Feno & Silagem

 

Milho para silagem

É importante obter cultivares com bom equilíbrio entre teor de fibras e grãos

Márcio Pelegrini*

De todas as espécies utilizadas para silagem, o milho e o sorgo são as mais adequadas e indicadas, por apresentarem alto valor energético, boa aceitação pelos animais, facilidade de cultivo e de fermentação.

Por se tratar de um alimento relativamente caro, todas as etapas do processo de produção de uma silagem devem ser bem planejadas e executadas, com vistas a obter um alimento de alta qualidade, proporcionando retorno adequado, ou seja, maior produção de leite ou carne por quilo de alimento fornecido.

Uma das etapas mais importantes no processo de produção é a escolha da cultivar de milho mais adequada ao sistema local de produção. Devem-se levar em consideração as características da cultivar, as condições de clima e solo da região e a tecnologia de produção a ser adotada na implantação e condução da lavoura. Ainda é comum observarmos baixos rendimentos de produção de silagem, por incompatibilidade entre a cultivar escolhida e a tecnologia de produção utilizada.

A princípio, qualquer cultivar de milho pode ser ensilada tal como foi no passado, quando se priorizava o volume produzido em detrimento da qualidade obtida. Posteriormente, a partir da década de 1970, e com base em estudos que demonstraram que os grãos são mais digestíveis (86%) que as folhas (61%) e o colmo (48%), maior ênfase foi dada à participação dos mesmos como uma alternativa para melhorar a qualidade da silagem. Atualmente, além da maior participação de grãos na silagem, preconizam- -se grãos de maior digestibilidade que combinados com características específicas da planta, tais como menor teor de fibras e maior digestibilidade das mesmas, geram condições indispensáveis para se obter silagem de alta qualidade.

A escolha da cultivar de milho mais adequada ao sistema de produção é fundamental

A melhor planta de milho para silagem deve ter a seguinte contribuição entre seus componentes:

Para a produção de uma silagem de alta qualidade, a cultivar deve apresentar as seguintes características: – alta produção de grãos; – grãos macios, de preferência, dentados; – boa produção de massa; – plantas com menor teor e maior digestibilidade das fibras; – boa “janela de corte”; – adaptação à região de produção; – estabilidade de produção; – tolerância a doenças foliares, de colmo e de grãos.

Obviamente, é quase impossível reunir todas essas características em uma mesma cultivar, mesmo porque algumas são de caráter antagônico. Por exemplo, uma das maneiras de aumentar a digestibilidade da fração verde da planta (colmo e folhas), é reduzindo o teor de lignina, componente insolúvel das fibras, pela introdução do gene “Brown midrib”. Esse gene promove redução de até 40% no teor de lignina da planta. Em contrapartida, e dependendo do genótipo utilizado, a produção de grãos pode ser drasticamente reduzida, assim como atrasar o florescimento e diminuir a tolerância das plantas ao acamamento. Contudo, é uma linha de pesquisa a ser incentivada, visto ser possível a obtenção de cultivares com essa característica, com boa produtividade e tolerância ao acamamento.

Grãos

Em países de clima tropical como o Brasil, a maior participação de grãos na silagem é fundamental para se obter melhor qualidade. O clima tropical caracteriza- se por temperaturas mais elevadas, o que resulta em maior síntese e deposição de lignina na fração vegetativa da planta (colmo e folhas), tornando-a de qualidade inferior. Daí a importância da produção de grãos que apresentam alta digestibilidade para compensar a menor eficiência de digestão, principalmente, do colmo.

A importância da participação dos grãos na qualidade da silagem pode ser vista no quadro a seguir.

Influência do grão no valor nutritivo da silagem de milho

Em países de clima temperado, as temperaturas durante o ciclo da cultura são bem menores e a lignificação da parede celular é muito menor, resultando em fração vegetativa da planta com digestibilidade semelhante à da espiga. Nessas condições, a produção de grãos não é tão importante, sendo mais adequado como critério de seleção das novas cultivares a produção de matéria seca e a sua digestibilidade.

Muitos pecuaristas têm procurado eventos técnicos sobre silagem, principalmente de milho

Textura

Grãos macios, moles ou dentados são mais adequados para silagem, pois são mais facilmente degradados no rúmen do animal, permitindo um melhor aproveitamento da energia e dos outros nutrientes neles contidos. Grãos duros possuem menor digestibilidade, maior taxa de passagem pelo trato digestivo do animal, resultando em maiores perdas e menor aproveitamento do alimento.

Muito embora os grãos macios sejam os mais indicados para silagem, de nada adiantará se eles não forem convenientemente quebrados, triturados ou bem danificados, para facilitar o contato com as enzimas e micro-organismos do rúmen, proporcionando melhor aproveitamento do alimento pelo animal. Daí a necessidade de se atentar, rigorosamente, para o ponto ideal de colheita da lavoura, assim como atenção especial quanto à regulagem da ensiladeira.

Teor das fibras

As fibras estão em maior teor nas partes verdes da planta, principalmente no colmo. Embora a relação entre o teor de fibras e a qualidade nutricional da silagem seja inversa, ou seja, quanto mais fibra pior é a qualidade, elas são importantes para o desenvolvimento e o bom funcionamento do rúmen do animal. A questão é desenvolver uma cultivar com menor teor e melhor qualidade das fibras sem comprometer a qualidade da silagem, haja vista que a relação entre o teor de fibras e a produção de grãos, fração mais digestível, é positiva. Isso implica que, ao reduzir o teor de fibras da planta, o potencial de produção de grãos também será reduzido. Por isso a importância de se ter cultivares com um bom equilíbrio entre produção de massa e produção de grãos. Teores de fibra em detergente neutro (FDN) na ordem de 40 a 45% e em detergente ácido (FDA) entre 25 e 30% são indicativos de uma silagem de alta qualidade.

Alguns aspectos de campo contribuem para diminuir ou, pelo menos, não aumentar o teor de fibras da silagem, dentre eles, a densidade ou população de plantas por área deve ser aquela recomendada para a cultivar, caso contrário, a produtividade ou a qualidade da silagem pode ser comprometida pela falta ou excesso de plantas, respectivamente. Densidade de plantas muito alta reduz o número de espigas e a produção de grãos por planta e por área (quadro acima), consequentemente, aumenta a proporção de colmo na silagem, reduzindo digestibilidade e qualidade final.

O ponto de colheita também interfere. Efetuando a colheita no momento certo, com 30 a 35% de matéria seca, teremos menor quantidade de fibras e maior digestibilidade das mesmas (gráfico), o que resulta em um melhor aproveitamento do alimento e maior produtividade do animal.

Outros fatores relacionados à tecnologia de produção, tais como atraso na época de semeadura da lavoura, desequilíbrio nutricional das plantas e vários outros, também interferem na qualidade da silagem, por aumentar a quantidade de fibras ou diminuir a digestibilidade das mesmas.

Finalmente, é importante ressaltar que mesmo com o desenvolvimento de cultivares mais adequadas para silagem, assim como a adoção de tecnologias mais eficientes de produção, a garantia de melhores resultados estará na dependência da adaptação da cultivar à região de produção. Sem isso, os benefícios incorporados ficarão restritos e não devem ser generalizados.

*Márcio Pelegrini é engenheiro-agrônomo e consultor da Santa Helena Sementes – pelegrini.marcio@gmail.com


Warning: getimagesize(/revistas/ag/imagens/id_377/feno+e+silagem_4.jpg) [function.getimagesize]: failed to open stream: No such file or directory in /home/storage/a/fb/47/edcentaurus/public_html/edcentaurus/application/controllers/AgController.php on line 441