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A importância de realizar o exame andrológico

Alessandra Corallo Nicacio*

Quando se fala em reprodutor para a bovinocultura de corte, muitas dúvidas e preocupações surgem, como qual o potencial genético do animal ou se esse animal é realmente melhorador para o rebanho onde será utilizado, bem como o preço do animal, quanto tempo poderá ser utilizado na propriedade, entre outras. Porém, a dúvida mais importante deveria ser: qual o seu potencial reprodutivo? Saber quantas fêmeas o reprodutor pode cobrir e se ele está em boas condições reprodutivas deveria ser a base das preocupações. Porém, como responder essas questões? Somente com exame andrológico podemos saber se o animal está ou não apto à reprodução.

A importância do exame andrológico está no impacto direto que os reprodutores têm sobre a fertilidade do rebanho. Uma vaca infértil representa a perda de apenas um bezerro, enquanto o touro infértil pode representar a perda de 25 a 50 bezerros, conforme a relação touro:vaca utilizada. Sabe-se, hoje, que em torno de 5% dos touros em serviço são animais inférteis, ou seja, que não produzirão filhos. E, pior ainda, entre 20 e 40% dos touros em serviço são subférteis, isto é, produzem menos filhos do que deveriam. Identificar o animal infértil é relativamente mais simples, pois é possível verificar que aquele não emprenhou nenhuma vaca na estação de monta. Mas, e o subfértil? Afinal, existem filhos desse touro que provam sua fertilidade. Somente com a realização de exame andrológico é possível saber se o animal está ou não apto à reprodução. Portanto, antes de iniciar a estação de monta, deve-se realizar exame andrológico em todos os reprodutores.

O exame andrológico é altamente específico, pois avalia tanto as condições clínicas gerais quanto as reprodutivas e precisa ser realizado por médico- veterinário. Pode ser dividido em duas etapas principais: exame clínico geral e exame específico. No primeiro, avaliam-se as condições gerais de saúde, questiona-se o histórico do bovino e os motivos pelo qual o exame está sendo realizado (rotina ou existência de queixa). Essa etapa é bastante importante, pois é quando é feito levantamento completo do animal, como libido, desempenho, temperamento, se já produziu bezerros e histórico sanitário. Além disso, investigam-se aprumos, condição corporal, conformação racial e zootécnica.

No exame específico, avaliam-se os órgãos reprodutivos como testículos e epidídimos (inseridos na bolsa escrotal), glândulas anexas (por palpação retal), pênis e prepúcio. Em relação, especificamente, aos testículos, epidídimos e bolsa escrotal é necessário prestar atenção a simetria, temperatura, sensibilidade dolorosa, lesões e cicatrizes. Parte importante dessa etapa é a avaliação de testículo, obtendo-se as chamadas biometrias, que são as medidas de altura, largura, comprimento e perímetro (ou circunferência) escrotal. Essas medidas são importantes, pois, a partir delas é possível ter noção do potencial de produção de sêmen do animal. A medida de circunferência (ou perímetro) escrotal pode, inclusive, ser utilizada para estimar a precocidade sexual do reprodutor. Lembrando que existe variação racial entre os valores ideias e mínimos para essa característica, de modo que consulta à literatura adequada se faz imprescindível para elaboração de laudos.

No laboratório, é feita a contagem de espermatozoides viáveis

Ainda na etapa de exame específico, vem a colheita de sêmen, geralmente realizada por eletroejaculação, pois é uma técnica que não exige condicionamento prévio do animal para execução. Embora tenha essa vantagem, o método também tem certas desvantagens, como a amostra de sêmen ser contaminada por urina, ou mesmo pode vir muito diluída por excesso de líquido seminal, fator a ser considerado.

A técnica de eletroejaculação consiste em introduzir a probe do eletroejaculador, por via retal, de modo que os estímulos elétricos sejam realizados sobre as vesículas seminais e o animal ejacule. Os estímulos elétricos devem ser feitos de modo ritmado, com estímulos com 2 a 3 segundos de duração e descanso de 2 a 3 segundos de duração, sempre observando o comportamento do animal, podendo ser aumentada a intensidade dos estímulos gradualmente. É importante comentar que a eletroejaculação é uma técnica que pode ser vista com maus olhos por leigos no assunto. Isso se deve ao fato de que é uma técnica que causa certo desconforto ao animal durante a execução, podendo acontecer queda do animal, mesmo quando devidamente contido em tronco de contenção. Devido ao desconforto, durante o exame, e ao fato de que touros reprodutores são menos manejados e, portanto, menos acostumados com o tronco de contenção, pode acontecer de o animal ficar agitado, podendo inclusive se jogar no chão. O médico-veterinário que estiver conduzindo o procedimento tem de observar o comportamento do animal o tempo todo e parar ao perceber que o mesmo está ficando estressado. Animais que nunca passaram por exame andrológico, em especial aqueles mais jovens, podem ficar mais desconfortáveis. Assim, recomenda-se que, nesses casos, os primeiros estímulos sejam bem leves, até que o animal se acostume e depois ir aumentando gradualmente. Os cuidados com o animal nesse momento são extremamente importantes, pois não podemos causar desconforto desnecessário ou excessivo. O exame andrológico necessita ser conduzido de forma cuidadosa, principalmente nessa etapa de colheita de sêmen por eletroejaculação.

Após essa etapa, o sêmen é avaliado imediatamente para saber se existem espermatozoides vivos e, posteriormente, para verificar a concentração da amostra e a porcentagem de gametas normais. As avaliações feitas ainda no curral são denominadas imediatas e consistem de avaliar motilidade e vigor. A avaliação de turbilhonamento também é feita, porém, como a técnica de eletroejaculação permite que as amostras sejam mais diluídas, esse parâmetro não deve ter tanto peso no julgamento final. A motilidade, segundo a literatura do assunto, é o parâmetro de qualidade seminal de maior correlação com taxa de prenhez, o que define a importância dessa análise.

Após as análises imediatas, devem ser colhidas amostras para a denominada avaliação tardia, que consiste em analisar a concentração e a morfologia espermática. A análise da concentração é feita a partir de amostra diluída de sêmen, em concentração conhecida, visualizada em câmara de Neubauer com auxílio de microscópio, para contagem de células, com posterior cálculo da quantidade de espermatozoides no ejaculado. Trata-se de parâmetro muito importante, inclusive para determinação de puberdade e maturidade sexual. Já a análise da morfologia espermática pode ser feita por diferentes metodologias, sendo o ideal a combinação entre elas. Pode ser feito esfregaço ou a diluição de amostra do sêmen puro em solução de formol-salina para posterior exame no microscópio (denominada câmara úmida). Recomenda- -se que seja feito um esfregaço e uma preparação de câmara úmida por ejaculado, pois são técnicas complementares e que permitem avaliar diferentes aspectos dos espermatozoides. Após a análise das lâminas, é feito o cálculo da porcentagem de espermatozoides normais em relação aos com alterações. Calcula-se a porcentagem de alterações (ou defeitos) individuais e a porcentagem total de alterações (ou defeitos). O cálculo de defeitos individuais indica quantos espermatozoides apresentam determinado defeito. E o cálculo do total de defeitos indica a somatória de defeitos no ejaculado avaliado.

De posse de todos os resultados, o médico-veterinário emite laudo indicando se o animal está apto, apto com reservas ou não apto à reprodução. Para emitir esse laudo, consideram- -se os padrões de qualidade recomendados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e do Colégio Brasileiro de Reprodução Animal (CBRA), os quais determinam valores para motilidade, concentração e porcentagem de patologias espermáticas, tanto individuais quanto totais. Caso o animal seja considerado apto com reservas, recomenda-se que o exame seja repetido após 30 a 60 dias.

Alessandra Nicacio adverte que o exame andrológico vale pelo prazo de 30 dias

O exame andrológico avalia o animal naquele momento e, portanto, tem validade de 30 dias. Laudos emitidos há mais tempo devem ser repetidos, principalmente se o intuito for comercializar o animal. Não se recomenda a aquisição de touros sem laudo emitido dentro do prazo de validade, pois não existem garantias do potencial reprodutivo do animal. Além disso, antes de iniciar a estação de monta, todos os reprodutores devem passar por exame andrológico, pois esses animais passaram alguns meses do ano em pastos afastados, sem que tenham sido acompanhados nesse período. Então, cerca de 30 a 60 dias antes do início da estação de monta, é necessário avaliar todos os reprodutores. Recomendamos esse prazo para que haja tempo hábil para nova avaliação em casos de animais que não estavam em boas condições reprodutivas, ou mesmo para descarte e compra de novos animais.

A realização do exame andrológico é extremamente importante, tanto dentro da propriedade - realizado antes da estação de monta, permitindo a melhor utilização dos animais e auxiliando na obtenção de melhores índices reprodutivos - quanto para comercialização dos lotes. Todo animal deve ser comercializado com laudo de exame andrológico emitido por médico-veterinário, dentro do prazo de 30 dias, afinal, é a única forma de demonstrar o potencial reprodutivo do animal.

*Alessandra é pesquisadora de Reprodução Animal na Embrapa Gado de Corte – alessandra.nicacio@embrapa.br


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