Especial Vermifugação

 

PERDA SILENCIOSA

Parasitos internos comprometem a renda do produtor, que ainda enfrenta o problema de resistência aos vermífugos

Beth Melo

O impacto econômico causado por parasitos relevantes (nematoides gastrintestinais) que afetam a saúde, o bem-estar e a produtividade do rebanho brasileiro é da ordem de US$ 7,11 bilhões anuais, segundo trabalho recente (2014), de autoria de Laerte Grisi (in memorian), professor do Departamento de Parasitologia Animal da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. As perdas potenciais, decorrentes da negligência do tratamento, foram estimadas com base no total de animais em risco e nos efeitos negativos do parasitismo sobre a produtividade do gado.

“O valor mencionado por Grisi refere- se somente aos prejuízos com animais não tratados, entretanto, se incluirmos os custos com os tratamentos e a manifestação cada vez mais frequente de resistência parasitária aos produtos químicos, vamos constatar o tamanho do problema que o produtor rural lida”, analisa Alessandro Pelegrine Minho, pesquisador da área de Sanidade Animal da Embrapa Pecuária Sul. Segundo ele, estimar as perdas reais por verminoses é muito difícil, pois se deve levar em conta a carga parasitária do animal (número de parasitas no trato digestório), a resistência, tolerância ou suscetibilidade aos parasitos, a faixa etária e os custos com profilaxia (aplicação de anti-helmínticos).

“Tratamentos realizados em maio, agosto e novembro apresentam melhor relação custo-benefício”, afirma Welber Lopes

Welber Daniel Zanetti Lopes, professor de Parasitologia Veterinária e Doenças Parasitárias da Universidade Federal de Goiás (UFG), diz que o produtor não consegue calcular perda, porque, atualmente, a verminose (principalmente nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e em algumas áreas do Norte do País) dificilmente ocasiona mortalidade dos animais. “A verminose bovina prevalece sobre a forma subclínica, ou seja, o animal tem o parasito, entretanto, não demonstra sintomas”, esclarece.

“O animal infectado apresenta principalmente diminuição na área de absorção de alimentos nas vilosidades do intestino, anorexia e, em alguns casos, diarreia; portanto, o principal dano que a verminose bovina ocasiona é o retardo no crescimento, o que, muitas vezes, é correlacionado a outras causas como alimentação e genética”, destaca o professor.

Por outro lado, Lopes afirma que estudos realizados para mensurar os prejuízos causados pelas helmintoses conseguem avaliar as perdas. “Um boi infectado por nematódeos gastrintestinais pode deixar de ganhar cerca de 30 kg em 100 dias, durante a estação chuvosa do ano”, calcula.

Minho acrescenta que a principal perda causada pelas parasitoses não está na mortalidade dos animais jovens, mas nas infecções que afetam o desenvolvimento e o ganho de peso. Nesse sentido, ele cita um estudo realizado na Nova Zelândia, o qual demonstrou que no primeiro ano de vida o animal pode deixar de ganhar mais de um quilo por mês devido à verminose (14 kg de peso vivo a menos em bezerros de 12 meses infectados por Cooperiaoncophora).

“Há algumas décadas, era relativamente comum observar mortes por verminose em animais jovens, porém, com a melhoria das pastagens (braquiaria, panicum, etc.), o uso contínuo de mistura mineral e mesmo a suplementação, a mortalidade dificilmente ocorre, no entanto, a parasitose interfere no ganho de peso nos machos, aumentando a idade de abate e retardando a idade de primeira cria nas fêmeas”, pondera João Batista Catto, pesquisador da Embrapa Gado de Corte. “Trabalhos realizados na Região Centro-Oeste mostraram um ganho adicional de 20 kg a 40 kg de peso vivo em animais tratados”, ilustra.

Vermifugação
Para escolher o melhor tratamento e o modo de aplicação (vermífugo oral, injetável ou pour-on), a pesquisadora Cecília José Veríssimo, do Instituto de Zootecnia, de Nova Odessa/SP, afirma que é necessário, primeiro, verificar a eficácia de cada molécula na fazenda. “Essa informação mostra a eficiência dos tratamentos e também ajuda na escolha do modo de aplicação mais eficaz”, observa.

Já Catto considera o vermífugo oral em bovinos de corte pouco prático pela grande quantidade de animais, pouco manejo dos mesmos e acidentes que podem ocorrer com o gado e o vaqueiro.

Para João Batista Catto, uso de endectocida é recomendável como anti-helmíntico

Em relação às vias de administração, Lopes diz que há produtos disponíveis comercialmente para bovinos que apresentam eficácia AH (anti-helmíntica) próxima de 100% e são fornecidas pela via oral. “O principal obstáculo é a dificuldade de manejo, sobretudo quanto ao número de animais a serem vermifugados. Por esse motivo, atualmente, a via injetável é a mais utilizada”, concorda com Catto.

Quanto aos grupos químicos disponíveis, o professor da UFG cita os benzimidazois (disponíveis pelas vias oral e subcutânea), os imidotiazois (via subcutânea) e as lactonas macrocíclicas (vias subcutânea e pour-on). “Em geral, os dois primeiros apresentam elevada eficácia, comparados às lactonas macrocíclicas, entretanto, eles permanecem no organismo do animal por aproximadamente 2 a 3 dias e são eliminados na sequência”, comenta. “Por esse motivo e, também, por questões de custo-benefício/conforto, os produtores têm optado pelos derivados das lactonas macrocíclicas (de elevada concentração) que também permite a aplicação simultânea a outras atividades sanitárias, como a vacinação contra febre aftosa, em maio e novembro”, justifica.

Sempre que possível, Minho aconselha tratar as verminoses com medicamentos específicos, pois alguns endectocidas atingem alta concentração na pele e baixa no trato digestório.

De acordo com o pesquisador da Embrapa Pecuária Sul, trabalhos recentes indicam tratamentos integrados para a região Sul, de preferência seletivos, ou seja, apenas para os animais com infecção parasitária relevante. “As alterações climáticas da última década e os fenômenos meteorológicos como El Niño e La Niña também dificultam a padronização de um calendário anual fixo. O ideal é acompanhar a infecção parasitária dos animais e verificar as condições climáticas do ano corrente”, recomenda.

Estratégia de controle
Minho afirma que os produtores podem seguir o controle estratégico preconizado para os meses de fevereiro, maio, setembro e novembro (com ressalvas nos anos de alteração climática significativa), que prevê o tratamento integrado de carrapatos e nematoides gastrintestinais (vermes). Entretanto, ele sugere que sejam utilizados medicamentos específicos para cada parasita (carrapatos e vermes), em pelo menos duas das quatro aplicações. “Deve-se evitar o uso intensivo de endectocida e o contato desnecessário dos helmintos com medicamentos antiparasitários.”

Lopes, da UFG, conta que, por muitos anos, nas regiões Sudeste, Centro- Oeste em algumas áreas do Norte do País, o controle da verminose em bovinos de corte era feito com a administração de compostos químicos nos meses de maio, julho e setembro. “Porém, estudos mais recentes demonstraram que os tratamentos realizados em maio, agosto e novembro apresentam relação custo-benefício mais positiva”, pondera.

Na interpretação de Lopes, o controle estratégico da verminose pode acontecer principalmente em duas categorias, raras exceções em uma terceira: bezerros até a desmama, bezerros lactentes (quando manejados em um ciclo curto de criação) e em algumas fêmeas no periparto. “A principal categoria que todo o produtor deve dar atenção é a dos animais criados a campo/ pasto, da desmama até 20-24 meses de idade, fase em que ocorrem consideráveis prejuízos”, orienta.

“No controle estratégico da categoria mais suscetível, recomenda-se, nos meses de maio e novembro, administrar lactona de elevada concentração e, em agosto, lactona de baixa concentração ou mesmo imidotiazol ou benzimidazol”, ensina Lopes.

Na leitura do professor da UFG, o controle da verminose do gado de corte nos bezerros lactentes é indicado quando o produtor pretende comercializá- los logo após o desmame ou, ainda, quando esses já entram no confinamento logo após o desaleitamento (animal superprecoce). “Nesse caso, deve-se administrar anti-helmíntico para bezerros de 3 a 4 meses de idade. Entretanto, volto a lembrar que essa prática é particularmente recomendada para sistemas de ciclo curto. Nos sistemas de ciclo longo, o ganho compensatório de peso dos animais não medicados após o desmame pode não equilibrar financeiramente a aplicação de anti-helmíntico em bezerros pré-desmame”, orienta.

Dependendo de cada situação, Lopes informa que algumas fêmeas no periparto podem aumentar o número de ovos de helmintos eliminados nas fezes, em função da queda no estado imunológico, o que é mais evidente em primíparas. “Nesse caso, a questão deve ser investigada e avaliada por meio de teste coproparasitológico (contagens de OPG – ovos por grama de fezes) e, apenas se necessário, fazer o tratamento químico nessa fase”, explica e alerta que alguns benzimidazois podem apresentar efeitos teratogênicos (má formação do feto), quando administrados em fêmeas durante a gestação.

Nas condições do Brasil Central, Catto, da Embrapa Gado de Corte, afirma que o controle estratégico deve levar em conta que os animais mais parasitados pelos vermes estão na faixa de 6 a 20 meses de idade, quando adquirem bastante imunidade e, se bem manejados e alimentados, já não necessitam de tratamento anti-helmíntico. “Na região, o desmame dos bovinos ocorre entre 6 e 8 meses de idade, quando os animais ainda não desenvolveram imunidade, e coincide com a seca (de maio a julho), época em que há diminuição da quantidade e qualidade da pastagem. Portanto, os bezerros devem ser medicados entre 6 meses e 2 anos e durante o período mais seco do ano”, explana. “São recomendadas três aplicações, com produtos de curta ação, em maio (desmame), julho e setembro, ou em junho (desmame), agosto e outubro. Com produtos de longa ação é possível realizar apenas dois tratamentos”, preconiza.

A vermifugação via oral ainda possui moléculas 100% eficazes, mas grande número de animais inviabiliza o manejo

Teste de OPG
Na opinião de Cecília, do Instituto de Zootecnia (IZ), o teste de contagem de ovos de helmintos por grama de fezes é fundamental e determina a eficácia do vermífugo. “É preciso fazer o teste com as fezes colhidas antes e até 14 dias após a vermifugação e enviar a amostra para o laboratório até 3 dias após colhida diretamente do reto do animal”, ensina. “Quando feito com as fezes antes de ministrar o produto, o teste revela a quais moléculas o verme já se apresentava resistente.”

Antes de tratar uma infecção por nematoides gastrointestinais, Minho também sugere a realização do teste de redução de contagem de ovos (TRCOPG) para um controle parasitário mais eficaz. “Nesse teste, podemos estimar a eficácia de todas as moléculas disponíveis no mercado, mas, lembre-se que as informações servem apenas para a propriedade avaliada e não podem ser utilizadas como modelo, nem mesmo por uma fazenda vizinha”, alerta. Conforme o pesquisador, esse fato é consequência de diversas variáveis, que devem ser respondidas pelo produtor, tais como utilização prévia do medicamento e há quanto tempo (anos), quantidade de vezes por ano, tipo de manejo ou rotação da pastagem, se utiliza a estratégia “tratar e mudar” (na qual os animais são transferidos para um piquete limpo, sem parasitos), se faz tratamento seletivo dos animais, se vermifuga as fêmeas com bezerro ao pé ou todo o rebanho de uma vez.

“Apesar de não ser uma técnica muito precisa para bovinos, o teste de OPG ainda é a melhor ferramenta a ser utilizada pelo produtor, pois é simples, barata e eficiente para detectar o nível de infeção dos animais por nematoides”, analisa Minho. “O TRCOPG deveria ser realizado, pelo menos, uma vez por ano em todas as propriedades rurais, sendo imprescindível na troca de um princípio ativo por outro”, orienta e lembra que vários medicamentos podem ser avaliados ao mesmo tempo, sendo reservadas, aproximadamente, dez amostras de bovinos infectados com vermes para cada princípio ativo (grupo tratado) e mais dez de animais sem tratamento (grupo controle).

Para o professor Lopes, o teste de OPG não é uma técnica de diagnóstico a ser adotada como rotina para administrar anti-helmínticos em bovinos, principalmente em grandes rebanhos. Entretanto, ele afirma que todo produtor deve utilizar (quando possível, e com o auxílio de um profissional, essa ferramenta no rebanho ou em parte, esporadicamente, (uma vez ao ano ou uma vez a cada dois anos, dependendo da quantidade de animais e da localidade da fazenda).

“Somente com base nos resultados do teste o produtor terá uma melhor dimensão dos prejuízos causados pelas verminoses nos animais na desmama, calculando a carga parasitária média e o percentual de bovinos positivos com uma determinada carga de parasitos”, argumenta o professor da UFG. “Também permite calcular a eficácia das formulações químicas e diagnosticar qual pode não funcionar depois de um tempo de uso, e utilizar a melhor, sempre levando em conta a relação custo-benefício.”

Resistência complica
O problema das verminoses, na opinião da pesquisadora Cecília, do IZ, é a resistência aos vermífugos, que cada vez se espalha mais no Estado de São Paulo e em todo o Brasil. “Antes restrita aos vermes dos ovinos, agora, ocorre também nos bovinos, e não adianta aumentar a dose do produto, pois ainda haverá resistência”, garante.

Catto, por sua vez, avisa que é preciso ter em mente que a resistência às moléculas é localizada, ou seja, duas propriedades limítrofes podem apresentar resultados diferentes. “A resistência ocorre pelo uso prolongado e frequente de uma determinada molécula, portanto, quanto mais tempo de uso e quanto mais curto o espaço entre um tratamento e outro, mais cedo ocorrerá a resistência”, pondera. Assim, em razão da resistência a várias moléculas, no Brasil Central, ele diz que o ideal é realizar o teste de eficiência das mesmas (moléculas), principalmente quando o produtor desconfiar que o produto não está funcionando, momento quando os animais não ganham peso ou estão perdendo mais que o esperado com relação às condições de pastagem/alimentação.

Segundo Alessandro Minho, propriedades vizinhas podem apresentar verminoses resistentes a diferentes medicamentos

Minho afirma que a era da receita universal para controle de verminose acabou e a cada década tem havido a diminuição no lançamento de novos medicamentos anti-helmínticos, portanto, a detecção da resistência parasitária na propriedade tornou-se uma obrigação. Considerando um medicamento novo, ele afirma que a frequência dos genes da resistência é baixa, mas, com o passar dos anos, ela aumenta e torna-se elevada e o produto deixa de funcionar. “Esse fato é inevitável, mas pode ser retardado por vários anos com estratégias corretas de tratamento do rebanho”, garante. “Atualmente, entre todos os medicamentos disponíveis para ruminantes, as pesquisas científicas mundiais apontam maior prevalência de populações de vermes de bovinos resistentes às ivermectina 1%”, atesta.

Além disso, Minho afirma que muitos manejos voltados para o ganho de peso podem acelerar o aparecimento de resistência. “O mais comum é o ‘tratar e mudar’. O outro é manter as fêmeas com bezerro ao pé em uma pastagem após o trato das mães. Nesse caso, a população de nematoides que permanece viva irá liberar ovos nas fezes que contaminarão o pasto quando os bezerros começarem a ingeri-lo, sendo contaminados com ovos de helmintos resistentes, acelerando o estabelecimento da resistência”, relata.

Para reduzir o impacto do uso dessas duas estratégias, Minho orienta o produtor a tratar os animais e colocá-los novamente no piquete original por um período de cinco a sete dias. No caso das fêmeas com bezerro, ele sugere vermifugação na estação de monta, para que não haja aplicação do antiparasitário durante o aleitamento. “Caso seja necessário, a medicação deverá ser aplicada de forma seletiva (apenas para os animais com contagem alta de OPG).”

Especialistas apontam bons resultados do uso de produtos específicos para verminoses no tratamento

Falta e excesso
Para minimizar os riscos de subdosagem e superdosagem, Minho indica o tratamento dos animais em lotes homogêneos, ou, de preferência, após a pesagem dos bovinos, utilizando a dose correta, de forma a manter a eficácia do antiparasitário por vários anos.

“Tanto a subdosagem quanto a superdosagem são prejudiciais no longo prazo. A subdosagem elimina, em tese, apenas os parasitos muito suscetíveis ao medicamento (sem genes da resistência - homozigotos) e deixa vivos os heterozigotos (genes de suscetibilidade e de resistência) e os resistentes homozigotos (os que possuem apenas genes de resistência)”, explica e acrescenta que o pior agravante é que o tratamento deixará muitos vermes vivos e, em curto espaço de tempo, será necessária outra aplicação. “O aumento da frequência de tratamentos durante o ano é a principal causa da resistência”, aponta.

A superdosagem é ainda pior no longo prazo, na visão de Minho, pois apesar de eliminar muitos parasitas de uma só vez (todos os homozigotos suscetíveis, mais os heterozigotos que contêm ambos os genes), a dose não é capaz de suprimir os parasitas resistentes. “Nesse caso, a população de parasitas nos animais será predominantemente resistente e, após a superdosagem, se os mesmos forem alocados em uma pastagem nova (limpa) e na época seca (poucos parasitas na pastagem), a pressão de seleção sobre a população de vermes será intensa e apenas os resistentes sobreviverão. Na prática, em poucos anos, esse medicamento não mais funcionará”, salienta.

“Quando administramos um medicamento em superdosagem, o produto atingirá maiores picos de concentração no organismo dos animais e poderá afetar mais populações RS/SR (hetorizigotos) e SS (suscetíveis a um determinado produto) de helmintos, o que, por sua vez, acabaria diminuindo os parasitos dessa população mais rapidamente, sobrevivendo apenas os RR (resistentes ao produto)”, particulariza Lopes.

Em relação ao período de carência de um produto, Lopes conta que acompanhou alguns estudos para laboratórios farmacêuticos (não publicados), segundo os quais a carência está relacionada, principalmente, ao tempo de permanência do composto no organismo animal. “A elevação da concentração de um produto químico aumenta a quantidade de ativos nos tecidos alvos ou não, e também na circulação. Entretanto, o principal responsável por elevar o tempo de permanência de um composto no organismo do animal é o veículo utilizado em cada formulação”, elucida.

Paralelamente ao problema de multirresistência aos antiparasitários em bovinos, há os resíduos de medicamentos medicamentos nos produtos de origem animal que, além de causar danos à saúde do homem, podem diminuir o valor da carne ou até mesmo inviabilizar a exportação para mercados mais exigentes. “Nesse caso, a solução é mais simples, ler a bula do medicamento, utilizar a dose e a via de aplicação correta e respeitar os prazos de carência estabelecidos”, resume Minho.

Lopes comenta que os resíduos em carnes estão mais relacionados à administração de endectocidas (com elevado período de carência) em animais de terminação, conduta proibida por lei. “A relação custo-benefício do uso de endectocidas para essa categoria animal não é positiva, pois os bovinos, em sua maioria, não albergam carga de helmintos significativa. Além disso, alguns animais conseguem eliminar totalmente a carga de helmintos do organismo, processo denominado de autocura”, detalha.

Prevenção
Algumas técnicas como a rotação de pastagem, com alternância de espécie animal, utilizando o pasto inicialmente com bovinos e depois com ovinos ou equinos, podem reduzir a prevalência de nematoides patogênicos no campo. Cecília, do IZ, considera o pastejo rotacionado e a integração lavoura-pecuária como excelentes formas de controle da verminose em pastagens. “A integração lavoura-pecuária é ainda melhor”, diz.

Lopes lembra que o pastejo rotacionado impede o acesso de animais a uma pastagem por determinado período de tempo, agindo sobre a fase de vida livre dos nematoides. “Dessa forma, ocorrerá eliminação das larvas presentes e evita-se a reinfestação por ovos de helmintos.” Ele explica que a sobrevivência das larvas na pastagem depende de umidade elevada, proteção da radiação solar e temperatura ideal. “Esta última, quando muito baixa (4°C), impede o desenvolvimento e, quando muito alta (acima de 37°C), aumenta o metabolismo das larvas que consomem rapidamente a reserva energética e, como não se alimentam quando estão no terceiro estádio (L3), morrem devido à desnutrição.”

O fator limitante da rotação de pastagens, na opinião do professor da UFG, é o tempo necessário para que ocorra a morte da totalidade ou da maioria das larvas presentes. Em média, ele diz que nos meses quentes do ano, quando as larvas apresentam menor longevidade, são necessários de 60 a 70 dias para que ocorra redução significativa, o que vai contra o valor nutritivo das gramíneas, levando em consideração esse período. “Sendo assim, a adoção do pastejo rotacionado, na maioria das vezes, aumenta o grau de parasitismo por nematoides em bovinos, uma vez que proporciona o aumento no número de animais por área de pastejo”, comenta.

Wagner Dezoti optou pelo tratamento com endectocida na Agro Pecuária Taipá

Na avaliação do professor, a utilização de áreas de plantio de culturas agrícolas para pastagens apresenta vantagens do ponto de vista operacional, quando, por exemplo, alguns produtores plantam em conjunto milho safrinha e Brachiaria spp., em algumas regiões do Centro-Oeste. “Logo após a colheita do milho, os animais são soltos nessas áreas, que são praticamente livres de larvas de parasitos.”

Na opinião de Minho, a rotação com culturas (integração lavoura-pecuária) também pode reduzir a contaminação das pastagens e, nesse caso, viabilizar a estratégia de “tratar e mudar”, pois os parasitas resistentes que foram selecionados nessa ocasião serão mortos com o cultivo de lavouras na área de pastagem.

Na prática
A Agro Pecuária Taipá, localizada Amambai/MS, realiza o controle estratégico de verminose do rebanho com produtos injetáveis de amplo espectro (para parasitas internos e externos), sempre rotacionando os princípios ativos. O controle estratégico é feito em maio, agosto e novembro e, uma quarta dose, em maio do ano seguinte, quando os animais estão com idade por volta de 19/20 meses.

“Além de menos estresse, o benefício do controle estratégico de verminose é mensurado pelo ganho de peso dos animais”, atesta o médico- -veterinário e gerente da propriedade, Wagner Dezoti.

A propriedade utiliza a integração lavoura-pecuária. Depois da colheita da soja (em fevereiro/ março), a área é cultivada com Brachiaria ruziziensis e usada como pastoreio de bezerros desmamados. Em agosto, estes saem do pasto que recebe novo cultivo de soja a partir de outubro. Depois de 3 anos utilizando esse manejo, a área vira pasto definitivo. “Essa técnica ajuda bastante no controle de verminoses, diminuindo a infestação de larvas nas pastagens e a reprodução dos parasitos no ambiente”, comprova o gerente da fazenda.

Segundo Dezoti, o manejo rotacionado da pastagem, em módulos com 4 piquetes, onde os animais permanecem por 8 a 10 dias, também contribui para reduzir a infestação por parasitos.

A Agro Pecuária Taipá faz o ciclo completo de produção (cria, recria e engorda). O rebanho é formado por gado Nelore e cruzamentos de Brahman com fêmeas F1 (cruzadas), no total de 9 mil cabeças/ano. Os animais são abatidos em torno de 24 meses de idade, com 19 a 20 arrobas. A terminação é feita em semiconfinamento, durante 70 a 90 dias.


Produtos à base de fungos são estudados

Embora não haja fórmula milagrosa para acabar com o problema da verminose em ruminantes nos próximos anos, Alessandro Pelegrine Minho, pesquisador da Embrapa Pecuária Sul, diz que há várias estratégias disponíveis ao produtor, como os tratamentos alternativos, o que inclui controle biológico, homeopatia e fitoterapia.

Segundo Minho, mesmo que não acabem com o problema da verminose, essas alternativas colaboram com a manutenção da eficácia do tratamento com químicos, pois diminuem o número de aplicação durante o ano, reduzindo a pressão de seleção dos genes da resistência.

Os experimentos com fungos nematófagos no controle de nematoides gastrointestinais de animais são antigos. Os primeiros estudos foram publicados por cientistas franceses entre os anos de 1939 – 1943. No Brasil, dois grupos de Minas Gerais (Universidade Federal de Viçosa e Embrapa Gado de Leite), deram início às pesquisas.

De acordo com o professor do Laboratório de Biologia Celular e Tecidual da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), Clóvis de Paula Santos, algumas espécies de fungos têm potencial de serem empregadas no controle das verminoses em bovinos, já que reduzem a quantidade de formas parasitárias no ambiente, diminuindo a reinfecção do rebanho.

“A eficácia do controle biológico com espécies mais promissoras é considerável. Estudos demonstram redução ao longo do tempo da quantidade de ovos por grama de fezes, vermes intestinais e larvas no bolo fecal e pastagens. Em termos percentuais, é variável, mas, em média, fica em torno dos 60% em relação ao lote de animais sem controle algum”, compara Santos.

O professor da UENF conta que os estudos com fungos nematófagos surgiram a partir da necessidade de solucionar problemas decorrentes do uso de produtos químicos (de resíduos na carne, leite e derivados, a organismos não alvos no meio ambiente e resistência anti-helmíntica). “Nesse sentido, as pesquisas com fungos vêm demonstrando que o uso desses inimigos naturais seria mais vantajoso”, pondera.

De acordo com Santos, para completar seu ciclo de vida, os parasitos passam uma fase no bovino e outra, no meio ambiente (solo, bolo fecal e pasto), sendo que a maioria da população é encontrada no ambiente. “A administração do fungo é feita por via oral; o produto entra pelo trato digestivo e no bolo fecal germina, cresce e mata as larvas”, descreve. “Com isso, reduz a contaminação ambiental, deixando o pasto mais limpo”, prossegue.

Na opinião de Santos, a integração de métodos químicos e biológicos é viável, sendo importante observar cada vez mais a redução no uso dos compostos químicos, em função dos seus entraves e da crescente demanda mundial por produtos mais orgânicos. Ainda não existem produtos disponíveis para comercialização.


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