Sanidade

 

Clostridioses aniquilam o gado (e o ganho)

Animais de alto valor e com produtividade acima da média: esse é o sonho de todo pecuarista

Juliana Moreira Camargo* e Larissa Salles Teixeira**

Mas como todos os sonhos têm obstáculos, aqui não poderia ser diferente. Produtor, você sabe quais riscos os animais estão correndo? O pecuarista sabe bem do que estamos falando: seca, crise econômica e época de bois magros, é claro. Como se já não bastasse, ainda há o pesadelo das enfermidades, mais especificamente as infectocontagiosas, que em questão de dias podem aniquilar um rebanho inteiro ou pelo menos boa parte dele. Quando uma doença assombra a propriedade e acomete o rebanho, não tem bolso que aguente.

Não podemos diminuir a importância de todo investimento em genética, cruzamentos e manejo reprodutivo. Isso faz parte, mas não é tudo. Se um animal tiver potencial, mas não tiver as condições necessárias, dificilmente conseguirá expressar tudo aquilo que poderia. E de que forma conseguir bons resultados? Para alcançar o máximo potencial, a resposta é simples: MANEJO, especialmente o sanitário.

Toda e qualquer doença infectocontagiosa que chegue perto do rebanho, seja por água, ar, alimento, ambiente ou animais, já está em grande vantagem. E aqui fica uma má notícia: o adversário principal é o pecuarista e todas as cabeças de gado presentes nos seus alqueires.

Entre as doenças que mais matam os animais estão as temidas clostridioses. E elas ganham ainda mais força porque são vários agentes causadores de diversas enfermidades. Podemos citar, apenas para começar: o “mal do ano” ou “manqueira”, tétano, botulismo e a gangrena gasosa. E os grandes responsáveis por todo esse prejuízo são os clostrídios.

Eles pertencem a um grupo de bactérias anaeróbias, ou seja, que se multiplicam na ausência do ar e que são gram- -positivas, esporuladas e produtoras de toxinas, caracterizadas por um estado tóxico e infeccioso, gangrenoso ou septicêmico do gênero Clostridium spp., altamente fatais. Estão presentes no solo e no tubo digestivo dos animais, mesmo aqueles sadios. Produzem toxinas poderosas, responsáveis pelos sintomas e lesões observados nos animais doentes. Provocam a morte tanto de bovinos de corte quanto de leite, confinados ou mantidos no pasto, bezerros ou adultos, toda e qualquer categoria que se encontre desprotegida.

Os clostrídios penetram no organismo na forma de esporos, através de alimentos contaminados, feridas (castração, tosquias, partos) ou até mesmo por inalação. As toxinas são produzidas no organismo ou são ingeridas pré-formadas. A principal característica desse microrganismo é o fato de conseguir permanecer no ambiente por muito tempo.

Alerta

Essas bactérias, de acordo com o modo, local de ação e danos causados, podem ser divididas em neurotrópicas, enterotoxêmicas, hepáticas e causadoras de mionecroses.

Salve seu patrimônio cuidando da sanidade do rebanho

As clostridioses mais comuns em bovinos no Brasil são o Botulismo, a Manqueira ou Carbúnculo Sintomático, as Gangrenas Gasosas, o Tétano e a Enterotoxemia.

Seja qual for o sistema de produção, os animais têm de viver em boas condições. Condições nutricionais, com boa alimentação; condições de ambiente limpo e desinfetado, sem restos de alimentos ou cadáveres em decomposição e condições sanitárias com protocolos vacinais seguidos à risca.

Tendo cumprido essas necessidades básicas, então de fato vale a pena investir em genética, em reprodução, em métodos mais avançados para garantir a eficiência produtiva.

Os clostrídios estão espalhados por todo o território brasileiro. Para que conheça melhor cada um deles e as doenças que causam, veja o quadro.

O grande problema que talvez tenhamos é que os clostrídios são habitantes normais da microbiota intestinal de ruminantes e, por isto, em uma situação em que houver oportunidade, eles acabam se proliferando, como por exemplo em situações de estresse, manejo alimentar inadequado, cirurgias, parto ou parasitismo.

Os bovinos acometidos podem até ser tratados com antibióticos, terapia suporte e soro contra toxina (quando disponível), porém, normalmente todo esse aparato terapêutico pode ter valor econômico muito alto e pouco efetivo, o que, além de encarecer o tratamento, não é garantia de sucesso. Isso porque estamos falando de apenas um animal infectado, mas se fizermos os cálculos pensando em um surto dentro da propriedade, o prejuízo é ainda maior e mais assustador. Some-se a isso a perda pela morte dos animais que, como comentamos no início deste texto, podem ser de alto valor, excelentes reprodutores ou bezerros que poderiam ser muito lucrativos. Faça as contas e responda: vale mais a pena arriscar ou vacinar?

A criação do gado de corte ou mesmo de leite não pode, de forma alguma, ficar à mercê de um surto que pode ser evitado. Falamos a todo o momento sobre o prejuízo econômico, sempre muito grande e, ao falarmos em números, as clostridioses, junto com a raiva e as intoxicações por plantas, são as maiores causas de mortalidade bovina em animais criados extensivamente. Já os animais criados em confinamentos sofrem maiores riscos com o botulismo e o carbúnculo sintomático, além de outras clostridioses.

Estima-se que a média de mortalidade em bovinos por botulismo seja de aproximadamente 13%, enquanto os de carbúnculo chegam a 15%. Agora, pergunte-se: quanto custaria perder 13 a 15% do seu rebanho?

Analisando o custo-benefício e o massacre causado ao bolso do produtor, não há nem que se perguntar novamente se vale a pena vacinar. Os produtores mais atentos já vacinam e reconhecem a importância da prevenção. E o produtor, aquele que conhece bem seu sistema de produção, sabe: uma boa vacina deve conter a máxima cobertura contra doenças, o que facilita o manejo dos animais.

Existem diversas opções no mercado que protegem contra a grande maioria dos clostrídios, mas para que tudo ocorra da maneira correta, orienta-se um manejo segundo a bula do fabricante. Na grande maioria, recomenda-se a primovacinação dos bezerros aos quatro meses de idade e 30 dias depois é feita a segunda dose. Então, estabelece-se um reforço anualmente, mantendo o nível de proteção acima do risco de infecção.

Vacinação

Uma boa produção, um bom ano, um grande lucro, um “caixa gordo” no fim do mês é resultado de esforço e dedicação, investimento em genética, nutrição e prevenção contra doenças. Não basta um ou outro, todos são necessários e se completam.

De nada adianta termos um animal de excelente genética se ele não for bem nutrido. De nada adianta termos um animal de grande valor se ele ficar doente e morrer. De nada vale termos a melhor produção se não garantirmos o mínimo de estímulo e prevenção. As clostridioses e várias outras enfermidades estão aí, são inimigos invisíveis e que atacam sem misericórdia. O seu gado está preparado?

*Juliana Moreira é médicaveterinária e gerente do Departamento Técnico da Vencofarma - setec@ vencofarma.com.br **Larissa Salles é médicaveterinária e trainee do Departamento Técnico da Vencofarma -setec3@ vencofarma.com.br


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