Entrevista do Mês

 

Sustentabilidade na prática

Há muito por fazer, mas o Brasil segue sua escalada à sustentabilidade. As melhorias são contínuas e o diferencial do “boi verde” deixa o país à frente dos concorrentes na corrida para suprir a demanda mundial por carne bovina. Para tratar do assunto, convidamos Eduardo Brito Bastos, presidente do Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS), entidade que ganha relevância internacional.

Adilson Rodrigues
adilson@revistaag.com.br

REVISTA AG - Muito se fala sobre sustentabilidade, mas acredita-se que hoje exista uma distorção do conceito, afinal, muitos valorizam a preservação do meio ambiente e se esquecem que o empreendimento também precisa gerar retorno econômico?

Eduardo Brito - A pecuária sustentável apoia-se em três pilares: ambiental, social e econômico. Será cada vez mais inviável para o pecuarista Eduardo Brito - A pecuária sustentável apoia-se em três pilares: ambiental, social e econômico. Será cada vez mais inviável para o pecuarista.

REVISTA AG - Nesse aspecto, comparado a outros países, a pecuária brasileira é sustentável?

Eduardo Brito - A pecuária brasileira é sustentável, mas há sempre espaço para melhorias. A atividade precisa utilizar práticas que melhorem a produtividade e não causem danos ao meio ambiente. O uso da terra deve ser multifuncional e economicamente viável, sendo ajustado a cada situação específica. Além disso, provando que a preocupação com a sustentabilidade já era pauta no segmento, o GTPS foi a primeira mesa redonda mundial a ser criada, em 2007, e formalmente constituída, em 2009. A partir do nosso exemplo, atualmente há mesas redondas sobre pecuária sustentável sendo criadas em outros países, como Colômbia, Uruguai, México, Austrália, Argentina e Paraguai. Outras já estão com muitas atividades em andamento, como a Mesa Redonda Global e Canadá.

REVISTA AG - Ainda neste tocante, como você avalia a produção do boi verde (criado a pasto) pelo Brasil? Estamos no caminho certo?

Eduardo Brito - Esse é o caminho. Segundo a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE), a maior parte do rebanho brasileiro, de 212 milhões de cabeças, é criada no pasto. Estima-se que somente 3% do rebanho sejam terminados em sistema intensivo. A partir desse sistema de produção, é possível produzirmos carne bovina em maior quantidade, de melhor qualidade e com preços competitivos. Vale ressaltar que a produção do Boi Verde também exige bom manejo, tratos sanitários, controle de parasitoses, boa genética e outros fatores que são extremamente relevantes para garantir o padrão exigido pelos mercados internacionais que buscam produtos mais naturais e saudáveis.

REVISTA AG - O Brasil é o player mais capacitado para suprir a gigante demanda de carne que está por vir no mundo, por isso o país chama a atenção. Acha exagerada a interferência das ONGs estrangeiras na nossa pecuária?

Eduardo Brito - Acredito que as reivindicações e exigências das ONGs estrangeiras servem para melhorarmos cada vez mais a nossa qualidade na produção de carne bovina no Brasil, contribuindo principalmente para a evolução das exportações. O Brasil tem produzido cada vez mais com menos na busca para conciliar produção, preservação ambiental e mudanças climáticas. O crescimento da renda e da população fará com que o consumo de carne aumente no mundo, principalmente em países em desenvolvimento, na Ásia e na América Latina. A conclusão está no Agricultural Outlook publicado pela FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) e pela OECD (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

REVISTA AG - Também há muita polêmica em torno da emissão de gases de efeito estufa pelos bovinos. Acredita que falta critério na interpretação desses dados? Poderia ser uma manobra para tirar foco das grandes emissões de gás carbônico provenientes de combustíveis fósseis e processos industriais por outras potências econômicas?

Eduardo Brito - Como você disse, existem inúmeras outras fontes como as de origem antrópica (poluição de automóveis, desmatamentos, queimadas, etc.), e que, segundo os especialistas, possuem impacto até quatro vezes maior do que a emissão de metano pelos bovinos. A criação de animais é essencial para a vida de cerca de um bilhão de pessoas no mundo. Pastagens podem ser enormes sumidouros de carbono. O próprio índice usado para converter metano em equivalente carbono tem sido contestado por pesquisadores.

A mudança nesse índice modificaria completamente a leitura da participação da pecuária nas emissões globais. Vale dizer também que, nos últimos 15 anos, a pecuária passou a reduzir a área que ocupa, e ainda assim continua a aumentar produção. De acordo com o estudo da Faculdade de Zootecnia da Universidade de São Paulo, o Brasil foi o que mais reduziu as emissões de metano para cada quilo de carne produzida nos últimos 20 anos. Sem contar a recuperação de áreas degradadas prevista na lei ambiental brasileira, aliada à eficiência no campo e à agroenergia, que transformará o Brasil em credor no mercado de carbono mundial, um líder no setor e um exemplo para o mundo.

REVISTA AG - Pelo que o GTPS tem acompanhado, por quantas anda o relacionamento do Brasil com a FAO?

Eduardo Brito - O relacionamento do Brasil com a FAO tem sido enriquecedor para o debate da evolução do modelo de pecuária sustentável no País, pois é possível discutirmos temas que abordam toda a cadeia produtiva e preservação do meio ambiente. Inclusive, representantes do GTPS estiveram presentes na reunião da FAO sobre Pecuária Sustentável, em Roma.

REVISTA AG - O mundo precisa cada dia mais de alimentos. Estamos preparados?

Eduardo Brito - Atender a demanda crescente de carne com sustentabilidade é um grande desafio. Até 2050, teremos ao menos 2 bilhões de pessoas a mais no mundo. Mais de 9,5 bilhões de pessoas demandarão 70% a mais de alimentos e quase o dobro de proteínas animais. Desse total, mais da metade terá de vir do Brasil. Ou seja, precisaremos dobrar a produção, reduzir o desmatamento, gerar mais emprego, mais riqueza e menos carbono. O desafio é grande demais e por isso temos de agir em conjunto, com o envolvimento de todos os elos da cadeia de valor bovina.

REVISTA AG - O Brasil poderá se tornar uma referência global em práticas sustentáveis de produção?

Eduardo Brito - Pelo trabalho que vem sendo realizado aqui nos últimos anos e por sermos o segundo maior rebanho bovino, de acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda), o Brasil já é uma referência. Pelo estudo divulgado no final de 2014, nosso país possui 208 milhões de cabeças, o que equivale a 20,1% do rebanho mundial. Outro exemplo que mostra a nossa relevância brasileira no cenário global foi que sediamos em São Paulo, em novembro do ano passado, a Conferência Global sobre Carne Sustentável, promovida pela Global Roundtable for Sustainable Beef (mesa redonda global), evento que contou com o apoio do GTPS. A Conferência, que durou três dias, foi uma ótima oportunidade de discussão sobre o futuro da sustentabilidade na pecuária, bem como sobre o andamento das atividades das mesas redondas.

REVISTA AG - Já é possível estabelecer que o GTPS é um dos principais mediadores entre os diferentes elos da pecuária brasileira?

Eduardo Brito - Somos uma mesa redonda formada por representantes de diferentes segmentos que integram a cadeia de valor da pecuária bovina no Brasil, entre eles indústrias, organizações do setor, produtores e associações, varejistas, fornecedores de insumos, bancos, organizações da sociedade civil, centros de pesquisa e universidades. São segmentos diferentes e que, por isso, em algumas circunstâncias, as ideias conflitam. Neste momento, o trabalho do grupo é fundamental para alinhar todas as discussões e chegar ao resultado sustentável e benéfico para todos os segmentos.

REVISTA AG - Quais os frutos gerados por esse trabalho?

Eduardo Brito - A missão do GTPS é a de tornar os meios para a sustentabilidade acessíveis a todos. Compartilhar os pilares nos quais o trabalho da nossa associação se apoia e fazer com que exemplos como os do Programa Pecuária Sustentável na Prática ganhem escala e sejam cada vez mais colocados em prática em diversas propriedades brasileiras. A tendência é que os diversos agentes se unam em prol de uma pecuária mais sustentável. Novas parcerias têm sido formadas, o que demonstra a percepção de que a união realmente faz a força, trazendo um intercâmbio de conhecimento e colaboração. Além de novos campos de atuação, ampliando os segmentos que podem ser trabalhados. No segundo semestre, concluiremos o programa citado, quando teremos compilado um Guia de Boas Práticas para a Pecuária Sustentável, mais voltado aos produtores. Esse guia não tem o intuito de propor nenhuma prática nova, mas sim reunir e classificar em um mesmo material as tecnologias aplicáveis aos sistemas praticados de acordo com o nível de complexidade, custo de implementação e incremento em curto, médio e longo prazos.

REVISTA AG - O que seria o projeto “Pecuária Sustentável na Prática”?

Eduardo Brito - O programa reúne sete projetos brasileiros que mostram que a prática da pecuária sustentável é possível e permite o aumento da produtividade e rentabilidade. Eles estão localizados em importantes regiões produtoras de carne em cinco estados brasileiros: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Rondônia e Bahia, além de 24 parceiros, entre eles frigoríficos, associações de produtores, provedores de insumos ou assistência técnica, supermercados, organizações não-governamentais, bancos, sindicatos e prefeituras. Os projetos englobam mais de 856 produtores e 777 mil hectares trabalhados. O programa conta com financiamento da Fundação Solidaridad, por meio do Farmer Support Programme (FSP), fundo do governo holandês. Foram investidos R$ 3 milhões somados à contrapartida financeira de R$ 9 milhões de diversos parceiros, totalizando um aporte de R$ 12 milhões no projeto.

REVISTA AG - O grupo também tem conseguido chegar ao consumidor final? Como está a percepção junto ao pecuarista?

Eduardo Brito - O conhecimento sobre a importância da procedência da carne é cada vez maior por parte dos consumidores. Muitos já fazem questão de adquiri-la de estabelecimentos que apoiem ou desenvolvam programas de adequação legal, econômica e ambiental. Esse é um caminho sem volta e essa preocupação será cada vez maior com o passar dos anos. O pecuarista ou qualquer outro elo da cadeia de valor da carne bovina deverá sempre se atualizar nesse sentido. O GTPS está à disposição para todos que queiram mais informações para esse fim.


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