Caindo na Braquiária

 

Pecuária de corte descolada da crise

Alexandre Zadra - Zootecnista zadra@crigenetica.com.br

Era fevereiro de 2009 quando desembarquei no grandioso aeroporto de Houston em meio a séria crise econômica norte-americana, a qual derrubaria como em um castelo de cartas o PIB dos cinco continentes, mantendo o planeta na berlinda por pelo menos três anos. Eu me perguntava a todo instante durante a cansativa viagem que atravessara a noite para ali desembarcar às 5h da manha – “Será que vou fazer bons negócios nessa crise que assola os EUA? Acho que vou comprar os touros baratos para coleta de sêmen, pois os criadores devem estar quebrados”.

Minhas dúvidas foram dirimidas tão logo pisara no Meio Norte-Americano, região conhecida pela sua fortíssima pecuária de corte e por abrigar os melhores criatórios de Angus do planeta, pois assim que cheguei ao primeiro famoso criatório, já questionei o nobre selecionador sobre como estavam lidando com a crise naqueles momentos difíceis, obtendo uma resposta surpreendente: “Apesar de dependermos do consumo de carne, na qual a maior demanda do produto está alocada na costa Leste e Oeste do país, regiões que vêm sofrendo com a crise, aqui no interior não a estamos vivenciando, pois aqui nossos bancos são regionais e só emprestam dinheiro para quem vai pagar”.

Tanto era verdade o que ouvi na maioria dos interioranos de lá que em todos os seis criatórios de Angus e Red Angus que busquei touros, fiz negociações difíceis para se conseguir comprar os animais por mim selecionados. Os preços médios dos leilões nunca baixaram em tempos de crise.

Como um bom aquariano, busco a todo instante olhar cada situação vivida com um olhar crítico. Analisando e estudando o mercado de carnes, vejo-me voltando no tempo, quando podemos dizer que nosso setor anda descolado da crise, como ocorreu no interior dos EUA, haja vista os preços vigentes da arroba nos últimos tempos.

Afirmo que a pecuária de corte está à deriva da crise, diferentemente do setor industrial, do comércio e dos serviços, pois o valor da arroba indexada em dólar ou em insumos está muito melhor que em anos anteriores.

O PIB do setor de carnes e agropecuário em 2014 vem crescendo acima do PIB nacional. De acordo com a MB consultores, verifica-se um aumento importante na demanda internacional, impulsionada pelo maior consumo chinês.

Outro fator que nos tira o sono é a sanidade contábil dos exportadores de Petróleo (países árabes, Rússia e Venezuela), os quais juntos representam boa parte de nossa receita externa, e com a diminuição de sua receita com o óleo, poderiam consumir menos nossa carne, o que não acredito, pois os xeiques deverão fechar suas torneiras no sentido de construir palácios e gastar com edificações supérfluas no deserto, mantendo seus pratos cheios de comida.

Em contrapartida ao céu de brigadeiro que vejo, alguns poderiam argumentar que os custos dos insumos como adubos podem subir com a desvalorização do real, entretanto, José Roberto Mendonça de Barros descreve com muita clareza que em parte é uma verdade, mas o contrário também pode ocorrer, pois com a queda do preço do petróleo para US$ 50,00 o barril, também caíram os preços dos fretes e fertilizantes nitrogenados. Para se ter ideia, afirma Mendonça de Barros, desde o segundo semestre de 2014 o preço do frete para cargas secas do Báltico caiu em 50% e a ureia tem um deságio de 20%. Ademais, muitos custos do campo não dependem do dólar, impactando muito menos na matriz de custos do produtor.

Por esses motivos, considero a pecuária surfando em uma onda de pipeline, a qual somente acabará se nossa população de 200 milhões decidir parar de se alimentar, fato improvável, já que o IBGE indica que de 2012 a 2014 o consumo interno cresceu 10%.


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