorizar ainda mais as informações obtidas pela ciência brasileira, isso poderá mudar a metodologia de mensuração das emissões adotada pelo IPCC.

“Temos a possibilidade de propor uma metodologia nova de análise. O IPCC trata como caixinhas separadas, com emissão de um lado e assimilação de carbono de outro. Na verdade, sabemos que não é assim. Quando se trabalha com sistema integrado, está tudo acontecendo junto. O que vale é o balanço do sistema”, explica Rodrigues esclarecendo que há várias outras questões científicas, como tempo de residência do gás na atmosfera e tempo do carbono no solo. Contudo, ele afirma ser possível fechar uma conta e chegar a um valor do sistema e saber quanto a ILPF mitiga e o que pode gerar em compensações para quem a adotar. “Nada mais justo do que o produtor e o País serem recompensados por usar uma técnica que mitiga emissões”, considera o especialista.

Equipamentos
As pesquisas com GEE na Embrapa Agrossilvipastoril ganharam importantes aliados. Desde a safra passada, a unidade conta com um equipamento que faz a coleta de amostras das emissões do solo de maneira automática, várias vezes ao longo do dia, e os envia diretamente para um cromatógrafo instalado no campo experimental. Esse é o único aparelho do tipo no Brasil.

A principal vantagem é a maior variabilidade temporal, uma vez que o equipamento coleta uma amostra de fluxo gasoso a cada três horas, sete dias por semana. No método manual, as coletas são feitas apenas uma vez ao dia, no máximo duas vezes por semana. “Isso permite ter um dado muito mais consistente, porque os fluxos são muito variados ao longo do dia. Quanto maior a quantidade de dados, mais consistentes eles serão”, diz o pesquisador Renato Rodrigues.

Instalado no início de 2014, este equipamento passou por testes ao longo do ano. Na safra 2014/2015 ele já passa a operar plenamente gerando dados em tempo integral sobre os fluxos de emissão da ILPF.

Emissões do gado
Outro equipamento de alta tecnologia que passa a auxiliar a pesquisa da Embrapa em 2015 é o chamado GreenFeed.

Trata-se de uma espécie de cocho que, por meio de sensores, mensura automaticamente a emissão de metano por bovinos pelo processo de fermentação entérica. A Embrapa é a primeira instituição da América Latina a utilizar o equipamento. Inicialmente ele será instalado em uma área de ILPF com pecuária de corte.

No caso de animais, a pesquisa é mais rápida do que nas emissões do solo, uma vez que é feita em ciclos de 30 a 35 dias. Assim, será possível mensurar a emissão de metano dos bovinos utilizando-se diferentes tipos de nutrição a fim de encontrar aquela com melhor balanço entre o ganho de peso e o fluxo do gás causador do efeito estufa.

Entre os gases causadores do efeito estufa emitidos pelo setor agropecuário, o óxido nitroso é o que causa maiores danos. Uma molécula de N2O na atmosfera tem poder de retenção de calor 320 vezes maior que uma de CO2 (gás carbônico). Já o metano é 25 vezes mais danoso do que o gás carbônico.

“Hoje, a fermentação entérica não entra no Plano ABC, mas é responsável por 70% da emissão do setor agropecuário no mundo. Se a gente, por exemplo, descobrir alguma dieta que reduz as emissões do animal, é um ganho muito grande. Isso poderia ser pensado em uma nova linha dentro do Plano ABC”, exemplifica Rodrigues.

O pesquisador Renato Rodrigues mostra o funcionamento do sistema

Como as pesquisas da Embrapa Agrossilvipastoril trabalham o balanço de emissões dos sistemas, os dados coletados sobre o desempenho dos animais farão parte dos números finais dos fatores de emissão da integração lavoura-pecuária- floresta.


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