Leite

 

Qualidade do LEITE

Para manter, basta fazer a lição de casa

Renata Travaglini Gonçalves*

Produzir leite de qualidade é desejo tanto de produtores quanto de laticínios, resulta em maior rendimento de derivados lácteos e lucro por litro de leite produzido.

A origem do leite deve ser de animais saudáveis e a qualidade deve ser preservada da ordenha na fazenda ao beneficiamento no laticínio. Obtendo um leite de qualidade e garantindo sua manutenção na ordenha e armazenamento na fazenda, preservamos boa parte da qualidade da matéria-prima que chegará à mesa do consumidor.

A qualidade do leite produzido é avaliada por três pilares: a Contagem de Células Somáticas (CCS); a Contagem Bacteriana Total (CBT(; e o teor de sólidos do leite. É considerado de qualidade alta um leite com baixos índices de CCS e CBT, com alto teor de sólidos.

Dessa forma, para obter baixos os índices de CCS e CBT, devemos manter animais saudáveis no rebanho, garantir a retirada do leite de forma higiênica e a manutenção da sua qualidade pelo resfriamento imediato após a ordenha. Inclusive, temos em vigor a Instrução Normativa IN-62 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), que determina os limites máximos aceitáveis desses índices de qualidade para cada região do Brasil.

Para garantir então a qualidade do leite, é necessário estabelecer alguns pontos de controle na fazenda, tais como controle efetivo da mastite no rebanho; implementar boas práticas de ordenha; assegurar a manutenção preventiva e a limpeza correta dos equipamentos e tanque; e garantir o resfriamento adequado do leite.

A mastite é uma doença multifatorial e que causa os maiores prejuízos à produção de leite. Seu controle tem como objetivo a eliminação de infecções do rebanho, devendo ser feito de diferentes formas: por tratamento de vaca seca; descarte de animais crônicos; identificação e tratamento imediato de casos clínicos; e redução de novas infecções. A prevenção de novos casos de mastite é fundamental para a qualidade do leite e através da adoção de manejo de ordenha adequado e manutenção dos equipamentos já é possível evitar novas infecções da glândula mamária nas vacas. Além dessas medidas, deve-se atentar também para a redução da entrada de vacas com mastite contagiosa na fazenda, adotando medidas de biossegurança, para evitar que os novos animais sejam fontes de infecção para o restante do rebanho.

A adoção de medidas de biossegurança irá reduzir o risco de entrada de agentes causadores de mastite em rebanhos livres do problema ou reduzir sua disseminação entre as vacas. Assim, a introdução de novos animais para aumento ou reposição do plantel exige alguns cuidados como avaliação quanto à ocorrência de doenças infecciosas mais comuns na região, solicitação ao vendedor de comprovação de vacinações, registros de ocorrência de doenças e tratamentos, ou a colocação dos novos animais em quarentena, a fim de evitar a introdução desses novos agentes que poderão causar surtos de mastite no rebanho.

Para implementar as boas práticas de ordenha e ter sucesso, é preciso, antes de tudo, orientar os ordenhadores, explicando seu papel-chave na manutenção da qualidade do leite.

O princípio básico de uma ordenha eficiente é ordenhar tetos limpos e secos. Além disso, a adoção de uma rotina eficiente possibilita a identificação de infecções existentes e prevenção de novos casos de mastite. Durante a ordenha, é preciso seguir alguns passos: teste da caneca; pré-dip; secagem dos tetos; colocação e retirada correta dos conjuntos de ordenha e pós-dip.

O teste da caneca possibilita a identificação de casos de mastite clínica, alertando para a anotação e controle desses casos e tratamento dos animais com orientação do médico- -veterinário.

A realização do pré-dip permite ordenhar tetos limpos e desinfetados, eliminando as bactérias presentes e prevenindo novos casos de mastite ambiental. Além disso, auxilia na redução da contagem bacteriana do tanque de resfriamento e na estimulação dos animais para a ordenha.

A secagem dos tetos e a colocação dos conjuntos de ordenha de forma apropriada evita deslizamentos de teteiras, entrada de ar, perda de vácuo, diminuição da eficiência de ordenha e lesões aos tetos das vacas.

A correta retirada dos conjuntos evita sobreordenha e lesões ao teto.

O pós-dip é apontado como a medida isolada mais importante no controle da mastite contagiosa.

Além de seguir os passos da rotina de ordenha, é preciso atentar para o tempo que esses animais esperam para serem ordenhados e se estão bem estimulados e tranquilos. O tempo e o estímulo são fundamentais para a ordenha completa do leite, aproveitando o pico de oxitocina. A oxitocina, hormônio que estimula a liberação do leite, só age em animais livres de estresse e por um período de tempo, em torno de 6 a 8 minutos. Assim, os animais devem ser conduzidos de forma tranquila para a ordenha e bem estimulados através da realização do teste da caneca, do pré-dip, e da secagem dos tetos, que são pontos que auxiliam na estimulação dos animais.

Como parte da rotina, é de extrema importância o uso de filtros de leite de qualidade e a troca ao final de cada ordenha. Os filtros de leite devem ser específicos para o equipamento e certificados para uso em contato com o leite. A filtragem do leite maximiza sua qualidade e valor, além de proteger o equipamento de ordenha e o tanque de resfriamento contra partículas estranhas, refletindo em mais qualidade do leite e maior rentabilidade ao produtor.

Além disso, o filtro pode ser um ótimo termômetro de como está a rotina pré-ordenha. Se estiver muito sujo ou com grumos, pus ou filete de sangue, indica que o teste da caneca, para detecção de casos clínicos de mastite, e que o pré-dip, para higienização dos tetos, não estão sendo realizados de maneira apropriada.

Para ordenha completa e eficiente, e ainda para a manutenção da saúde dos tetos dos animais, é fundamental que o equipamento esteja funcionando adequadamente. Além da manutenção preventiva e periódica, devemos atentar para a higienização completa dos equipamentos e tanques de ordenha.

Por isso, é muito importante a realização das revisões preventivas conforme recomendação do fabricante. Algumas partes do equipamento, tais como as teteiras, estão em contato direto com a vaca, por isso devem ser trocadas a cada 2.500 ordenhas ou seis meses, o que vier primeiro, para prevenir mastite e prejuízos à saúde dos tetos dos animais.

Para uma manutenção preventiva eficiente, é necessária tanto a substituição das peças sobre-usadas por peças novas e originais como também a aferição do desempenho do equipamento, com ferramentas específicas que seguem parâmetros internacionais, lembrando que somente um técnico habilitado e treinado pela empresa fabricante terá capacidade de regular o equipamento de ordenha adequadamente.

Manutenção preventiva do equipamento é uma necessidade

Além das revisões periódicas, o equipamento e o tanque precisam ser higienizados corretamente. A higienização deve ser feita imediatamente após a ordenha ou a retirada de leite do tanque e compreende uma série de etapas para remoção completa dos resíduos de leite e o controle da multiplicação bacteriana.

Para a limpeza adequada, aconselha- se o uso de detergentes apropriados e de qualidade. Eles irão garantir a higienização sem agredir as partes e peças do equipamento.

É importante ressaltar que não só o detergente é responsável pela eficiência de limpeza. Outros fatores são igualmente importantes, como a água em quantidade suficiente e qualidade – a água para limpeza deve ser potável; o tempo de circulação e a temperatura das soluções de limpeza; a ação mecânica, seja pela turbulência na limpeza de equipamentos canalizados ou por meio da escovação na limpeza manual; a ação química dos detergentes; e a realização das etapas completas para remoção de todos os resíduos do leite.

Para iniciar a limpeza, é preciso enxaguar com água morna, em torno dos 45°C, sem circular, até que essa água residual saia com aspecto límpido do equipamento. Em seguida, é preciso preparar uma solução com detergente alcalino clorado, com temperatura em torno dos 75°C, e circular por dez minutos, sendo que a temperatura de saída da solução deve estar acima dos 40°C. Essa etapa irá remover os resíduos de gordura e proteína do leite que ficaram aderidos na superfície do equipamento. A temperatura de entrada e saída da solução é muito importante, pois garante a solubilização da gordura e, assim, a eficiência da limpeza.

O terceiro passo é um enxágue, sem circular, com água em temperatura ambiente, capaz de remover qualquer resíduo de detergente da etapa anterior.

Na sequência, deve-se realizar a etapa de limpeza ácida, com solução preparada com detergente ácido e água em temperatura ambiente. Circular essa solução por dez minutos antes de descartá-la.

Após a circulação da solução de detergente ácido não é preciso enxaguar. Assim, o pH da tubulação fica mais ácido, o que inibe a multiplicação bacteriana. A etapa ácida deve ser feita em toda limpeza para remoção pontual dos resíduos de mineral do leite que ficaram aderidos na tubulação, evitando a formação de pedra do leite.

Antes da próxima ordenha, recomenda-se a realização da sanitização com produto específico para ordenha. Essa medida ajuda na redução da contagem bacteriana total do leite do tanque.

Lembrando que após cada etapa de limpeza o equipamento deve ser bem drenado para remoção de toda a solução da tubulação e partes do equipamento. Além disso, o equipamento deve estar bem regulado para garantir a eficiência da limpeza.

Melhorar a qualidade do leite é sempre um desafio, é preciso mapear os problemas, identificar os pontos de melhoria, encontrar as soluções que melhor se ajustam à realidade da fazenda e conscientizar produtores, ordenhadores e todos envolvidos na produção de leite para colocá-las em prática.

Dessa forma, todos na cadeia leiteira se beneficiam, desde o produtor até o consumidor. Adotando medidas de biossegurança, ordenhando animais saudáveis através de uma rotina de ordenha eficaz, com equipamento bem mantido e higienizado, garantimos a manutenção da qualidade do leite, a produtividade e a rentabilidade ao produtor, o alto rendimento de derivados lácteos ao laticínio e o padrão de qualidade para o consumidor.

*Renata Travaglini é médica-veterinária


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