O Confinador

 

CONFINAMENTO NAS ÁGUAS

Anderson Vargas* e Ulisses Minozzo**

O confinamento de bovinos de corte no Brasil apresenta aumentos expressivos no número de animais confinados. Isso decorre dos resultados alcançados com a prática que registra, ano a ano, aumento da eficiência produtiva do rebanho e uso mais eficiente da mão de obra, maquinários e insumos. Mais profissionalizada, a atividade cresceu rápido e agregou ganhos em escala e qualidade de carcaça dos animais terminados. Há pouco tempo, o simples ágio no preço do boi, na época da seca, em relação ao período chuvoso, era o estímulo para a implementação de novos projetos de confinamento. Devido à escassez de animais nesse período do ano, quando os ganhos eram obtidos pelo diferencial no preço da arroba e a produtividade ainda não era o foco principal da atividade, o confinamento surgia como alternativa para fornecer aos animais uma alimentação mais equilibrada do que aquela disponível no pasto.

Atualmente, o confinamento tornou- se uma atividade de risco, com necessidade de controle de dados, manutenção de máquinas, treinamento e especialização da mão de obra, infraestrutura adequada, manejo nutricional, gestão empresarial entre outros fatores, pois o simples estoque de arrobas não é mais garantia de sucesso da atividade. Ela requer disciplina e planejamento que assegurem resultados mais eficientes. Tradicionalmente, o confinamento é visto como uma atividade específica para o período da seca, quando ocorrem déficits quantitativo e qualitativo das forrageiras tropicais, além de ser utilizado como ferramenta para o manejo de pasto na propriedade pecuária. Contudo, diante das novas tecnologias e do comportamento do mercado, o confinamento mostra-se atraente mesmo no período das águas.

Nos últimos anos, verifica-se uma constância no preço da arroba do boi, com oscilações menores durante o ano, o que torna a atividade atraente também no período das águas. Em 2014, verificou-se que o preço da arroba, para março de 2015, foi negociado no mercado futuro, com uma diferença de apenas R$ 5,64 em relação ao valor negociado em novembro de 2014. Considerando que estamos falando da época de pico da safra de animais de pasto, a diferença pode ser considerada pequena (4%). Com certeza, o confinamento na época de seca apresenta vantagens em relação a outros períodos, mas, nesse cenário, manter animais em confinamento durante o restante do ano tem se mostrado vantajoso.

Animais na lama em área sem terraplenagem e/ou compactação.

Por que confinar nas águas?

Toda atividade econômica procura elevar a rentabilidade do sistema e, ao mesmo tempo, busca identificar alternativas para assegurar o aumento da produtividade e, concomitantemente, o aumento da rentabilidade da operação. Consequentemente, isso possibilita a obtenção de um lucro mais elevado por unidade de produção, o que, nesse caso, corresponde a dizer que o lucro será maior por animal abatido. O confinamento geralmente proporciona bons índices de desempenho zootécnicos e pode gerar os aumentos de produtividade necessários para a rentabilidade do sistema, com elevação do peso de abate dos animais. Em anos de reposição cara é necessário diluir mais o custo de compra do animal. Sem dúvida é necessário produzir mais, mantendo o custo competitivo. Por outro lado, o senso comum nos diz que é preciso “aproveitar a forma disponível”, que, nesse caso, é o boi magro.

O confinamento nas águas gera oportunidades para aumentar a rentabilidade da propriedade, produzindo mais arrobas na mesma área e proporcionando a capitalização do produtor por meio da venda de animais nas águas e, principalmente, através da diluição do custo fixo da infraestrutura. Isso ocorre porque, apesar dos confinamentos permanecerem ociosos por uma grande parte do ano, o capital continua imobilizado, constituindo-se em importante alternativa para reduzir o custo operacional da atividade.

Confinar animais nas águas não é, contudo, uma decisão fácil. Ao tomá- -la o produtor deve recorrer a um planejamento cuidadoso e detalhado. Ao realizá-lo, uma pergunta deve ser respondida: o que é necessário para confinar nas águas?

Um dos principais pontos a ser observado para que se tome a decisão de confinar nas águas é com relação à estrutura do confinamento. Ela deve proporcionar condições de conforto e bem-estar animal e assegurar que os animais possam desempenhar todo o seu potencial de ganho. Diante disso, uma das primeiras mudanças diz respeito à lotação por curral, que é reduzida para a metade do que é convencionado para o período seco. Na seca, são reservados entre 10 – 15 m2/cab., enquanto nas águas a medida adotada é 20 – 25 m2/cab., que reduz a lotação do confinamento. Assim, a capacidade estática do confinamento é reduzida pela metade, aspecto que incide diretamente no custo operacional da unidade, ocasionando sua elevação. Observa- -se, no entanto, que o aumento não é proporcional; portanto, não significa o dobro de custo.

Os currais de engorda necessitam ter uma declividade de 2% a 6%. Além disso, recomenda-se uma limpeza antes do início de atividade nas águas e posterior à engorda na seca. Ressaltase que a declividade é necessária para que haja um escoamento da água superficial. Assinala-se, também, a necessidade de curvas de contenção ou valas de escoamento que direcionem o resíduo para lagoas específicas para esse fim. Além disso, é imprescindível que o curral seja avaliado a fim de que pontos de acúmulo de água e lama sejam identificados e corrigidos.

A maneira mais eficiente de se evitar locais de grande acúmulo de água nos piquetes é o trabalho prévio, ainda na construção do confinamento, de terraplenagem e compactação do solo. Essa atividade é uma das mais caras no processo de construção de uma unidade confinadora; todavia, apresenta excelentes resultados quando se decide confinar nas águas, pois evita o acúmulo de lama e consequente atolamento dos animais.

Muitos projetos incluem a engorda durante as águas no planejamento. Para isso, currais com cobertura são construídos para evitar a perda de alimento. Os currais contribuem para manter a estabilidade dos alimentos e evitam os efeitos da chuva sobre ele. A fim de possibilitar o seu maior aproveitamento, no momento de construí-lo, é importante lembrar que ele necessita de pé de cocho e bebedouro bem compactados ou com calçamento (3 metros) para que o acesso do animal ao alimento não seja comprometido.

Cocho com calçada ou “pé de boi”

Uma alternativa é a construção de morrotes, pequeno monte elevado no meio do curral de engorda, cuja medida varia entre 1,5 a 2,5 m2/animal, que funciona como um local de refúgio, principalmente nos momentos em que a área comum apresenta muito barro. Nele, o animal sente-se mais confortável para deitar e ruminar (veja no esquema a seguir).

“Morrotes” utilizados em confinamento nas águas

Uma redução na ingestão de alimento e queda no desempenho animal ocorre com o advento das chuvas e o acúmulo contínuo de lama. Isso é atribuído ao aumento da exigência líquida de manutenção, ou seja, a quantidade de energia que o animal precisa ingerir para manter a funcionalidade mínima do organismo, conforme demonstra Pohl (2002), no quadro 1.

Quadro 1 - Efeito da altura de lama na ingestão de alimentos, desempenho animal e eficiência alimentar:

Devido a essa característica, intrínseca ao período, faz-se necessário o uso de alternativas alimentares que possibilitem o aumento da densidade da dieta fornecida ao animal, ou seja, mesmo com consumo inferior, obtém- -se um aporte suficiente de nutrientes capazes de gerar ganhos ao animal. Diante disso, o uso de alimentos mais concentrados em termos de energia ou proteína é indicado. Uma boa opção no período é a utilização de gordura protegida (GP) e ureias de degradação lenta (ureia protegida), que possibilitam a “abertura de espaço” na dieta e seu consequente adensamento, desde que formulada de maneira correta. Um exemplo prático seria uma dieta formulada para uma ingestão de 10 kg de matéria seca/cab./dia, na qual seria incluído 15% de caroço de algodão (extrato etéreo - EE de 19%). No caso de substituí-lo integralmente por GP (85% EE), apenas 3,4% do insumo seria necessário para que o mesmo nível de EE dietético fosse alcançado, abrindo 11,6% de “espaço”, que deverá ser utilizado para ajuste de proteína da dieta (por causa da saída do caroço) e maior adensamento, como a inclusão de mais milho, por exemplo.

Deve-se também trabalhar com atenção à matéria seca (MS) dos ingredientes, sobretudo, dos ditos volumosos, pois são eles os que sofrem a maior ação das chuvas durante o manejo, como no processo da retirada de silagem ou, até mesmo, no processo de utilização de bagaço de cana do “monte”. Se adotarmos como única fonte de volumoso o bagaço de cana, a variação de 5% na MS desse insumo pode representar, se não ajustado, uma variação de aproximadamente 10% do volume de bagaço, ingerido diariamente pelo animal confinado (para mais ou para menos). Na prática, a consequência disso seria maior ou menor inclusão de fibra na dieta, aspecto que pode causar discrepâncias no desempenho animal, devido a distúrbios metabólicos ocorridos em virtude da falta de fibra ou queda de desempenho, devido ao excesso de fibra.

Outro fator primordial para o sucesso da atividade, não só nessa época, mas, durante todo ano, é o manejo de fornecimento de alimento, que, no período chuvoso, deverá ser mais fracionado do que no período seco, nos locais em que o cocho não for coberto. Esse manejo prioriza a ingestão rápida de alimento, sem que esse fique exposto às condições climáticas. Outra necessidade é a observação constante dos cochos de alimentação, para que não ocorra acúmulo de água e, caso isso ocorra, a limpeza com escoamento das águas será necessária. Em unidades que utilizem maquinário robusto para mistura e fornecimento de alimentos, o manejo dos ingredientes torna-se mais complicado nessa época. Outro item a ser observado diz respeito à condição dos corredores de trato, para que os custos de manutenção do maquinário não sejam elevados.

Muitos pecuaristas utilizam o confinamento nas águas para aumentar o capital de giro da propriedade e tornar a atividade mais lucrativa. No entanto, deve-se considerar que, devido à severidade das condições climáticas, a manutenção preventiva e corretiva no confinamento e equipamentos eleva os custos. Isso ocorre, sobretudo, devido ao uso mais intenso dos equipamentos, necessário em condições severas (chuva e lama). Esse aspecto acarreta aumento do custo operacional, já afetado pela redução na capacidade estática, devendo ser considerado na avaliação da utilização do confinamento na época das águas.

Não existe receita para o sucesso da atividade nessa época, mas com um bom planejamento, gestão e condução do empreendimento é possível realizar a engorda de bovinos em confinamento nas águas e obter lucro. Para isso, é importante que cada propriedade adapte as alternativas conforme suas características e necessidades, pois, como falou Miguel Cavalcanti (Beefpoint): “O que parece impossível pode ser apenas difícil”.

*Anderson é Gerente Nacional de Vendas Bovinos e **Ulisses é zootecnista


Inscrições abertas para a Escola de Confinamento

Da Redação

A Associação Nacional dos Confinadores (ASSOCON) definiu o cronograma e a programação da Escola de Confinamento Assocon 2015, que acontecerá em cidades de Goiás, Mato Grosso, Tocantins, Rondônia, Pará e São Paulo, começando em 25 de fevereiro e seguindo até o final de julho. “Esses cursos envolvem parte teórica e prática e visam estimular a profissionalização dos sistemas de produção e aumentar a mão de obra qualificada no campo. Buscamos a valorização dos funcionários nas propriedades rurais, além do desejado relacionamento positivo e troca de informação entre os participantes”, explica Juliane da Silva Gomes, assistente técnica da Assocon.

As Escolas de Confinamento Assocon 2015 terão os seguintes temas: Manejo de pastagens, nutrição de bovinos confinados, reprodução animal, produção de bezerros, sanidade, gestão e risco comercial, estrutura, produção de silagem e manejo racional. O curso também inclui visitas em unidades de confinamento. Cerca de 900 funcionários já foram capacitados pela Escola de Confinamento, desde 2010. Esse projeto já foi realizado em 20 diferentes cidades do país e conta com o patrocínio e apoio de diversas empresas e entidades ligadas ao segmento. As inscrições já estão abertas e podem ser realizadas pelo site www.assocon.com.br ou pelo telefone (62) 3432-0395. O valor é de R$ 120,00 por participante. Os associados e colaboradores de confinamentos filiados à Assocon são isentos da taxa de inscrição.


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