Leite

 

ALTA PRODUÇÃO

Alternativas nutricionais frente aos desafios da natureza

Liéber de Freitas Garcia*

Na atividade leiteira, os alimentos representam um alto valor percentual em relação ao custo de produção de um litro de leite. Comparando vacas leiteiras de alta produção com animais de baixa produtividade, a demanda por nutrientes pela glândula mamária é maior para o primeiro grupo.

Sendo assim, uma alimentação equilibrada, na qual o custo alimentar seja balanceado com os nutrientes necessários para suportar uma produção média compatível com a raça é de fundamental importância, tanto para longevidade do animal, quanto para atividade econômica leiteira.

Os alimentos destinados ao arraçoamento dos animais leiteiros devem conter os seguintes nutrientes: energia, sendo as fontes desse nutriente divididos em carboidratos fibrosos, carboidratos não fibrosos e lipídeos; proteína, minerais, vitaminas e água.

O que torna a vaca leiteira em um animal completamente especial em relação às demais espécies domésticas é a presença em seu trato digestório de uma câmara de fermentação chamada rúmen.

Milhões de anos em evolução fizeram com que essa espécie pudesse, em simbiose com micro-organismos ruminais, degradar a inerte fibra e transformá-la em energia, carne e no leite propriamente dito.

Pois bem, cabe ao nutricionista, então, formular uma dieta economicamente viável, que atenda as demandas nutricionais da flora ruminal e da vaca propriamente dita.

Quanto maior a produção leiteira, maior deverá ser a eficiência de utilização dessa câmara de fermentação.

Animais de alta produção devem receber grande quantidade de concentrado para suplementar volumosos de origem tropical como capim-mombaça, tifton 85 e a própria silagem de milho.

Nutricionalmente para vacas de 35 litros de leite ou mais, a dieta bem balanceada deverá conter de 15% a 17% de proteína. Esse teor irá depender do perfil de aminoácidos e proteínas presentes nos alimentos da região, da quantidade degradada pelo rúmen e daquela utilizada pelo animal. Porventura, podemos oferecer aminoácidos protegidos da degradação ruminal, ou potencializar a principal fonte de aminoácidos para uma vaca leiteira, que seriam os próprios micro-organismos ruminais. Carboidratos não fibrosos podem variar de 35% a 50%, sendo o amido a principal fonte. No entanto, irá depender da quantidade mínima ou máxima de carboidratos fibrosos (fibra da dieta) e do processamento da fonte desse carboidrato. Pode- -se lançar mão das técnicas de processamento dos grãos de milho e/ou sorgo, como a ensilagem do grão reidratado ou colheita do grão úmido para melhor disponibilização do amido ruminal. A exigência da porção fibrosa, também conhecida como fibra em detergente neutro (FDN), também é dependente do tamanho da partícula do alimento forrageiro.

Quanto aos lipídeos, devem-se utilizar entre 5% a 6% na dieta, com uma particularidade. Dependendo da fonte, deverá ser oferecida de maneira inerte ao rúmen, ou seja, protegido da degradação dos micro- -organismos. Os lipídeos, quando ricos em ácidos graxos poli-insaturados, como o óleo de soja (ácido linoleico), podem inibir a síntese de gordura pela glândula mamária. Como os lipídeos são tóxicos para esses micro-organismos, os mesmos os transformam em compostos intermediários da bio-hidrogenação, como forma de proteção. Esses compostos intermediários vão, na glândula mamária, inibir a síntese de gordura no leite, podendo penalizar o produtor, caso o mesmo receba por qualidade composicional de seu produto. Dessa maneira, quando se almeja melhorar o teor de gordura no leite utilizando-se gordura protegida, o mesmo deverá ser rico em ácido graxo saturado, como o óleo de palma.

Para melhor aproveitamento dos nutrientes, é preciso também atentar ao consumo de água

Os minerais devem suprir as exigências dos animais, levando em consideração a biodisponibilidade da matéria-prima utilizada (orgânico ou inorgânico), estado fisiológico e nível de produção. A fase de maior risco de desbalanceamento de minerais é a fase que antecede ao parto, aproximadamente 21 dias antes da data prevista.

Nessa fase, define-se toda a lactação de uma vaca de alta produção, pois qualquer problema oriundo de um desbalanço mineral na dieta compromete a reprodução futura por retenção de placenta, febre do leite ou hipocalcemia e edema de úbere, causados por deficiências ou desbalanceamento em selênio, cálcio, fósforo, magnésio, cloro, enxofre, sódio e potássio. Além do mais, animais muito gordos nessa fase podem evoluir a quadros de Cetose, que poderá acarretar as mesmas enfermidades já citadas anteriormente, além do deslocamento de abomaso e mastites oportunistas da debilidade em que o animal venha a se encontrar.

Exigências em vitaminas A, D e E não levam em consideração a produção leiteira (NRC, 2001) e sim são proporcionais ao peso vivo do animal. Dessa forma, 110 UI/kg de peso vivo, 30 UI/ kg de peso vivo e 0,8 UI/kg de peso vivo são os requerimentos diários, respectivamente, de vitaminas A, D e E.

A vitamina E associada ao selênio tem melhorado a resposta aos agentes infecciosos como os causadores de mastites, metrites, melhorando a eficiência reprodutiva. A deficiência em vitamina A relaciona-se com casos de abortos e retenção de placenta. Já a vitamina D está relacionada com a mobilização de cálcio na corrente sanguínea.

Pesquisas recentes sugerem para vacas de alta produção a adoção de vitaminas do complexo B como a colina, niacina e biotina. O uso de colina protegida no pré-parto tem prevenido casos de Cetose. A niacina também no pré-parto tem diminuído a mobilização de gordura corporal, também prevenindo casos da doença. Já quanto à biotina, estudos mostraram que a suplementação mínima de 20 mg/dia diminui problemas nos cascos e aumenta a produção leiteira.

Pois bem, quando se obtém na região produtora alimentos concentrados de boa qualidade e a forrageira foi produzida de forma a obter o máximo aproveitamento nutricional, atingir os requerimentos supracitados torna-se um pouco menos oneroso.

Quanto à água, esse é o principal nutriente para uma vaca leiteira e é o maior nutriente negligenciado em nossas fazendas e está intimamente relacionado com o consumo de matéria seca. Como todos os nossos nutrientes estão baseados em porcentagem de matéria seca ingerida, esse deveria de ser o principal item a ser monitorado. Uma vez errado na ingestão predita, assim ficará por toda a formulação.

Segundo Liéber Garcia, a fase de maior risco de desbalanceamento de minerais é a que antecede ao parto

Segundo NRC, 2001, uma vaca produzindo 36 litros de leite diariamente, a uma temperatura de 26°C, tem uma demanda de aproximadamente 112 litros de água. Se considerarmos que no país a média da temperatura no verão facilmente passa dos 30°C, o déficit nutricional de água é muito grande, sem contar a sua qualidade, que deveria ser limpa. Essa mesma vaca deveria ingerir aproximadamente 120 litros de água por dia. Contudo, uma dica para aumentar a produção leiteira sem mexer na nutrição seria apenas lavar os bebedouros e disponibilizar água compatível com a produção e temperatura da região.

Com a diminuição das chuvas, justamente nos períodos em que se esperava um maior índice pluviométrico, comprometeram- se as lavouras destinadas à produção de volumosos em várias regiões do país em 2014. Esse mesmo quadro tende a se repetir em 2015.

Dessa forma, torna-se oportuno o uso de aditivos alimentares que propiciem um melhor aproveitamento do alimento, principalmente da porção fibrosa, uma vez que a mesma pode ser comprometida, levando o produtor a utilizar uma quantidade maior de alimentos concentrados para suprir a demanda nutricional do animal.

No entanto, com essa grande quantidade de concentrado, aliada a um volumoso que, em sua produção ou intempéries da natureza, possa ser de baixa qualidade, compromete-se essa simbiose micro-organismo-vaca leiteira, fazendo com que o animal não expresse todo o seu potencial produtivo.

Para se utilizar aditivos, deve-se levar em consideração alguns critérios de uso, como a resposta animal, o retorno econômico, pesquisa disponível e a resposta a campo.

Garcia et al., (2013), comparando o efeito da degradação de forragem de baixa qualidade e produção de metano, utilizando monensina sódica, Fator P (polímero de ácidos graxos funcionais) e levedura viva, obteve resultados significativos na eficiência de utilização dos nutrientes de tifton 85, com alto teor de fibra em detergente neutro.

Reduziu-se a produção de metano em 36%, 24% e 19%, respectivamente. Sabe-se que a produção de metano é uma resposta à ineficiência ruminal em degradar fibras, ou seja, é uma forma de perda de energia do sistema. Com este estudo, conclui-se que há uma melhora na eficiência energética, aumentando, inclusive, a degradação da matéria seca do alimento, que no citado estudo foi de 18,5%, 19,6% e 20,7% para monensina, leveduras e polímeros, respectivamente. Essa energia melhor e a degradação podem ser utilizadas pelo animal para a produção de leite, crescimento e reprodução, podendo- se estimar de 0,8 a 1,5 litro de leite/vaca/dia, sendo alternativa a uma provável queda na qualidade das forrageiras, se a estiagem ocorrida em 2014 se repetir em 2015.

*Liéber Garcia é médico-veterinário e coordenador de Pecuária Leiteira da Premix - lieber.garcia@premix.com.br


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