Feno e Silagem

 

PRÉ-SECADO

A silagem que conquista cada vez mais as propriedades brasileiras

Rafael Camargo do Amaral*

Popularmente chamada de pré-secado, a silagem de gramíneas, a qual passou por um processo de desidratação (secagem) durante o momento da colheita, vem ganhando espaço no cenário nacional. Muito conhecida no hemisfério Norte, principalmente nos países europeus, o pré-secado é uma opção ao produtor de leite ou de carne, no qual o principal objetivo desse alimento é ser fonte de fibra e proteína aos animais.

Apesar de a grande maioria dos pré-secados ser proveniente de gramíneas temperadas, como é o caso do azevém, triticale e aveia, as gramíneas tropicais também podem ser utilizadas para tal finalidade, como é o exemplo do tifton, coast cross e estrela roxa.

No Brasil, o uso é concentrado na Região Sul, onde o clima contribui para o desenvolvimento das forrageiras temperadas, sendo utilizado em grande escala em propriedades leiteiras como fonte de fibra na dieta dos animais.

Por que pré-secar a forragem?
O processo de confecção do pré- -secado é bastante complexo, envolvendo muitos maquinários para se obter o produto final para ensilagem. Dentre as etapas, destaca-se a ceifa da forragem, o revolvimento, o enleiramento e o recolhimento. O tempo entre o corte da forrageira e a ensilagem é bastante variável, sendo dependente, principalmente, das condições climáticas de cada região. Em regiões com predomínio de temperaturas elevadas e baixa umidade, o tempo de pré-secagem pode variar de 4 a 6 horas, entretanto, em regiões com maior umidade e menores temperaturas, o tempo pode se estender por mais de 24 horas. De forma geral, a recomendação é que a planta não seja exposta ao ambiente após a ceifa por período superior a 48 horas. A planta, quando cortada e na presença de oxigênio, oxida nutrientes, o que leva à redução de seu valor nutritivo. Nessas ocasiões, verifica-se a elevação nos valores de fibra da forragem, principalmente pelo fato do elevado consumo de componentes solúveis.

Figura 1 - Ceifa da forragem:

Figura 2 - Revolvimento e enleiramento:

Figura 3 - Recolhimento:

Estudos dos fatores que determinam o padrão de fermentação de silagens têm se concentrado na interação entre os teores de matéria seca (MS), carboidratos solúveis e poder tampão da forragem (resistência que a forragem oferece para a queda do pH). Quando forragens são ensiladas com baixos teores de MS, níveis de carboidratos solúveis inferiores a 2,2%, em base da forragem úmida e baixa relação entre carboidratos e poder tampão, os riscos de fermentações indesejáveis são maiores, tornando imprescindível o uso de recursos que modifiquem esse cenário. A pré-secagem se enquadra nesse quesito. Perdas por fermentação secundária, de efluente produzido no silo, bem como as deteriorações aeróbias, são responsáveis pelas maiores fontes de perdas de energia, que podem variar de 7% para materiais bem conservados, até valores da ordem de 40% em condições de deterioração exacerbada.

Segundo Rafael Amaral, é importante colher a planta no estado fisiológico correto

A pré-secagem caracteriza-se como uma das práticas mais eficientes em incrementar o teor de MS da forragem. Esse benefício é acompanhado da redução da capacidade tamponante do material. Sendo assim, ao submeter gramíneas a essa prática, haverá restrição da disponibilidade de íons inorgânicos para formação de novos sistemas tampões com os ácidos orgânicos, produzidos durante o processo fermentativo.

Dados de pesquisa demonstram que a pré-secagem propicia incremento significativo no teor de MS, o que beneficia o processo fermentativo, reduzindo teores de N-NH3 (nitrogênio amoniacal) das silagens, parâmetro que está atrelado à decomposição da proteína por bactérias indesejáveis e, consequentemente, as perdas de matéria seca.

O objetivo é ensilar-se um material com elevado valor nutritivo (forragem colhida no estágio fisiológico correto) e, geralmente, a decisão do momento do corte deve ser aliada com a melhor produtividade e qualidade da forragem, fatores que são antagônicos; se o produtor almeja elevada produção de massa, a qualidade será perdida, sendo que o contrário também é verdadeiro. Para gramíneas de inverno, esse momento é definido quando a planta apresenta-se em estágio vegetativo, pouco antes dos 20% de espigamento. No caso do azevém, nesse estágio a planta apresenta altura próxima a 30 cm. Com o final do processo de pré-secagem, a forragem deve apresentar valores de MS variando de 30 a 45%. É importante salientar que o excesso de pré-secagem pode prejudicar o processo de fermentação da forragem, o que irá conferir silagem propensa à deterioração.

Figura 4 - Forrageira em estágio vegetativo (A) e início de espigamento (B):

Todo cuidado é pouco, erros durante a pré-secagem podem prejudicar o bolso do produtor e a saúde do animal.

Particularmente, a ensilagem desperta esse interesse por se tratar de um processo que ocorre em anaerobiose. A utilização de substrato, os carboidratos solúveis, gerando ácidos graxos voláteis, com os micro- -organismos como principais agentes do processo, são passíveis de alteração do padrão de fermentação, caso o ambiente não seja o ideal para o processo de ensilagem. Um exemplo são as forragens com elevada umidade. A intensidade de perdas de matéria seca e a produção de compostos prejudiciais ao animal se elevam e afetam grandemente toda a atividade produtiva.

Muitos fatores podem afetar a segurança e a qualidade do produto, entre eles, a própria composição da forragem, a colheita, a secagem, o uso de aditivos e o processo de ensilagem, incluindo o carregamento, a compactação e o fechamento do silo. Um crescimento descontrolado de micro-organismos pode afetar a saúde animal e acarretar em perdas nutricionais, aquecimento da silagem, e, posteriormente, a redução na vida de prateleira dos alimentos produzidos à partir do leite e da carne de animais alimentados com essa silagem.

Processos bioquímicos que ocorrem na ensilagem, desde a colheita até o fornecimento ao animal, alteram a composição da forragem. A atividade enzimática da planta no início, enquanto ainda está respirando, juntamente com a atividade microbiana de bactérias ácido-láticas, Clostridium, enterobactéria, Bacillus, fungos e leveduras causam mudanças consideráveis na composição da forragem.

Alguns parâmetros têm sido utilizados para a avaliação qualitativa de silagens, como pH, teor de amônia (N-NH3), teor de MS, carboidratos solúveis, concentração de ácidos orgânicos (acético, lático e butírico), teor de etanol (Tabela 1) e avaliação microbiológica de enterobactérias, esporos, bactérias ácido láticas, leveduras e fungos (Tabela 2).

Tabela 1 - Riscos em vacas leiteiras alimentadas com silagens, associados a parâmetros qualitativos:

Tabela 2 - Critérios para identificação da colonização por fungos e leveduras em silagens:

Uma estratégia para controlar a fermentação indesejável é o uso de inoculantes bacterianos, cujo objetivo principal é favorecer o processo fermentativo, de modo que haja declínio mais rápido do pH, e consequentemente, restrição na atuação de bactérias, principalmente as do gênero Clostridium, responsáveis pela síntese de ácido butírico e degradação de proteínas, que, em última análise, será responsável pelo declínio na ingestão de MS pelos animais, em decorrência dos produtos secundários da fermentação.

O rápido declínio do pH dependerá dos ácidos produzidos pelos microorganismos. A eficiência da síntese de ácido lático a partir de glicose está intimamente relacionada às bactérias homofermentativas.

Dentre os principais micro-organismos utilizados para a fermentação de gramíneas, destacam-se: Pediococcus pentosaceus, Enterecoccus faecium, Lactobacillus plantarum e Lactococcus lactis. As duas primeiras bactérias auxiliam para o início da fermentação, sendo mais tolerantes ao pH elevado, já L. plantarum é uma bactéria efetiva na produção de ácido lático, o mais forte do processo é o maior responsável pela rápida queda do pH. Lactococcus lactis é uma bactéria com uso recente em silagens. Tem por característica a produção de nisina, bacteriocina que tem habilidade de combater o desenvolvimento de Clostridium.

Avaliação do pré-secado
Na Tabela 3, estão apresentados parâmetros que indicam diferentes aspectos da deterioração de silagens, com as possíveis causas. A melhor avaliação a ser realizada na silagem, com toda certeza, é a amostragem e o envio para um laboratório credenciado. Entretanto, existem algumas ferramentas na propriedade que podem ser utilizadas para identificar o grau de qualidade de determinado parâmetro. Na tabela 4, pode ser visualizado o exemplo do teor de matéria da silagem pelo simples apertar de uma amostra e verificação da quantidade de líquidos exudados pela mão, como também pelo formato criado, ao se pressionar uma porção de silagem com a mão (Figura 5).

Tabela 3 - Problemas identificados em silagens de gramíneas e possíveis causas:

Tabela 4 - Avaliação indireta do teor de matéria seca:

Figura 5 - Identificando o grau de umidade da silagem:

No final de todo o processo, é fundamental saber qual foi o custo da silagem para a propriedade, porém, o cálculo não deve ser apenas referente ao investimento para ensilagem (plantio, adubação, gastos com combustíveis, vedação do silo). Na propriedade, também se deve medir as perdas do processo, seja pesando uma bola de pré-secado ou fazendo cubicagens no caminhão que traz a forragem para o silo. O importante é saber quantas toneladas de MS foram ensiladas e quantas toneladas de MS realmente foram utilizadas para alimentação dos animais. Vale lembrar que a produção da silagem é de exclusiva responsabilidade da propriedade. Ser consciente que é possível gerenciar a produção do volumoso será a certeza de ganhos operacionais e financeiros para a sustentabilidade do sistema de produção.

*Rafael Amaral é zootecnista e doutor em Ciência Animal pela USP/ ESALQ – rafael.amaral@delaval.com


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