Entrevista do Mês

 

Gestão e QUALIDADE

Angus caminha firme na expansão do programa de carne certificada, um dos trampolins para a atual popularização da raça, inclusive nas grandes redes alimentícias. Como se chegou a tal resultado? Quem responde é José Roberto Pires Weber, presidente da Associação Brasileira de Angus.

Adilson Rodrigues - adilson@revistaag.com.br

Revista AG – No ano passado, a genética Angus mostrou-se presente em diversos programas de qualidade de carne bovina e superou o Nelore nas vendas de sêmen. A que atribui esse excelente resultado?
José Roberto Pires Weber – Bem, sem nenhuma dúvida, o Angus vem com um crescimento muito grande há alguns anos, como o de 2013. O grande passo que a raça deu foi através do programa de carne certificada, no qual ficou viabilizado o cruzamento com o Nelore, pois é a raça principal no nosso país. Assim, os pecuaristas perceberam que cruzando com Angus melhoravam a qualidade da carne que ofertavam e ainda conseguiam um plus no preço. Evidentemente que, por trás disso tudo, há uma forte atuação da Associação Brasileira de Angus (ABA) em cada frigorífico conveniado, com um técnico da entidade que vistoria os animais antes e durante o abate, examinando as condições fenotípicas e de carcaça dos animais. Esse trabalho, ao longo de mais de dez anos, conferiu credibilidade ao programa.

Revista AG – E quais seriam as expectativas para a pecuária bovina como um todo em 2015?
Weber –
Nós estamos, na verdade, em um período muito bom para a pecuária, há uma necessidade de alimentos de qualidade. Hoje, o consumidor está extremamente exigente, ou seja, ele quer proteína vermelha, mas nossa experiência participando de eventos no exterior diz também que ele deseja saber a origem do produto. O cliente pede que o produto seja rastreado. O Brasil precisa evoluir nesse sentido. As carnes uruguaia e argentina, similares à Angus, são vendidas por preços muito superiores no mercado internacional. Acredito que dessa forma nós teremos bons anos de mercado adequado para carne Angus em geral, porque o mundo precisa se alimentar, o crescimento demográfico é evidente.

Revista AG – O ano que se inicia poderá ser um divisor de águas na pecuária brasileira. O Angus terá papel primordial nesta história?
Weber –
Acredito que sim. Na questão da carne Angus, em 2014, certificamos 330 mil cabeças de gado nos tornando o maior programa de carne certificada do Brasil. Porém, não estamos conseguindo atender a demanda porque a procura é muito superior à oferta. Entendemos que o nosso sucesso decorre justamente do cumprimento estrito das regras estabelecidas, de forma que o consumidor saiba que carne Angus é exatamente aquilo que nosso programa afirma: gado novo, bem preparado, com gordura adequada e alimentação supervisionada, ou seja, preferimos não atender a todos, mas atender muito bem a quem conseguimos chegar.

Revista AG – Quais os projetos desenvolvidos para a raça em 2015?
Weber –
Estamos sentindo que o “animal show”, aquele que participa de rankings e exposições vem apresentando certa retração, devido à falta mão de obra para o preparo desses animais e pelos altos custos que envolvem. É evidente que nós vamos continuar batendo nesse aspecto porque essa é a produção de genética que nós temos. Esses animais de exposições são utilizados no melhoramento constante da genética Angus, mas vamos olhar com muito carinho para o animal rústico, que está no campo e produzirá a matéria-prima para nossa Carne Angus Certificada. Além disso, vamos intensificar essa parceria informal que temos com os criadores de Nelore, aumentando a expectativa econômica dos cruzamentos Angus.

Revista AG – A ABA tem focado bastante no estado de Santa Catarina, referência na produção de frango e suínos. Por ser uma área livre de aftosa sem vacinação, estaria aí a grande aposta?
Weber –
Sabemos que o rebanho bovino catarinense é todo rastreado. Eles tomaram essa atitude de vanguarda embora a bovinocultura deles não seja forte. A rastreabilidade bovina viabiliza uma melhoria enorme no preço dos suínos e das aves. Por isso, estão em um nível superior ao resto do Brasil. E o Angus está lá presente, tanto que tínhamos um frigorífico conveniado localizado ao Sul de Santa Catarina, o Frigorífico Verdi. Em janeiro, lançamos o nosso programa Carne Certificada Angus com o Frigorífico São João, da grande Joinville, que atende o Norte do estado. E tem um aspecto muito interessante, devido a sua condição sanitária, eles não podem importar animais de outros estados. Por isso estão importando genética através de embriões, isso faz que tenham um rebanho Angus de grande qualidade.

Revista AG – O meio-sangue Angus/Nelore ganhou novo reconhecimento. Onde ele se encaixa melhor nos demais programas de cruzamento industrial?
Weber –
A raça se encaixa em qualquer programa de cruzamento. Proporciona a qualquer raça uma qualidade na carne intrínseca ao marmoreiro. A gente fala muito do cruzamento com o Nelore porque a raça tem a maior população bovina no Brasil, mas os cruzamentos com Angus são utilizados por diversas raças e havendo 50% de sangue Angus o produto resultante é amparado pelo Programa de Carne Angus Certificada. Mas é claro que, para obter o melhor cruzamento, depende das condições individuais do pecuarista, como as condições ambientais, do manejo e do clima.

Revista AG – Aliás, hoje já é possível afirmar que o pecuarista aprendeu a fazer cruzamento industrial ou boa parte do mérito está nos programas de IATF e assistência técnica que vem junto com ela?
Weber –
Olha, a IATF foi uma ferramenta muito importante no processo reprodutivo pelo país. Houve há alguns anos uma polêmica sobre o assunto, mas o pecuarista aprendeu a fazer o cruzamento, que é extremamente importante para aumentar a heterose. Essas questões dependem muito da rentabilidade do negócio. E quem cruza com Angus consegue vender seu produto por até 10% a mais do preço normal de mercado.

Revista AG – Em relação à parceria com o Mc Donald’s, como estão as vendas do Angus Deluxe? Continua entre os lanches mais vendidos?
Weber –
O Mc Angus é um sucesso permanente, inclusive em breve haverá um lançamento de dois tipos de produtos da linha congelados. Embora não tenhamos o acompanhamento direto das vendas, a gente comprova o sucesso do produto pelas vendas de carnes Angus através dos frigoríficos para o Mc Donald’s.

Revista AG - Considera que essa foi uma das maiores conquistas da Carne Angus Certificada?
Weber –
Foi uma das grandes conquistas por uma questão do tipo: qualquer programa de carne tinha facilidade para vender o traseiro do boi e tinha alguma dificuldade, especialmente fora do Rio Grande do Sul, para comercializar dianteiro e costela, a matéria-prima utilizada no hambúrguer justamente se abastece do dianteiro e da costela, permitindo um aproveitamento mais integrado da carcaça.

Revista AG – Atualmente, em quais estados o Programa Carne Angus Certificada está presente e quantos são os frigoríficos parceiros?
Weber –
Temos esse programa no Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná, Goiás, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Temos em torno de 22 unidades frigoríficas conveniadas e conseguimos atingir a marca de 10 mil toneladas de carne de hambúrguer entregues ao McDonald’s.

Revista AG – Quando da inauguração do programa, imaginou-se que o sucesso fosse ser tão grande?
Weber –
Quando começamos alguma coisa, acreditamos que haverá êxito, mas o interessante é que o programa teve seu início na minha primeira gestão. Aí passamos pelo processo experimental e as coisas foram caminhando de forma bem sucedida. E sempre digo que uma das grandes vantagens do programa é que cada presidente da ABA fez sua parte, trabalhando em cima do legado do antecessor.

Revista AG – O que mais motiva os resultados? Talvez uma remuneração mais justa pela carne de qualidade? Em Santa Catarina, a premiação já atinge 10% sobre a arroba, por exemplo.
Weber –
O parâmetro fundamental para o criador para obter a remuneração é ter o animal no mínimo meio- -sangue Angus e dentro das regras estabelecidas pelo Programa. Esses animais, preenchendo os requesitos de gordura, acabamento e terminação, assim que o produto for chancelado pelo técnico da Angus, receberá bonificação. Ressalto que não é obrigatório estar associado à ABA para receber as vantagens do nosso programa.

Revista AG – No quesito genética, há uma cobrança frequente sobre uma maior valorização da genética nacional – a maioria do sêmen utilizado é importada. Qual a posição da ABA sobre o assunto?
Weber –
Hoje 70% dos sêmens utilizados no País são estrangeiros e o restante, nacional. Podem dizer que é muito pouco, mas às vezes nem sempre santo de casa não faz milagre. Nós temos Angus excepcional tanto na Argentina quanto nos Estados Unidos, extremamente utilizados pelo criador brasileiro. Mas buscamos aumentar a quantidade dos touros nacionais, tanto que participamos de provas de progênie com touros brasileiros. Contudo, temos o aspecto de que as grandes centrais são estrangeiras e, por isso, teríamos dificuldades logísticas para produzir a quantidade de sêmen que necessitamos, pois não temos uma quantidade de touros suficiente para atender a demanda brasileira. Portanto, é fundamental refrescar genética; é bom, é importante trazer sêmen de outros países. Lógico que falo de touros testados e aprovados para sempre manter a genética em um alto padrão.

Revista AG – Alguns catálogos de centrais já oferecem sêmen de touros clonados. O senhor enxerga essa tecnologia com bons olhos?
Weber –
Eu sei de alguns animais clonados, pessoalmente nunca usei na minha fazenda, por isso não tenho experiência para transmitir aos leitores, mas a biotecnologia e a pesquisa estão de tal maneira avançadas que não dá para se duvidar de nada mais nesse mundo. Conheço fêmeas clonadas que já pariram, portanto é perfeitamente viável.

Revista AG – O senhor esteve reunido com a ministra Kátia Abreu para entregar demandas da cadeia produtiva. Como o senhor recebeu a nomeação dela e o que espera para essa pasta em 2015?
Weber –
Eu gostei muito da nomeação da ministra. Ela é perfeitamente identificada com os anseios da classe rural, por fazer parte do meio. Certamente, tem grandes chances de fazer um grande trabalho. Acho que, em um momento como esse, temos de estar unidos em benefício da pecuária e da agricultura do Brasil.

Revista AG – A proibição das Avermectinas L.A. também figurou na pauta. Há possibilidade de o Mapa rever a normativa?
Weber –
Creio que sim, inclusive a ministra disse claramente para nós em reunião que pretende bater o martelo sobre essa demanda no início de março. E a impressão que ficamos é que ela aceitou com muito entusiasmo a nossa pretensão de vermos liberadas as Avermectinas L.A. Obviamente, é importante que se diga que nós assumimos o compromisso, em nome dos pecuaristas, conscientes, responsáveis que cumpriremos os prazos de carência que os produtos exigem. Ou seja, se for abater o animal daqui a 30 dias, então não posso usar o medicamento de longa ação porque vai contaminar a carne.


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